🔵 Videocasseteflix
O sinal avisava que era fim de aula. Isso só mudava o tom do que já estava sendo cochichado: depois do “estouro da boiada”, podíamos combinar de alugar o filme ‘Retroceder nunca, render-se jamais’. Na videolocadora ‘Project' encontraríamos a fita VHS.
Videocassete, locadora e fita são coisas “bem anos 80”, e o tal de ‘Retroceder nunca, render-se jamais’ não poderia ser diferente: Michael Jackson, bicicleta cross, breakdance, roupas coloridas e penteados extravagantes num filme de pancadaria! Além de ser coalhado de referências oitentistas, o ‘Retroceder nunca, render-se jamais’ estava sendo muito comentado pelos moleques fanáticos da época. Como o senso crítico e a estética cinematográfica não eram muito afiados — aliás, completamente ignorados — a audiência do filminho era inadiável.
Contudo, a procura era grande, portanto, não pudemos ver um tal de Jean-Claude Van Damme, que, como Schwarzenegger e Stallone, estava na carreira de extrair sangue na base da pancada. A obra ganhou a cultura pop, virou uma espécie de lenda, ícone da filmografia porradeira, item praticamente obrigatório para um garoto confirmar que viveu os anos 80.
Porém, dias, semanas, meses, anos e décadas passaram; verões, outonos, invernos e primaveras suscederam-se; o filme foi anunciado em várias “sessões da tarde”, madrugadas e nada de eu testemunhar aquela peça que foi o retrato de uma época.
Os compromissos e outras coisas realmente importantes fizeram eu esquecer de ‘Retroceder nunca, render-se jamais’. Apesar de fazer parte de uma infância remota, o filme era como uma figurinha que faltava para completar o álbum.
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Há poucos dias, finalmente surgiu a condição ideal para eu assistir ao filme ‘Retroceder nunca, render-se jamais’: é uma porcaria. Datado, de uma inocência muito oitentista e com atuações muito amadoras. Portanto, como não poderia deixar de ser, com um Jean-Claude Van Damme em início de carreira, suas principais falas não passaram de golpes.
As locadoras acabaram, os videocassetes viraram peças de museu e as fitas VHS caíram em desuso. Mas será que aqueles meus amigos assistiram à aventura ainda naquelas tecnologias obsoletas, ou seja, no tempo que aquilo parecia legal; ou igual a mim, em “streaming”, quando o senso estético permitiu a análise que se tratava apenas de um filme ruim e que só agradou como nostalgia?
