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Mostrando postagens de fevereiro, 2026

🔵 São Paulo vista de cima

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  De longe, avistei o próximo “alvo”: Circolo Italiano (Edifício Itália). Alugar um “smoking” ou um helicóptero encareceria aquela tarefa. Mesmo sem um figurino adequado, a ocasião praticamente me obrigava a subir o arranha-céu naquele instante. Não era o mais alto de São Paulo, mas era bem imponente, icônico e com uma vista, digamos, geométrica. Para quem não se contentava apenas com a paisagem urbana, tinha a Serra da Cantareira cercando toda a Zona Norte.  De elevador, alcançar o topo do prédio de 165 metros e 46 andares era o modo mais ortodoxo de se locomover, onde já subiram escalando e desceram de paraquedas. Não sendo louco nem suicida, fui admirar a cidade pelo alto. Quando as portas abriram, vi que estava praticamente dentro do Terraço Itália, o requintado restaurante dos ricos e famosos de antigamente. Boné entortado, jaqueta jeans surrada e mochila nas costas acentuavam a diferença de renda e tornavam a travessia do nobre salão uma ilustração, bem como uma pretensi...

🔵 Rosmitter, o boêmio

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 A Vila Madalena era um bairro histórico e boêmio. No fim dos anos 60, muitos estudantes da USP começaram a morar lá. Assim, o lugar começou a ganhar características contraculturais, alternativas e boêmias. Durante algum tempo, a região caiu no ostracismo, contudo, nos anos 90, o que já foi um bairro residencial ressurgiu como um endereço “obrigatório” para quem procurava um portfólio de barzinhos. **** O objetivo era bem capiau: conhecer a mítica Vila Madalena noturna. Surgiu um sujeito que parecia alguém que desceu de um apartamento sobre o boteco. O arquétipo do baluarte daquele bairro antigo só podia ter enxergado um grupo composto por 4 turistas com o potencial de mantê-lo embriagado gratuitamente, portanto, 4 vítimas. Ele apareceu com um copinho americano vazio e nos fisgou com um papinho sobre música. Hoje, desconfio que foi o Henrique que “deu bandeira”, com seu cabelo comprido. O visual roqueiro “guitarrista de penhasco” atraiu o sósia de Arrigo Barnabé, o músico maldito. ...

🔵. A mansão dos mortos

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 O silêncio era, literalmente, sepulcral. Não vi mau agouro ao entrar naquele lugar, ainda mais porque o endereço me igualava aos quatrocentões paulistanos. Onde mais o Conde Francesco Matarazzo ficaria a meus pés? Subindo a rua da Consolação, resolvi levá-la para ver as obras de arte que estavam expostas gratuitamente nos túmulos do Cemitério da Consolação. Sabia que ela aceitaria, pois os mausoléus da aristocracia, dos quatrocentões e da antiga elite paulistana eram objetos de estudos de universitários e curiosos. Se não fosse durante o dia, a incursão seria facilmente confundida com um passeio gótico, pois a atmosfera fantasmagórica, o visual mórbido e o silêncio assustador inspiravam mais a reflexão depressiva que a contemplação das artes tumulares. Pois bem, cercados por obras de artistas e cadáveres célebres, começamos a “ziguezaguear” túmulos, mausoléus e lápides. Como esperado, os mais famosos foram sepultados onde havia mausoléus, capelas ou anjos. Até na morte, havia aris...

🔵 Principados e potestades

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 A Igreja Adventista era praticamente uma fachada para o colégio particular. Quando eu passava em frente, via que o uniforme já exercia uma superioridade estética sobre a minha escola pública. Aquele depósito de gente, onde estudávamos, os “pobres, mas limpinhos”, era uma das últimas chances de escapar do analfabetismo brasileiro. Fui convidado para uma festa do colégio Adventista. Eu sabia que aquele território era muito diferente da minha escola municipal. Entretanto, fora a diferença social acentuada dos anos 80, acredito que não haveria mais que uma porção de crianças correndo no pátio e uns artigos “importados” do Paraguai, tipo relógio ‘G-Shock’ e tênis “da hora”. Chegando à tal festinha, conheci o Satã. Aquilo devia ser a abreviação do nome “Satanás”. Logo vi que a tentativa de deixar o nome menos assustador só podia ser para enganar os mais distraídos. Em qualquer caso, era necessário manter uma distância segura de alguém com aquele nome. Francamente, aquilo não poderia ser...

