🔵 Atravessando a cidade


 

Com o encerramento das operações ferroviárias e término da circulação dos ônibus, minha única opção era a procissão de um homem só. Era insanidade voltar caminhando durante 4 horas. Como nas fases de um videogame, a madrugada paulistana é dividida em bairros a serem transpostos. Invisibilidade e passos firmes seriam equipamentos obrigatórios para vencer quatro horas de caminhada.


Cruzar a rua Augusta tendo uma trilha sonora imaginária ou somente buzinas e sirenes ecoando no concreto foi uma experiência antropológica. Chamarizes luminosos urbanos anunciavam grandiosos e permissivos paraísos artificiais. Os anúncios em neon apontavam portas e escadarias suspeitas: a saída de emergência para o desespero.


Nas “quebradas” sombrias das ruas e vielas escondidas e mal iluminadas, o “underground” do submundo também sofre suas alterações depois do pôr do Sol. A escuridão da cidade mostrou o fatalismo decadente, bem como a verdade dos documentários e reportagens. Pela reinvenção desse espaço metropolitano, eu tinha que atravessar.


Por mais estranho que tudo aquilo fosse, eu era o invasor, e por maior que fosse todo aquele terror psicológico, ficariam para trás: os semáforos sem trânsito dos logradouros escuros, dos muros das fábricas e também as pragas rasteiras.


Naquela maratona de rua, a cidade insistia em mostrar que era avançada tecnologicamente, mas os anúncios luminosos revelavam a baixa qualidade de vida, numa distopia que começaria ao amanhecer.


Da Zona Sul à Zona Norte, a densidade demográfica da fauna urbana foi flagrada em plena ocupação explícita dos espaços públicos. Quaisquer manifestações artísticas, por mais transgressoras que fossem, eram meros uniformes da madrugada.


Mesmo entrando em ruas suspeitas, a invisibilidade e o GPS natural substituíram o recálculo da rota. Longe de qualquer problematização acadêmica ou dos especialistas “intelectualóides”, todos os detalhes noturnos foram submetidos à minha abstração passageira.

 


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