🔵 Dupla personalidade
No acampamento de Brotas, encontramos a paz que traria o esquecimento que era Carnaval. Não chegava a ser um retiro espiritual, mas um distanciamento da festa popular feita sob medida para os que necessitam de um feriado para experimentar a concessão da alegria.
As caminhadas à cidade revelavam um cenário composto por aspectos além da pracinha, a igreja, a ruralidade predominante. Não havia a folia da qual havíamos fugido, mas sim a figura ameaçadora do sujeito com cara e indumentária de um vilão do Velho Oeste. Aquilo já seria suficiente para trazer o arrependimento profundo de estar ali.
Contudo, seu aspecto soturno e olhar desconfiado enquanto amolava um facão trouxe um pouco de pavor e o desejo que aquilo tudo fosse apenas a fantasia, caracterização, mergulho no personagem e representação de Lampião, o rei do cangaço. Pelo sim, pelo não, aquela imagem tirava o sossego e a coragem de cruzar o seu caminho.
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O Carnaval contaminou a rua principal de Brotas. Apesar de frustrar minhas intenções iniciais, aquele carnavalzinho de rua acabou sendo bem-vindo porque pelo menos anulou o terrível sertanejo universitário e o funk carioca.
As lâmpadas dos postes exibiram o cara do facão na sua versão mais amigável: um serelepe tocador de sanfona. E o Sátiro (Billy the Kid tupiniquim) brindava o povo com simpatia e suas histrionices ao som de “bom xi bom xi bom bom bom”.
O alívio descontraído que as primeiras batucadas carnavalescas, a escuridão da noite e as lâmpadas sendo acesas traziam contrapunha a presença incômoda do sujeito que passava o dia afiando uma faca. Como um fauno, sua verdadeira índole gerava dúvidas, mas ainda restava a esperança de que aquilo tudo não passasse de um “cosplay” de Lampião.
Durante dias, nossas expedições pela cidade sofreram uma expectativa: se encontraríamos aquele habitante aparentemente nervoso armado do objeto perfuro-cortante ou sorridente empunhando um instrumento musical.
Mal os tambores convidavam o vilarejo à festa, lá vinha o bestial sanfoneiro oferecer sua contribuição para o povo de Brotas desopilar. Mesmo mal tocado, o instrumento musical e as canções carnavalescas se tornaram agradáveis, ao invés de uma arma branca prestes a transformar um “retiro de Carnaval”, num “camping” de uma cidadezinha, em um inesquecível derramamento de sangue.