🔵 "Está todo mundo preso"

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 O velhinho que sentou ao meu lado era o avô da minha colega. Ele parecia frágil, mas carregava uma bravura na expressão e sua idade deveria ser alta: uns 80 anos. Estavam impressos na carranca uma personalidade forte e aparência sisuda — aspectos estampados no rosto, próprios de quem passou a vida combatendo algum inimigo. Ao meu lado estava o Coronel Erasmo Dias, ex-secretário de Segurança Pública do Estado de São Paulo, coronel do Exército e político. O nome pomposo ganhou maior relevância quando recordei que aquele senhor exercia o cargo no temido período do governo militar. O senhorzinho passou a impor um respeito tácito por eu saber que ele liderou a histórica ação repressiva dentro da PUC-SP (Pontifícia Universidade Católica) e sua frase famosa é: “Está todo mundo preso”. Aquele vovô esperando a formatura da neta, que lembrava um idoso na sala de espera do posto de saúde, levantou-se para congratular a garota. De repente, como quem assumiu o comando, voltou o vigor de quando...

🔵 Guerra dos sexos

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Apesar de soar estranho, ir a um boliche foi aceito. Era difícil argumentar que, em São Paulo, faltou opção melhor. Esporte ou entretenimento, mesmo não sendo convencional, era uma mania que seria praticada com chope e fritas. Aquela combinação “vintage” permitiria que eu trafegasse na minha zona de conforto. A derrota na sinuca, eu estava certo disso, foi um acidente, portanto, tinha muita certeza, não a levaria à pista de boliche sem a absoluta segurança da vitória. Mesmo no Shopping Center Norte, a experiência adquirida no boliche da Vila Maria era suficiente para escapar das “armadilhas”, mesmo lutando contra os efeitos etílicos. O esporte obscuro era uma oportunidade de eu demonstrar alguma habilidade, fingindo dominar o jogo. Mas o orgulho era fino e se quebrou, e eu não sabia que o chope iria me prejudicar. Confesso que cada “strike” realizado por ela doía no coração. Meu amigo logo viu que aquele teatro farsesco naufragaria, então não participou da “confraria masculina”. O fina...

🔵 Telespectador na linha

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  Tinha a impressão que apenas eu estava assistindo àquele programa do canal guarulhense. A atração realmente era muito fraquinha: as apresentadoras eram esforçadas; o cenário, amador; os convidados, risíveis; e as atrações musicais, constrangedoras. Apesar de ser um político picareta histórico, o convidado falava sobre um tema pertinente aos guarulhenses, como eu. Depois de uma longa deliberação individual, resolvi ligar e fazer a minha pergunta. Como foi a primeira vez que interagi com um programa ao vivo, achei aquilo curioso e divertido, como um videogame. Fiz uma pergunta besta qualquer e, talvez demonstrando não ir com a cara do entrevistado, debati ao telefone. Depois de terminado o “combate”, elogiei as apresentadoras e terminei a desastrosa participação. Ainda foi “cometida” uma atração musical de gosto duvidoso. Parece que tentando garantir aquele recorde de público, as apresentadoras prometeram que no final do show haveria o sorteio do novo CD do grupo. Após um solilóqui...

