🔵 Las Vegas de boteco
As coisas haviam mudado. Foi quando percebi que esperava que, quando eu parasse na porta de um bar, tudo estivesse exatamente como eu imaginava: meus amigos sempre no mesmo local. Só variava se a mesinha era de plástico ou de ferro e a logomarca estampada.
Mas aqueles dias mostravam que tudo havia mudado. Todos, em pé, depositando moedas, a fé e acionando a alavanca. A maquininha caça-níqueis acabou com nossas mentiras sinceras e monopolizaram as atenções. Aquele panorama dizia que eu estava perdendo algo.
Mesmo sem apostar meus centavos naquela novidade eletrônica, eu aderi à torcida para que aquela máquina fosse programada para demonstrar alguma compaixão e sentisse um pouco de dó de nós, despejando assim, uma cachoeira de moedas. Nós, a classe trabalhadora, não depositávamos, junto das moedas, grandes ambições, apenas ganhar umas cervejas a mais. Ou seja, de qualquer maneira, o prêmio acompanharia as nossas economias, ficando na caixa registradora do bar.
O maior prazer era vencer a tecnologia, mas a enxurrada de neurotransmissores despejada em nosso cérebro também garantia alguma satisfação, enquanto nos instalava o novo vício. O “dinheiro fácil” brotava, mas o pagamento era tão miudinho que a mínima ilusão do enriquecimento rápido era substituída por uma garrafa de cerveja.
Assim era o nosso cassino na “Las Vegas” da periferia de Guarulhos. Os sons e as luzes realmente tinham o poder de hipnotizar quem parasse sequer 1 minuto na frente dos caça-níqueis de boteco. Tudo isso misturado à embriaguez mais a ilusão de ser remunerado por um equipamento programado para limpar nossos bolsos, enquanto oferecia diversão, sons, luzes coloridas e alguma esperança de vencer.
Eu já não me conformava com o fim do tilintar das moedinhas. Aquilo nunca deveria parar! Pronto. Sem nunca ter apostado um único níquel, eu estava viciado, como um fumante passivo.
A Justiça interveio, e aquela palhaçada foi interrompida. Recolheram todas as nossas máquinas contraventoras, e todos fomos libertos do vício maldito do jogo. Continuamos apenas viciados em álcool.
