🔵 Livros, café e rock


 

Os “roadies” “plugaram” os amplificadores e retornos, afinaram a guitarra e o baixo, posicionaram os microfones e a bateria, pronto. Era só a banda entrar e tocar. O “pocket show” do ‘Doctor Sin’ compensaria o caro desjejum com preço de aeroporto, dando até uma boa vantagem no custo-benefício. Nunca adivinharia que no pagamento daquilo eu estaria comprando o ingresso de um show.


Assistir àquela banda enquanto devorava um café e um “croissant” devia ser o que chamavam de “concertos para a juventude”. Sem notar, configurei minha área vip de frente para o palco. 


Já havia visto a banda no ‘Hollywood Rock’ quando, ao mesmo tempo, disputava espaço com uma horda de bárbaros e era maltratado pela péssima organização, com seus banheiros químicos parecendo liquidificadores de dejetos. É bom lembrar, um espetáculo sem a palhaçada de sempre, o clichê disfarçado de momento catártico: quando o artista gringo vem ao palco com uma bandeira do Brasil, uma camisa da Seleção e, orientado pela assessoria, fala bobagens demagógicas sobre política e meio ambiente. Agora, eu estava numa espécie de café concerto da livraria FNAC.


A minha parada para o café com trilha sonora combinava mais com uma orquestra de câmara com violinos e flautas, porém, era uma banda de rock  capaz de fazer tremer a xícara. Para aquele tipo de música, eu estava acostumado com cerveja barata em espelunca subterrânea ou estádio de futebol. Tudo poderia ser um grande mal-entendido, mas o importante é que eu estava ali. Tinha a obrigação histórica de aproveitar a oportunidade de assistir à uma apresentação do Doctor Sin como uma banda de churrascaria.


O hiperbólico “show das cinco”  com cara de camerata ou café-concerto feriria o silêncio protocolar dos clientes da livraria.


   








   





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