Sambando e andando

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  A homenagem em vida não fez jus à dinheirama lulista. A riqueza financeira não se refletiu nas alegorias e fantasias. A escola de samba Acadêmicos de Niterói começou quebrando um tabu: conseguiu formar uma frase contendo as palavras “Lula”, “escola” e ”Acadêmicos”. Se o desfile fosse tecnicamente impecável não haveria críticas, mas como se preocuparam em coreografar uma bajulação remunerada, foi um fiasco. Muito pobre, a escola esqueceu que estava no Grupo Especial. O “cordão dos puxa-sacos” se esqueceu que os foliões sempre zombaram dos governantes. O “samba exaltação” que foi realizado no melhor estilo “não tem nada para ver aqui” é uma “cortina de fumaça” para tentar esconder o desastre do governo federal. O aparelhamento do Carnaval é só mais uma etapa da tentativa de emplacar a narrativa do “Brasil maravilha” e Lula como “pai dos pobres”. Getúlio Vargas não teria tanta ousadia, entretanto, teria sido poupado de assistir à deposição humilhante da sua estátua. Sim, como qual...

🔵 O doutrinador

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  O ditado foi interrompido para mais um vendedor apresentar seu fantástico produto na sala de aula. Já sabia que meus pais ignorariam lousinhas mágicas, livros para colorir e demais bugigangas educativas. Meus argumentos seriam as facilidades de pagamento; porém, meus pais achariam aquilo caro e saberiam que aquele meu “coração de estudante” era falso, portanto, arrefeceria antes do pôr do sol. Entretanto, agora era diferente. O sujeito que entrou na sala era figurinha conhecida na escola.  Sempre sorridente, ele distribuiu um panfleto: Fundação do Partido Verde. Faz tempo, descobri que a causa ambientalista era só um chamariz para atrair e capturar “almas e corações” juvenis para o sempre anacrônico marxismo. Sem saber, eu estava diante do “diabo” querendo “comprar” algumas almas, representando um “partido melancia” (verde por fora, vermelho por dentro). No final, confiante na cooptação e contente, ele disse: “Depois eu pago uma paçoquinha”. A fala, perigosamente infantiliza...

🔵 Vida de plástico

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  O cinema contava que veio do planeta Krypton, mas era mais provável que aquele boneco de roupa esquisita tenha vindo da loja de brinquedos. Depois, pude presumir que o super-herói tenha sido moldado numa máquina, contudo cumpriu a função de me manter entretido quando ainda não existia videogame. O herói inanimado  não tinha superpoderes como no filme, pelo contrário, fui precoce ao cair num estelionato no qual ganhei um boneco de plástico que só mexia braços e pernas. Portanto, o Superman de brinquedo me obrigou a usar a criatividade. Porém, a minha vingança era silenciosa, pois eu explorava um boneco que não devia ser licenciado, portanto, uma grosseira e barata pirataria. Suspeitar que tratava-se de um brinquedo clandestino foi a consolação por possuir um super-herói inerte que não realizava nenhum truque.  Ofereci o brinquedo ao meu cachorrinho. No início parecia que o animal iria atacá-lo, pois os dentinhos afiados à mostra pareciam  uma ameaça. Intimorato, mes...

🔵 Três solteirinhos e um bebê

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 Tatus-bola, vaga-lumes, grilos e outros animais desafortunados. Voadores, aquáticos ou rasteiros, bastava estarem vivos para virarem brinquedo. Contudo, um ovinho era uma novidade, portanto, algo que não suplantava a mera curiosidade. Mas naquele tempo (final dos anos 70 ou início dos 80) ainda se brincava com traquitanas mais rudimentares. No caso, aquele buraco de um tijolo guardava o ovo que continha um embrião de lagartixa. Mesmo sendo algo orgânico, aquilo instigava a curiosidade exploratória infantil. Pois bem, decidimos assumir aquela gestação. Acomodamos o ovinho dentro de uma gaveta, num chumaço de algodão. Pronto. Dentro do ovinho, o bebê-lagartixa tinha tudo o que necessitava. Nós três só esperávamos estar presentes quando o pequeno réptil destruísse a casquinha. *** O algodão estava vazio. Somente jazia a casca quebrada e vazia. O cenário mostrava os restos deixados por algum predador que saciou a fome com o conteúdo do ovo. Nossa única atitude era desejar que tudo ten...

🔵 Motorista, motorista, olha a pista...

