🔵 Manto sagrado


 

Já era hora de comprar uma camisa oficial do meu time: usada, que era o que eu podia comprar.


Estranhamente, meu amigo são-paulino tinha exatamente o que eu queria: a camisa número 10 do Corinthians, com o patrocínio da Kalunga (que era praticamente um dos símbolos). “Ótima procedência” e precinho camarada, material de primeira qualidade. Na loja de artigos esportivos custava caro, portanto, não tive dúvidas, comprei a peça. 


Meu amigo era um integrante da Independente, torcida organizada do São Paulo, sendo que nos anos 90 as torcidas estavam fora de controle. Essas informações já eram suficientes para eu supor que essa camisa do Corinthians era produto de um quebra-pau inesquecível, não de uma compra em loja esportiva.


Para diminuir o peso na consciência, o resultado do provável saqueamento não estava literalmente manchado de sangue, nem rasgado. Como não guardava rastros de violência, o antigo proprietário deveria estar bem. Pelo menos, era isso que a minha mente insistia em acreditar, para eu me conformar.


Fiquei algum tempo com aquele amuleto contraditório. Numa espécie de dissonância cognitiva, eu sabia que seria hipocrisia beijar o distintivo. A roupa não combinava com a alegria das vitórias do meu time. Ninguém sabia, mas aquela peça tinha sido obtida, supostamente, de forma truculenta, mediante espancamento. Numa corrente do mal, uma gangue de palmeirenses poderia confiscar o material mediante chutes e porrada. Pior, eu não teria o direito moral de reclamar.


Possível butim de um massacre, aquele objeto não é causador de acontecimentos estranhos ou inexplicáveis, mas se tornou uma espécie de amuleto amaldiçoado. Portanto, o peso, não da camisa, mas da consciência, me “obrigou” a abandonar a camiseta 10 simbolicamente manchada de sangue.


Hoje, a camisa corinthiana dessa época se tornou um cultuado item de colecionador. Mas aquela confecção, com aquela origem, eu não gostaria de ter nem poderia chamar de manto sagrado.


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