🔵 O comício raiz


 

Orestes Quércia não era o candidato favorito. Porém, aquele sujeito que cumprimentava a velha guarda de Avaré como um político do interior, estava fazendo a campanha que o levaria ao Palácio dos Bandeirantes.


Confirmando o meu interesse incomum, aquele passeio dificilmente faria outro moleque de 11 anos abandonar seus brinquedos. Mas meu pai, sabendo do gosto heterodoxo (para não dizer de mau-gosto), me chamou para ver Quércia na sua parada na turnê da mentira.


Em 1986, eu já tinha mais medo do dragão da inflação do que de monstro embaixo da cama, então, eu já sabia o que significava a indestrutível hiperinflação da “década perdida”, que consumia minhas desvalorizadas moedinhas.


No caminho interiorano, um cenário composto por praça, coreto e igreja; na plateia, lógico, havia um bêbado que apoiava o candidato em tudo e um cão cor de caramelo à procura de algum pedaço de carne. O palanque modesto sustentava o político Almino Afonso e a atriz Ruth Escobar, a única pessoa famosa ali. Havia também outros políticos, dentre eles, um antigo candidato a prefeito de São Paulo, que perdeu para Jânio Quadros. 


Orestes Quércia prometia melhorias, moralização na política e priorizava uma porção de coisas: aquele blá-blá-blá que só enganaria uma criança. Ledo engano, depois, tive certeza. Ele conseguiu engrupir um número suficiente de pessoas no estado, que o elegeram governador. Portanto, naquela noite, dedo em riste e voz firme, peremptoriamente, ele deve ter convencido parte da plateia.


Naquele palanque, o “papagaio-de-pirata” e correligionário de Orestes Quércia era o futuro ministro da Economia, que acabou com a hiperinflação, e presidente: Fernando Henrique Cardoso.


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