🔵 Saí da frente


 

Infectados por minha quase nula avaliação do perigo, embarcamos num caiaque duplo condenado ao naufrágio, quase um novo Titanic sem violinistas. O Titanic, diziam, “nem Deus poderia afundar”; para fazer nossa embarcação descansar no fundo do mar, bastaria um coroinha. Na praia de Santa Catarina, saímos na malfadada e precária canoa.


Na saída, posando para uma pretensa fotografia histórica da partida da expedição, quase atropelamos alguns banhistas. Mas tudo bem, as iminentes vítimas foram desviando daqueles dois malucos num desenfreado bote. Assim, conseguimos singrar o ameaçador oceano.


Não contentes em dar uma voltinha, ali na costa, fomos até uma prainha, e outra, e outra... Podíamos até descobrir um novo continente e batizá-lo, até mesmo encontrar, numa terra distante, criaturas fantásticas ou bestas mitológicas.  Mas isso é coisa da imaginação de Júlio Verne. Não encontramos sequer um barco do Greenpeace ou a Greta Thunberg. A praia estava muito longe e, como aconselharia Jacques Cousteau, o bom senso obrigou a volta.


No retorno, uma tempestade ameaçou adernar nossa única salvação. Na verdade, nem chovia, nosso infortúnio era provocado por uma imprevista corrente de vento que levantava uma quantidade atlântica de gotículas de água marinha. Além disso, a força da água impedia o efeito da remada. Em “alto-mar”, numa situação desesperadora, sem astrolábio, sextante, bússola, carta náutica, telescópio, rádio, sinalizador, comida, água dessalinizada, kit de primeiros socorros ou alguém que nos guiasse pelas estrelas, tínhamos que conseguir regressar.


As correntes marítimas do sul nos devolveram à praia. Ou, simplesmente, o oceano nos expulsou de suas turbulentas águas, por absoluta imperícia. Chegamos à areia, com a imponência dos navegadores Pedro Álvares Cabral e Cristóvão Colombo, depois de vencermos o terrível oceano Atlântico e seus imprevistos. 


Mas fomos recebidos com indiferença, descaso e, até, desprezo e humilhação, como dois malucos que se arriscaram “por mares nunca dantes navegados”. Tamanhos desprezo e opróbrio faziam de todos indignos da saudação de dois verdadeiros heróis. Somente Ernest Hemingway para reconhecer a vitória do Homem contra a Natureza.


Quando chegamos, pra variar, os banhistas tiveram que, mais uma vez, sair da frente, para terminarmos essa inédita aventura com um atribulado desembarque. 


Mesmo desprezados pelo oceano, acreditávamos que haveria o reconhecimento pela ancestral batalha marítima. Contudo, a recepção fria mostrou que nossa esplêndida saga foi interpretada como fracasso, portanto, fomos ignorados.


Conclusão: para nós, uma epopeia; para a Humanidade, apenas dois imbecis num caiaque.



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