🔵 Saudosa maloca
Aquele território de brincar demarcado era um microcosmo para análise de comportamentos humanos e organização social. Atualmente, numa análise mais aprofundada, eu vejo aquilo como uma “Faixa de Gaza” pacificada, praticamente vivíamos uma “pax” declarada para a trégua futebolística de rua.
Como partidas entre Israel e Palestina, o nosso futebol com golzinho de pedra ou chinelo era literalmente de várzea; portanto, o córrego, que para a molecada significava apenas uma dificuldade para recuperar a bola, para a família pobre era a falta de saneamento básico passando no fundo do quintal.
Geralmente, eu jogava bola naquele pedaço de mau caminho chamado vielinha entre uma mansão e um barraco. O garoto da mansão e o garoto do barraco jogavam bola juntos. Embora fosse evidente a diferença social entre a molecada, não havia qualquer tipo de segregação, “apartheid” ou “bullying” econômico.
Contudo, ainda havia resquícios da escravidão encerrada há apenas um século. Na mansão, o “quartinho da empregada” era o que poderia ser chamado de “a nova senzala”. Não obstante, aquele cubículo era o refúgio de tanta frieza enfrentada pelo meu amigo rico: negligenciado por um pai que sempre indiferente e uma mãe eternamente ocupada.
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Iludidos pela falsa promessa de ganharmos um campo de futebol, limpamos o terreno da favela, que tinha apenas o barraco do meu amigo. Nossas descobertas de fragmentos cortantes e fósseis domésticos fizeram com que parecesse que estivéssemos vasculhando uma área de interesse arqueológico. O trabalho de investigação revelou que aquele barraco promoveu animadas discussões regadas a samba, cerveja e garrafadas.
Depois de algum tempo, a prospecção dos vestígios de desinteligência, bem como a exploração do trabalho infantil, desanimaram aquele ímpeto empreendedor. Entretanto finalmente, os intermináveis estilhaços, algum sangue derramado e o desmatamento de uma área equivalente a um campo de futebol encerraram a construção do nosso magnífico “estádio”.
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Muito tempo passou, a mansão permanecia, como um castelo, na esquina; o barraco dos cacos de vidro e de vida não existia mais.
