🔵 Atividade extracurricular
Aquela aula vaga parecia ser o passe-livre para celebrar a abolição educacional, saquear e destruir a sala de aula. Deu gosto, acho que foi libertador ver a garota mais quietinha da turminha do primário participando daquela rebelião infantil.
Mas o inspetor de alunos interrompeu o nosso pequeno carnaval fora de ambiente e de época, bem como a descoberta de um mundo sem a vigilância dos adultos. Tivemos que formar uma fila rumo à Diretoria. Alguns nunca sequer haviam recebido um mísero bilhetinho, de modo que a Diretoria era o equivalente à cadeia.
Como éramos muitos, ocupávamos todas as cadeiras que existiam naquela sala opressiva; o restante, na verdade, a maioria, estava em pé, escorando-se nos quatro lados da parede. A diretora demorou, mas veio nos “atender”. Para ser sincero, ela veio para nos dar uma correção coletiva.
A diretora sabia que a ameaça de submeter algum aluno à sua presença era o último estágio depois da ameaça, da bronca, do castigo e do bilhetinho. Da sala da vergonha poderiam sair as punições mais severas: a suspensão; a inclusão no terrível, mas jamais visto, “Livro Negro”; ou a expulsão.
Sabendo que aguardávamos suas recomendações, ela procurou externar claros sinais da liturgia do cargo. Entretanto, o protocolo foi quebrado pelos cumprimentos e principalmente pela conversa com uma aluna conhecida. Isso trouxe risadas, não porque algo engraçado foi dito, mas de alívio. As risadinhas foram de alívio, no entanto, ainda nervosas, pois teríamos que justificar o nosso rito de emancipação não autorizado.
A nossa aventura não passou de uma lição de psicologia barata de novela das 8. Ir para a Diretoria não foi uma sessão de tortura medieval, como dizia a lenda dos corredores escolares. Por ser uma pena coletiva, para a qual a turma inteira foi mandada, desde a aluna preferida ao “capeta em forma de guri”, foi até uma troca justa, pelos minutos de anarquia subversiva infantil em sala de aula.
Para alguns, essa nossa estada na temida sala da Diretoria foi a única experiência de transgressão disciplinar escolar; para outros, apenas mais uma. O fator disruptivo foi que, a partir desse dia, passou a existir uma cumplicidade que aproximou a princesinha preferida da professora do rebelde que parecia abrigar o demônio no corpo.