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  Foi estranho ouvir o “zum-zum-zum” de que haveria uma excursão no 3º grau. O passeio me remetia ao primário e ginásio, quando o deslocamento significava uma alforria infantil. Playcenter, zoológico, Bienal do Livro (Ibirapuera), Programa do Bozo (SBT), Teatro Brigadeiro e Teatro Nelson Rodrigues: era comum agir no ônibus como se aquele bando de pirralhos estivesse disputando uma corrida e não temesse a morte. No curso de Jornalismo, o aviso de que iríamos conhecer a Editora Abril era o nosso “Bilhete Dourado”, e eu interrompi aquele hiato das excursões do colégio Jocila. No ônibus, as conversas por afinidade substituíram as canções desafiando o motorista numa rebeldia consentida. Chegamos ao prédio histórico da Marginal Tietê. Externamente, a movimentação noturna dos funcionários e caminhões só aumentava o mistério, lembrando contrabandistas nos filmes, ou seja, os “Oompa-Loompas" dos periódicos agiam como se estivessem escondendo algo.  Seguindo o passeio, como uma visita m...

🔵 Última chamada

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A figura ameaçadora, que aparecia revelando a temerária sombra, vinha atravessando a rua, com os dentes trincados e os olhos esbugalhados (saltando para fora das órbitas). De repente, quando eu já estava calculando a rota de fuga, reconheci o cara com o físico “Zé Droguinha” (esquálido) que implorava por algumas moedas para “ir a Santo André". Nesse momento, eu já havia decifrado a metáfora que significava a cidade da região metropolitana de São Paulo.  O que começou como medo, terminou como dó. Bastavam alguns minutos para me livrar do indivíduo artificialmente eufórico; enquanto ele, tudo levava a crer, teria muita dificuldade para eliminar “Santo André” de seu roteiro. Outra noite, já era tarde, novamente vinha o sujeito que, tentei adivinhar, precisava embarcar urgentemente para “Santo André”, na Grande São Paulo. O “noia” do bairro insistia na mentira, enquanto eu, já tratando ele pelo apelido, tentava me livrar do financiamento daquele abismo pessoal. Sempre conseguia me esq...

🔵 Serviço obrigatório

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  Não bastasse o serviço militar obrigatório, eu teria que pagar pelo corte de cabelo. Muitos soldados que entraram no salão do quartel saíram sem a antiga personalidade. Aliás, igual a uma penitenciária, essa é uma das primeiras táticas de enquadramento e de colocação na nova realidade. Um método de institucionalização. Não era justo assistir aos cabelos, caspa, piolhos e seborreia dando adeus, acompanhados de minhas raras e amassadas notas. Além disso, eram varridos para o lixo: juventude, sonhos, músicas, viagens, lembranças etc. Entretanto, ali não havia espaço para sentimentalismo bobo nem apego com uma adolescência irresponsável, sem contas para pagar e saudades do cabelo comprido; eram tempos de mosquetão, projéteis e farda. Ah, e de 15 em 15 dias rapelar a cabeça. Lógico, mesmo que o serviço fosse mal feito, era preciso pagar por isso. No centro da cidade, ponto de ônibus, chamou a nossa atenção o movimento naquele imóvel comercial. Curioso foi que as pessoas entravam com c...

🔵 Sangue e notícias falsas

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  O trabalho da universidade sugeria uma ideia instigante. Não foi difícil nem demorado aprovar a sugestão de garimpar as reportagens sensacionais e sensacionalistas do, então moribundo, jornal ‘Notícias Populares’. Fiquei encarregado de ir até o prédio do jornal ‘Folha de São Paulo’ pesquisar os arquivos do mítico jornal popular e popularesco, que era do tipo “espreme que sai sangue”, “imprensa marrom” e sensacionalista. A publicação atraía leitores de manchetes e legendas de fotografias.  Com abordagem hilária, imprimia assassinatos, absurdos inventivos e um pouco de pornografia. Levando ao “pé da letra” a máxima “acredite se quiser”, o "Notícias’ estampava com destaque na primeira página lendas urbanas, bestas quase mitológicas, “acontecimentos” impossíveis e manifestações cômicas como se fossem  fatos urgentes. Assim, o”bebê diabo” virou uma crendice popular que assombrava a região metropolitana de São Paulo. Naquele tempo, a ‘Folha de São Paulo’ ainda merecia credibi...

