🔵 City Hotel


 

O City Hotel, apesar da antiguidade e aparência ameaçadora, não escondia nenhuma história de fantasma; não se eternizou por suas paredes testemunharem os segredos da alma humana; muito menos algum “rockstar” foi encontrado morto em um de seus quartos. Na verdade, esse prédio do centro da cidade apenas tinha a atmosfera da São Paulo antiga, quando ainda existia a desconfiança de que ali ainda ía voltar a ser “a Terra da Garoa”.


Pois bem, naquela noite de sábado, íamos a uma festa numa cidade próxima à Capital. Mas paramos na entrada de um edifício no Centro: era o City Hotel. Era novidade que alguém vivesse onde o concreto e o trânsito pareciam hostis a moradores, mas era exatamente alguém do hotel que aguardávamos.


Mesmo na condição de moradores, o “status”  era de hóspedes. Lá dentro, perdia-se a noção se era dia ou noite, sendo que qualquer compromisso parecia que começaria num bar com um copo na mão, já que seus habitantes utilizavam aquele imóvel pejorativamente como hospedeiro. Portanto, o hotel conservava a vocação de mero “pit stop” para turistas. Um panorama que fazia a existência se resumir à vida noturna paulistana e luzes artificiais.


Eu sempre havia reparado no imóvel que parecia ter vida própria. Era bom fazer parte daquele cotidiano que compunha o “skyline” da metrópole, bem como o amontoado de luzes que ilustravam sua noite. Na densidade de luzes, abaixo das antenas e pára-raios, eu estava ali, como quem fica no portão de casa. 


O arranha-céu do City Hotel “engolia” quem se aproximava do Centro Nervoso, que abria seus túneis aos trens do Metrô, que eram obrigados a tornar-se subterrâneos. Eu, que estava acostumado a morar na periferia, onde se ouve um cão latindo bem longe, achava aquelas avenidas, ônibus e edifícios, bem como os ecos das sirenes e buzinas bastante impessoais. Tudo típico da região central; mas naquele momento eu fazia parte daquilo, circulava pela calçada com um descompromisso que só podia ver a diferença refletida nos olhares, de quem estava indo ou vindo, presos dentro dos ônibus.


Há algum tempo, o prédio do City Hotel, na rua Brigadeiro Tobias, foi demolido e deu lugar à Estação Luz do Metrô.


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