🔵 Logo ali, depois do monumento


 


Desde que foi erigida, em 1962, continua em pé, alvissareira, solerte, orgulhosa. Essa inexplicável construção  é, dia sim, dia também, degradada; mas permanece aguentando intempéries, atentados e crimes contra a honra.


Selecionada para reparação histórica, sempre é alvo de manifestações, é acusada de representação de um matador de índios, sua estrutura de pedra e ferragem já ardeu em chamas. 


No entanto, a estátua do velho bandeirante suporta vento, chuva, calor e frio, como sentinela, gigante pela própria natureza, impávido colosso, guardando o bairro de Santo Amaro. Nem a Guerra dos Emboabas pôde ser pior que aguentar o barulho e a poluição do trânsito de São Paulo.


Pejorativamente conhecida como *monstrumento”, a homenagem, que deveria ser chamada de monumento, já se tornou algo obrigatório na paisagem do distrito paulistano.


Borba Gato recebeu a gigantesca homenagem, hoje é insultado diariamente, mas permanece vigilante. Resignado com o triste destino, eis o símbolo do controverso vulto paulista que foi transportado do século XVIII para ser humilhado e vilipendiado pela eternidade. 


O Borba Gato de botas, arcabuz, gibão e algibeira foi um bandeirante condenado a sofrer toda sorte de calúnias, injúrias e difamações. Seus amigos ganharam nomes de rodovias; ele ganhou um boneco gigante. Mesmo de gosto duvidoso, a representação do “Borbinha” alegra os transeuntes, bem como, segue em posição de sentido, aparentemente sendo corajoso, intrépido e destemido. 


Durante séculos, o bandeirante segue numa guerra que parece não ter fim. Ele se preparou para travar batalhas na mata, contra feras, insetos e animais peçonhentos; hoje, Borba Gato tem que fugir da fúria de manifestantes furiosos tentando reescrever a história.


O horrendo monumento, apesar de tão feio, já foi incorporado ao mobiliário urbano como uma peça folclórica, portanto, obrigatória. Praticamente nos arrancaria da zona de conforto, com sua ausência, imaginar que teríamos que usar como referência um posto de gasolina, uma farmácia, uma padaria ou um farol, toda vez que formos lá pelos arrabaldes da Zona Sul.


Vida longa a esse totem paulistano que nunca imaginou ser chamado de genocida e fascista. Das matas escuras dos séculos XVII e XVIII para desbravar uma avenida da capital.








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