🔵 Aventureiros do bairro proibido


 O carro talvez não vencesse a Serra do Mar, mas já no nível do mar o Gol 86 desistiu de aumentar a altitude. Justamente, a única rua que, num filme de terror, recomendariam não entrar jamais, nunca, em hipótese nenhuma, de jeito nenhum, seguimos a pé e ostensivamente fantasiados de turistas. Aquele quilombo litorâneo atual era o limbo da beira de estrada longe demais da praia e da cidade.


À noite, abandonados por um destino que parecia querer testar a nossa resistência mental, seguimos rumo à iluminação do povoado que lembrava uma cidade cenográfica de horror cósmico dos anos 50. Tínhamos que parecer incólumes a quaisquer ameaças, inclusive um possível vampirismo social.


Entrar naquele esconderijo misterioso conduzia ao “estranho, bizarro e inesperado” universo paralelo além da imaginação ou simplesmente um bairro perigoso onde não éramos bem vindos. 


Entre “náufragos, traficantes e degredados”, ela e eu teríamos que atravessar o apocalipse zumbi para pedir informação a alguém desarmado e que não aparentasse ser uma provável ameaça, solicitar um guincho e sumir dali. A nossa vocação de vítimas fáceis tornou tudo fantasmagoricamente mais temível.


Atravessamos aquele “corredor polonês” com a sensação de que estávamos sendo observados por corvos esfomeados. Entretanto, aquele clima sombrio e o desgraçamento da nossa noite malfadada foi anulado pela invisibilidade momentânea ou intervenção sobrenatural, de modo que não fomos o alvo facilmente identificável que prevíamos. O suspense psicológico desmaterializou nossa presença forasteira e  manifestou uma imperceptibilidade providencial e inexplicavelmente segura.


Aquela experiência inicialmente assustadora ganhou uma calmaria própria de quem sente-se inatingível e inabalável, mas a “sorte” poderia ser temporária, então a prudência nos obrigava a partir dali.


Os faróis do caminhão guincho surgiram na estrada escura para nós resgatar. Depois de pagar os ingressos para passear de guincho, concluí que o carro parou porque quis, como se tivesse chegado no seu destino; as pessoas do bairro já esperavam por nós; e algo nos protegeu de forças ancestrais na nossa versão brasileira de universo paralelo.



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