🔵 Malucos, beleza!


 

Estava acostumado a testemunhar coisas estranhas que não alteravam a rotina da cidade de São Paulo. Uma vaca na calçada ou a Galinha Pintadinha de asas dadas com uma senhora não roubavam a atenção dos cidadãos paulistanos.


Como eu enxergava detalhes que quebravam o mau humor da Capital, quando via esse tipo de coisa jamais deixava de abrir um sorriso. Nesse contexto, não estranhei aquele amontoado de sósias de Raul Seixas interrompendo o meu caminho à faculdade.


Àquela noite, a Praça Ramos foi ocupada por uma convenção do “Maluco Beleza”. A quantidade de sósias não me surpreendeu tanto, pois com óculos escuros, barba escondendo o rosto, jaqueta de couro e voz rouca com sotaque baiano até eu passo como a reencarnação do ídolo. Então, ouvindo aquelas conversas dos fãs do roqueiro, imaginei as pouco verossímeis experiências esotéricas, bem como alguns falando como se fossem o próprio.


O encontro anual dos idênticos ao doidão me obrigou a achar tudo aquilo normal. Pensei que conseguiria abaixar a cabeça e seguir em frente, afinal, eu já havia visto concentrações muito parecidas em encontros de motociclistas. Entretanto, a “fotografia” daquilo era inusitada demais. Por onde eu olhava, havia várias cópias daquele músico.


Raul Seixas é um dos raros casos de idolatria póstuma. Sim, é uma devoção macabra, mas o velho roqueiro brasileiro juntou mais fãs depois de morto. Seus entusiastas não se contentam em cantar suas músicas e beber vinho barato; têm que arranhar umas cançõezinhas no violão, usar uma indumentária imortalizada pelo ídolo, cultuar símbolos pagãos, falar com o mesmo timbre e abordar uns papos muito loucos, supondo que o original ainda estivesse nessa onda.


Até acho que a mitologia por trás de Raul permanece e tende a aumentar, porque o próprio está impossibilitado de decepcionar seus seguidores. Mas, como será impossível refutar a minha teoria, vou cometer uma “heresia”: se Raul Seixas estivesse vivo e bem de saúde gravaria com Luan Santana, faria show com a Anitta e participaria do Roberto Carlos Especial.


Isso acabaria com as lendas de que “Raulzito” era envolvido com magia, ritos místicos, ocultismo e bruxaria, também arruinaria com aquela aura de sociedade secreta, ordens iniciáticas e esotéricas.


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