🔵 Uma Coca no deserto

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 Não era um lugar qualquer, era uma serra gaúcha. Não aquela Serra Gaúcha turística, conhecida em guias de viagem, onde as pessoas são transportadas em teleféricos pelos pontos conhecidos e manjados. Era a zona rural do Rio Grande do Sul, a serra gaúcha “roots” (raiz), onde o Homem tem que dominar a natureza, e o vizinho mais próximo mora numa outra montanha. A caminhada era necessária. No início do trajeto, carros de boi, criações e uma vastidão de fazenda era quase tudo o que os olhos enxergavam. As únicas diversões eram atacar pedra, partir lenha e colher folhas de fumo.  Enfim, diferente do que eu imaginava, ali a vida era bruta, quase um teste de sobrevivência, não um fim de semana na fazendinha da vovó. Basicamente, tudo o que era trabalho, era o nosso passatempo. Aquele ambiente adulto e hostil parecia incompatível, sobretudo perigoso, para moleques de 15 anos de idade acostumados com a vida urbana da Grande São Paulo. O dia ensolarado, um calor absurdo, a estradinha de...

🔵 A decadência do capitalismo

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A decadência do capitalismo    Teria que caminhar muito para ir ao outro lado da avenida; porém, havia a possibilidade de atravessar o rio canalizado. Bastava eu me equilibrar na viga de concreto para alcançar o outro lado. Como um equilibrista na corda bamba, mostrei à natureza quem é que manda. A camisa polo com a logomarca da empresa, a maleta preta e aquela transposição incomum misturavam elementos que compunham uma cena estranha: o rio sendo atravessado por um cidadão indo ao trabalho. A imagem surreal poderia vir com a legenda: “A decadência do capitalismo”. Logo quando entrei na empresa, me disseram que eu agora era “a imagem da marca". Imaginei uma roupa apresentável, uma boa assepsia e uma linguagem adequada, não uma “aventura selvagem” digna do ‘Discovery Channel’ ou ‘Geográfica Universal’.  Mas a minha preocupação era apenas não cair naquele rio que depois de alguns metros desembocaria no Tietê. Seria ridículo ser resgatado com uma camisa escrito ‘Energizer’, m...

🔵 1ª Festa do Pico d'olho d'água

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 Pico D’olho D’água é o topo de uma montanha da Serra da Cantareira na cidade de Mairiporã. O passeio indicado para ir com a família, mesmo que com o espírito “missão dada é missão cumprida” e “ninguém fica pra trás”, tornava-se uma alternativa nada recomendável para ir à noite.  Pois, uma iluminação mental sem limites recomendou que fôssemos beber a saideira ao som de rock n’ roll, longe da iminência de assistir a uma inundação de balde, água e sabão. Uma breve deliberação depois... A turma irresponsável e destituída de algum grau de bom senso achou aquela ideia brilhante. Assim, saímos do bar rumo ao endereço bucólico. Enfrentada a estrada e a floresta, lá no alto, tudo foi como planejado: som alto e os estalos das latas de cerveja sendo abertas. Diferentemente dos alpinistas, não estávamos exaustos e, apesar de alcançarmos o topo sem escalar a montanha, fomos premiados com a paisagem alpina e alguma ventania. Aquela combinação (música e cerveja) trazia um relaxamento e uma ...

🔵 KKKK

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 Existia um programa pretensiosamente classificado como de humor chamado ‘Zorra Total’. A vinheta que anunciava o início do programinha soava como um macabro sepultamento da noite de sábado. Mesmo não fornecendo minha audiência ao humorístico, a vinheta significaria que minha noite de sábado se resumiria a uma pizza de frango com catupiry e quatro queijos e uma ‘Coca’ dois litros.  A digna alternativa era filme e pipoca. Já resignado com o desperdício da noite de sábado, animadamente, corria para o banheiro, enquanto as pipocas estouravam. A musiquinha do ‘Supercine’: a senha para correr para a frente da televisão. Pronto. Equipado com uma tigela com pipocas, eu tentava descobrir quem era o assassino no filme. Tudo isso é muito triste. Definitivamente, seria mais animado passar o final de semana jogando Tranca com a minha avó. ***   Não tive saída, ‘fazendo sala’ para uma amiga, esperando alguns amigos chegarem, assisti ao ‘Zorra Total’, acompanhando a família da garota. ...

