🔵 O impostor


 

Não seria permitido sequer suspeitar da existência do “Bom Velhinho", já que me fantasiei e participei daquela farsa.


Apesar de tudo ter acontecido no ambiente sagrado da igreja, com a barba de algodão, me senti um infiltrado descobrindo do que os adultos são capazes. Meio resignado, cooptado por aquele convescote sagrado e infectado pela síndrome do pequeno poder, retirava do saco os  punhados de balas e pirulitos e distribuía burocraticamente. 


No salão da igreja, eu tinha o poder de decidir quais crianças receberiam a guloseima gratuita. E, o que é melhor, o disfarce evitaria qualquer revolução infantil, bem como pilhagens, saques e futuras retaliações.


A figura mítica da Lapônia não faz nenhum sentido no Hemisfério Sul, por isso, continua sendo algo ameaçador, apesar dos esforços em vender-se como um idoso generoso e bonachão. Mesmo com a falsa construção de imagem, sempre haverá uma desconfiança de que atrás daquela lenda barbuda e fervendo num casaco vermelho existe um psicopata ou um pedófilo. No mínino, alguém da família. 


A roupa de Papai Noel me imbuía de uma autoridade que só podia ser resultado de intervenção divina, pelo menos diante dos outros pimpolhos, já que os adultos do conluio sabiam que aquilo tudo não passava de uma armação.


Eu estava dando vida ao velhote capitalista criado para estimular o consumismo. Se eu fosse desmascarado, seria odiado, e isso tinha o potencial para arruinar várias infâncias. 


A distribuição dos doces benzidos, a meu critério, era seletiva. Portanto, aquela regrinha seria a permissão para a execução de um “bullying” oficial. A picaretagem consistia em trapacear as outras crianças, fingindo ser mais velho e mantendo acesa a chama da lenda daquele velho impostor distribuidor de presentes. E eu nunca abriria mão daquela oportunidade.



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