🔵 Um tiozão no futebol
Naqueles tempos, não havia ações inclusivas nem o politicamente correto. Portanto, como a condescendência não me contemplaria com ações afirmativas, tinha que ser escolhido, para não experimentar o constrangimento existencial de sobrar nos times do clube.
Talvez, não sobrar na escolha das equipes do “Vila” tenha me poupado em horas em consultórios de psicologia ou alguns remédios no psiquiatra, por isso, evitado um eventual instinto psicopata
Sempre havia um “tiozão” passando bolas e fazendo lançamentos para a molecada, feito piranhas devorando um pedaço de carne, disputar a posse da bola e dar a vida por um gol.
O futibinha sangrento não tinha nada em disputa, mas valia tudo; era uma competição por um prêmio intangível, porém com um valor compatível com a Copa do Mundo. Aquele jogo de futebol aparentemente inocente era uma marcação de território silenciosa, praticamente o meio-termo entre a briga e o diálogo.
A igualdade só era perceptível quando todos implorávamos por um pouco de água. O precioso líquido para matar a sede vinha da torneira e deveria ser “fortificada” com insetos, bactérias, vírus, caramujo infectado com Schistosoma Mansoni e coliformes fecais.
Além de matar a sede, era um líquido transmissor de disenteria bacteriana, esquistossomose, febre tifoide, leptospirose, esquistossomose, cólera, toxoplasmose, amebíase, rotavírus, dengue, ascaridíase, hepatite A e diarreia de “Escherichia Coli”.
É assim... o choque de gerações é inevitável. Tudo parecia bem melhor quando não havia boletos e multas para pagar.
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Anos depois, no clube do Corinthians, eu era o “tiozão” distribuindo passes e fazendo lançamentos para a molecada, feito piranhas devorando um pedaço de carne, disputar a posse da bola e dar a vida por um gol.
