🔵 Estratificação famélica
O sinal do intervalo destruía a utopia das salas de aula. A fila da sopa reunia uma casta que com a contribuição da cantina separava os estamentos sociais. Contudo, “o dinheiro pro lanche” era o acesso àquela escadaria, que significava a ascensão social que tirava alunos da fila da sopa e transportava à cantina. O simples deslocamento para a nutrição terminava com as duas aglomerações que, com um olhar mais atento, era a representação da nossa pequena sociedade estamental.
O comércio de guloseimas reservava uma prateleira compatível com o baixo poder aquisitivo. E era lá que estava o salgadinho amarelo — maldosamente apelidado de isopor, por causa da consistência de enchimento de embalagem de papelão. O cheiro de chulé e o gosto de pneu queimado também contribuíam para o precinho camarada.
Minhas economias não eram suficientes para o trio esfiha/Coca/chocolate, mas arremataram o isopor, digo, salgadinho. O sabor da iguaria era horrível, mas era amarela e fazia barulho ao mastigar, isso já era o bastante. O nulo valor nutricional era compensado pelo aspecto lúdico da baixa gastronomia.
A batalha pelo alimento, depois da longa espera, chegou ao fim, mas foi acelerada pelo toque do sinal, que deixou pátio e corredores vazios. Orgulhosamente, de posse do meu lanche, adquirido no comércio infantil, corri para a aula de História.
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A explicação deixava uma pergunta sem resposta. Aquela questão ficou no vácuo, abandonada, era uma dúvida quase existencial. Era uma pergunta de vestibular, de concurso público, teste de conhecimento. Não, era uma charada, um dilema, e eu sabia a resposta. Tínhamos um enigma, e somente eu poderia decifrá-lo.
Eu estava roendo minha refeição, entretanto, não poderia deixar aquela oportunidade de demonstrar os meus conhecimentos de História. Respondi: Américo Vespúcio!
A fonética do sobrenome me cobriu de farelo do isopor amarelo. Essa imagem roubou a grandiosidade da resposta correta, e eu nunca mais esqueci de Américo Vespúcio, o navegador italiano.
