🔵 O tabuleiro da prosperidade
Com claros sinais exteriores de riqueza, estava evidente que a sorte havia me ajudado a construir 4 casinhas no Brooklin. A partir daí, o rolar dos dados me propiciou levantar hotéis e mais casas em endereços nobres residenciais e comerciais: Leblon, Copacabana, Morumbi, Jardim Paulista, avenida Faria Lima etc. Meus rudimentos no mercado imobiliário realmente possibilitaram a obtenção de riqueza.
Entretido naquele jogo financeiro, fiquei contaminado pela cegueira monopolista e aproveitei os bons ventos da corrida de poder. Mesmo sem experiência, passei a ser proprietário de companhias: aérea, de navegação, de trem, de ônibus e uma frota de táxi.
Sem muita chance de expandir meus tentáculos capitalistas, passei a administrar meus imóveis e empresas, bem como, me acabar em gargalhar dos meus concorrentes que, ocupando minhas propriedades, me sustentavam naquela aventura pecuniária com multas. Além disso, o banco me abastecia com rendimentos. Se a situação não estivesse favorável, hipotecas, contribuição por participação e alguma sorte davam uma sobrevida naquela disputa.
Eu estava muito apegado à minha fortuna e todo aquele tesouro que havia acumulado, mas minha mãe sempre estragava tudo. Fui levado à falência múltipla da rentabilidade imediatamente. Sem a alternativa da recuperação judicial, fui intimado a ir deitar porque “amanhã é dia de aula”. Do alto da minha infância, não tive argumentos para continuar brincando de magnata e construir o meu império econômico, portanto, tive que obedecê-la.
Minha ruína se resumiu a maços de notas falsas, cartões de companhias inexistentes, casinhas verdes de plástico e hotéis vermelhos de plástico voltando para a caixa. Pronto. O meu sonho capitalista evanesceu quando uma ordem opressora, porém incontestável, foi dada. O tabuleiro foi dobrado e todo aquele sistema fiduciário ruiu como uma “pirâmide financeira”.
De volta à realidade: o som mágico da calculadora seria substituído pelo lápis; as resoluções com algarismos decimais, pelas continhas de mais, menos, vezes e dividir; as grandes somas pecuniárias, pelas moedinhas recolhidas no fundo da gaveta; um banco, cuja gerente eu podia chamar de irmã, por um cofrinho e um martelo; e a independência financeira, pela autoridade hereditária.
Sem saber, eu havia acabado de experimentar as dificuldades de viver num país hostil à livre iniciativa e ao rentismo. O ‘Banco Imobiliário’ era só o começo.
