🔵 A teoria de tudo
Como um intelectual “uspiano”, é o momento ideal para problematizar e teorizar o colecionismo do álbum da Copa.
Segundo um ficcional arquétipo de especialista da USP, a prova social ou instinto de tribo é a porta de entrada pelo medo de estar perdendo algo. Enquanto neurotransmissor liberado a cada pacotinho aberto, trata-se de gatilho psicológico temático a nível de exploração do fanatismo.
No momento em que a figurinha é colada, a ilusão de propriedade do álbum, que deixa de ser uma coisa genérica, passa a ser sua. O gatilho do cassino, como recompensa, ativa a dopamina.
Pela aversão à perda e viés de conclusão, o cérebro humano odeia tarefas incompletas. Ter um álbum completo proporciona a mesma sensação psicológica de construir um patrimônio pessoal: leva dedicação, tempo, esforço, vira memória afetiva. Eis o “Efeito IKEA”, quando as pessoas valorizam mais um objeto quando põem as mãos nele.
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Décadas depois daqueles 15 anos, abri o álbum de figurinhas da Copa do Mundo de 1990 com o cheiro das páginas besuntadas de cola Tenaz. O olfato me tragou para a tal da memória afetiva.
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Seguindo a trilha de pacotinhos abertos e espalhados pela calçada, descobri de qual banca vinha aquele lixo porcamente descartado. Comprei os meus pacotinhos e fiz o mesmo; sem sequer entender o conceito de limpeza pública, espalhei-os pelo meio-fio. Foram os primeiros passos no maldito vício no álbum da Copa 90.
Às vezes, eu ía à banca “que dava sorte”: por coincidência, nexo causal, lenda urbana ou teoria da conspiração, funcionava. No entanto, parece que como castigo o “bolo” de repetidas só aumentava, mas completar aquele “catálogo de seleções de futebol” ainda era meu principal objetivo de vida.
O tubo de cola escolar vazio poderia denunciar a profusão de trabalhos de Educação Artística, contudo a realidade decepcionaria quando os vestígios revelassem um novo álbum de figurinhas.
