🔵 O feiticeiro
Em qualquer situação, o fanatismo deixa a irracionalidade comandar; sobretudo, no futebol, quando o emocional transforma torcidas em fileiras medievais antagônicas. Apesar da semelhança dos instintos primitivos, espadas são substituídas por barras de ferro.
Algum grau do que pode ser chamado de fanatismo dura 90 minutos. Durante o jogo, eu sigo aquela máxima: “Futebol é a coisa mais importante dentre as menos importantes”. Porém, um fato me tira toda a moral quando afirmo que nunca fui um torcedor fanático: eu já acendi uma vela para o Corinthians.
Ignorando completamente que Deus não me privilegiaria em detrimento dos campineiros, eu improvisei o meu ritual e tentei manipular as forças da natureza. Meu altar futebolístico prescindiu de genuflexão, mas não de uma reza brava.
Com 13 anos, lancei mão daquela manobra mística para direcionar o resultado da final entre Corinthians e Guarani. O time não me inspirava muita confiança, portanto, apelei para a magia. Mas, sem saber, eu estava invocando forças poderosas e desconhecidas.
Embora a minha fé fosse incipiente, eu dominava aquele elemento, de modo que produzi a chama, achando que ela faria o Corinthians vencer. A trapaça disfarçada de alquimia era um subterfúgio para não assumir que aquilo era pura apelação para me tranquilizar que as forças espirituais garantiram a vitória do time que tem São Jorge como padroeiro.
Minha pequena experiência pelo universo hermético do ocultismo esportivo resultou em êxito. Não faço a mínima ideia de quem me atendeu, só sei que o Timão ganhou o campeonato de 1988.
O um a zero me pareceu o suficiente. Abandonei a bruxaria antes que eu perdesse o controle do desconhecido e, segundo a lenda, o feitiço virasse contra mim, o feiticeiro.
