🔵 Tem um Miranda na loja
A loja de livros e CDs da rede francesa contava com uma presença significativa: Carlos Eduardo Miranda. Aquilo logo chamou a atenção: ele surgiu vestido como um adulto fantasiado de criança ou como um cicerone de resort havaiano.
Tudo lembrava um conjuntinho infantil: a camisa florida era engraçada, mas foi junto do tênis colorido e os óculos escuros na testa que o gordinho de cabelos grisalhos ganhava um visual de eterno adolescente. Toda aquela composição dava um aspecto de “nerd” de meia-idade, daqueles que veneram lutas lendárias entre super- japoneses e que contam histórias ficcionais como se fossem verdadeiras. O “gauchês” tornava aquela figura mais peculiar.
Talvez o grande público o conhecesse como “o gordinho jurado do Ídolos”, mas eu o conhecia como “o gordinho produtor musical”. Apesar de escolher CDs seja seu trabalho, ele sempre exibiu esse visualzinho de férias eternas. Miranda empilhava CDs na sacola como quem comprava frutas na feira ou apanhava itens na prateleira do supermercado. Enquanto isso, eu ouvia minhas preferências para decidir qual levar.
Exibindo um preparo físico de quem joga videogame vinte e quatro horas por dia, Miranda estava indo às compras, portanto, ele ía selecionar os lançamentos que seriam a nova tendência fonográfica. Entretanto, o exótico burocrata musical rechonchudo e de cabelos quase brancos causava um conflito mental e roubava a atenção pela espalhafatosa presença, afinal, mesmo “sub”, era uma celebridade.
Na televisão, ele parecia só mais um personagem criado por roteirista, figurinista etc. Ali, nos corredores da FNAC, Miranda também parecia um personagem, mas que sabia que era o único exemplar daquela espécie
