🔵 Espantando os males
O local já seria suspeito somente por ser em Guarulhos. O endereço isolado, mal iluminado e difícil de encontrar parecia representar risco de vida. Um karaokê escondido naquele lugar só poderia ser coisa de máfia ou lavagem de dinheiro, na melhor das hipóteses; talvez uma confraria muito hermética, seita ou sociedade secreta. Mas como era um convite de uma amiga, eu e meus amigos resolvemos subir no segundo andar daquele imóvel com cara de depósito abandonado.
O primeiro aspecto não era bom. Pelos olhares, tive a clara impressão de que não éramos bem-vindos. O salão escuro, com alguns focos de luzes coloridas, revelava olhares orientais como se perguntassem: o que vocês querem aqui, brasileiros? Eu me lembrava daquelas cenas nos filmes: quase sempre eram reuniões da Yakuza (máfia japonesa), quando tudo acabava em pancadaria, garrafadas, tiros e sangue.
Uma estranha movimentação criava a autodefensiva expectativa de que alguém surgiria no salão com uma maleta cheia de maços de dólares ou um pacote de droga. Quando alguém cantava alguma canção japonesa, eu tinha a incômoda sensação de estarmos sendo ofendidos e ameaçados de morte em outro idioma. Não havia garotas dançando “pole dance”, mas àquela altura, o que eu menos queria era mais algum elemento que compusesse o ambiente hostil dos filmes de máfia japonesa.
O karaokê pareceu bem mais amigável quando avistamos as nossas amigas brasileiramente mais descontraídas. Talvez a inexistência da referência de filmes de mafiosos as deixasse relaxadas, sendo presas distraídas e fáceis naquele ambiente inóspito. Ao mesmo tempo, tínhamos que parecer à vontade e bem integrados àquele karaokê oriental.
Algumas horas depois e algumas garrafas a menos ajudaram a afastar toda a paranoia gerada pelas figuras mentais de uma imaginação fértil. Bem como, algumas canções de pagode dos anos 90 e música sertaneja foram suficientes para mostrar que a realidade pode ser bem pior que ser perseguido pela Yakuza.
