🔵 Balada para dois
Atibaia era uma cidade com a idiossincrasia do interior, porém, próxima à capital paulista. Lá, o barzinho era uma fuga dos mesmos lugares de sempre da cidade grande.
Certamente, aquela noite foi registrada como o maior avistamento a olho nu de gírias ultrapassadas e consumo delas vencidas: supimpa, chuchu beleza, mixou o carbureto e brasa, mora.
Um casal de “coroas” se destacava naquele salão cheio. Eles eram velhos demais para serem jovens e jovens demais para serem velhos. A dupla não estava nem aí para alguns olhares reprovadores. O casal maduro parecia se divertir como se “os bons tempos tivessem voltado”, como se tivéssemos voltado aos anos 70 ao som dos Bee Gees ou “Os embalos de sábado à noite”.
Aquela fauna invasora que tomou conta do nosso território com seu twist epilético, o chá, chá, chá convulsivo deveria ser tombado pelo patrimônio histórico do “não tô nem aí”. O “no meu tempo é que era bom” ganhou lugar de fala. O “iê iê iê” a dois nos obrigou a assistir àquela performática celebração dos velhos tempos.
O espetáculo arqueológico de dança foi uma instantânea conversão em massa durante o conflito de gerações. A “festa baile” de alta octanagem que o par insistia em esfregar na cara transformou o nosso barzinho num mero bailinho de escola, numa “domingueira dançante” ou uma matinê para a criançada.
A celebração em ritmo de festa estava “dançando e andando” para a plateia, derretendo explicitamente e deixando escorrer para o ralo a nossa arrogância juvenil. Aquele anacronismo coreografado parecia muito melhor que a moderna dança individual.
Aquele ambiente de “love songs are back again” era de um anacronismo tão evidente que tornava tudo aquilo moderninho, retrô, vintage. O clima realmente estava mais para “os embalos de sábado à noite” do que “smells like teen spirit”.
