🔵 Cama, mesa e banho


Nos tempos em que o fígado fazia mal à bebida, chegávamos ao boteco com o entusiasmo de quem não tinha grandes responsabilidades e a maior preocupação era onde ir no fim de semana. Parecíamos indestrutíveis e a conversa girava pelas últimas desimportâncias da músicas, esportes e coisas do bairro.


Com o tempo, as compras farmacêuticas tornaram-se frequentes e doenças, dores, nomes de remédios, bem como exercícios ganharam o protagonismo nas rodas de conversa. O que antes era papo de “véio” tornou-se o assunto preferido para os velhos amigos com lugar de fala.


Mas a “pá de cal” no vigor daquelas conversas de mesa de bar surgiu quando eu entrei numa filial das Lojas Mel. O auge da humilhação foi no momento em que comecei a frequentar a maldita loja de utensílios domésticos à procura de promoções e soluções para o lar.


Eu, que falava de inutilidades como música, esportes e viagens, comecei a falar de remédios e agora disputava espaço com donas de casa nos corredores de uma loja que eu avaliei boa porque tinha uma infinidade de traquitanas de cama, mesa e banho.


Assim, minha rotina passou a ser arrumar um tempinho para correr para as Lojas Mel do Ipiranga. Esse comércio era um tipo de lojinha de 1,99, só que de 4,99, 9,99, 14,99 etc. Nas minhas andanças pelo centro comercial do bairro, sempre voltava com uma “tapauér”, um talher, uma cartela de parafuso, um penduricalho qualquer e o tal de puxa-saco — céus, achava que só a minha mãe tivesse aquilo!


Aquilo tudo significava a derrota. Pensei: a pouco tempo, eu pedia a saideira; hoje, luto com todas as minhas forças para conquistar uma garrafa de amaciante na seção de produtos de limpeza. Pergunto onde ficam os prendedores de roupa: a vendedora Célia faz uma cara de quem sabe mais do que eu e com desprezo aponta, de maneira burocrática, o corredor: cabisbaixo, eu agradeço e obedeço-a.


O nome daquela loja era o fundo do poço e representava um nome muito doce para uma realidade tão amarga. Bastava dizer que era cliente das Lojas Mel para adivinharem que eu tinha uma porção de panos de prato.


Diferentemente de como imaginava, meu apartamento nunca foi encontrado com cinzeiros sujos e latas de cerveja espalhadas. Pelo contrário, logo na porta havia um tapete de boas-vindas e uma guirlanda no Natal.


 

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