🔵 A imagem que diz menos que 1000 palavras

 


Ir para a Galeria do Rock sem voltar com um CD ou uma camiseta tornaria aquela incursão no submundo do Centro incompleta, mas a peça de roupa com uma estampa inusitada emprestaria traços bastante radicais à minha personalidade. A figura da criatura movida a fumaça me tornaria alguém perigoso.


A camiseta com um extraterrestre fumando um baseado me pouparia o trabalho de fingir ser transgressor, além disso, a roupa tinha uma frase, especificamente um trocadilho bem sacado e sacana, atribuído à criatura interplanetária, que dizia: “Take me to your dealer”. O trocadilho maroto parafraseava o clássico do autoritarismo cósmico “Leve-me ao seu líder” para “Leve-me ao seu traficante”. 


Na falta de inspiração para escolher uma estampa legal de alguma banda de rock, levei para casa uma camiseta preta com o desenho mais chocante dali, que não tinha nada a ver comigo, mas que carregava o potencial de apavorar a sociedade e a “família brasileira”. Como manter a sobriedade e o respeito se um dia eu já ostentei uma camiseta com o desenho de um humanoide  fumando maconha e procurando uma boca de fumo?


***


Ao resolver ir à praia de Santos exibindo a estampa do ser estranho viciado, eu desci a Serra do Mar ostentando a camiseta que equivalia a uma ficha criminal extensa. A camiseta era subversiva o bastante para eu parecer alguém que merecia ser temido. Provavelmente, àquela hora, era muito mais seguro circular pelas ruas do cais do Porto do que onde havia um sujeito exibindo uma camiseta com a estampa de uma criatura intergaláctica “dando um tapa na pantera”.


Para mim, tanto fazia estar com a provocadora camiseta negra do alienígena doidão, uma blusa do cachorrinho Snoopy ou um casaco de lã tricotado cuidadosamente pela minha avó. Isso realmente não afetaria a minha personalidade. Mas só por aquela roupa, um violão e umas garrafas de cerveja formarem aquela cena nossa mesa virou um para-raio de piratas, náufragos, degredados, meretrizes, andarilhos etc. Minha camiseta do repulsivo ET maconheiro atraiu a nata do lumpemproletariado, a escória da sociedade, que mal suspeitava que aquilo tudo não passava de uma farsa.


Atualmente, o pedaço de pano com o alienígena “mutcho loko” não deve mais existir. Contudo, se, contrariando o mais plausível, estiver por aí, pode ter encontrado um proprietário adequado ou trafegar pelos quarteirões da Cracolândia.




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