Realidade vs Expectativa

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  O Flamengo tem a maior torcida do Brasil. Quem acha que é a do Corinthians, discute à toa. O engajamento rubro-negro é que engana. E a acareação dispensa os paulistas de entrar nessa discussão. Dia 1, em Brasília, foi disputada a final da Supercopa do Brasil. No estádio flamenguista, supostamente neutro, houve uma divisão de torcidas, que fez a torcida do time carioca parecer contar com torcedores de ocasião, como as arquibancadas de Copa do Mundo. Inclusive, os flamenguistas são compostos por “celebridades” que, seguindo recomendações do assessor de imagem, escolhem o time mais midiático para associar sua imagem: Flamengo. Até os anos 90, era excelente ser filmado pela Globo na arquibancada do Maracanã, isso era quase como ser o protagonista na “novela das oito”.  A antiga Caras, a revista dos ricos e famosos, adoraria publicar uma matéria com uma “espontaneidade” falsa: A atriz/cantora/modelo/apresentadora “apoiando o seu time do coração!”. Com esta composição, é fácil con...

⚫️ O conceito do nada a nível de pertencimento enquanto arte

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  Se em exposições artísticas têm o aviso “performance” ou “instalação”, logo sei que vem uma sutil picaretagem. Talvez eu não entenda nada de produção artística ou quem sabe a mente do artista acesse uma dimensão que eu jamais compreenda. Entretanto, eu nunca vou fazer o papel de palhaço admirando uma tela em branco ou entulhos de construção; pior, enaltecendo um simples mictório. Algo que promete a subversão ou a mudança dos rumos da arte tem tendência a ser um embuste muito caro. A suposta explicação geralmente tem a probabilidade de ser extensa e falsamente complexa, diferente da obra, que revela falta de criatividade e talento. Nas exposições que fui, jamais corri o risco de contemplar um objeto aleatório. Mesmo que por pura paranoia, acredito que o autor fique rindo desse público que leva tudo a sério. É preferível passar por ingênuo, tentando decifrar um barquinho na beira do rio ou uma casinha com fumaça saindo pela chaminé, do que ser vítima de um charlatão. Tentando não d...

🔵 Tribunal inquisitorial

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  Foi um aparente ato de fé ter como itinerário do catecismo o estacionamento do banco onde aquela turma jogava futebol. Além do curso da Igreja Católica, era obrigatório assistir à missa. Apesar de ser cristão, para um moleque, era uma tortura medieval perder a tarde de sábado. No começo, eu me dediquei ao questionário bíblico, mas não achava legal começar a sagrada noite de sábado acompanhando um sermão. Não resisti ao dilema que me fazia sentir uma culpa comparável aos hereges e fariseus, portanto, com relativa frequência, sacrificava a obrigação da cerimônia católica. A partir do instante que decidiram pela minha expulsão do curso, me senti como algum indivíduo que cometeu alguma heresia diante de um sacerdote medieval ou um papa inquisidor. Contudo, graças à Deus, aquilo não era a Santa Inquisição, aquele clérigo não era o frade espanhol Tomás de Torquemada (o Grande Inquisidor), e aquela construção apenas fazia parte da paróquia guarulhense. O padre estava imbuído dos poderes...

🔵 Infiltrado

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Era importante penetrar naquele imóvel sem ser descoberto. Definitivamente, me senti um infiltrado no ambiente inóspito repleto de estereótipos esquerdistas. Na verdade, um criadouro de revolucionários de praça de alimentação de shopping center sustentados por mesada.  Os arquétipos que encontrei: o amigão com consciência social, a mina empoderada, o estudante de filosofia (que está na USP há uns 10 anos) e o auto-intitulado líder social de apartamento da Vila Madalena (flanelinha de minoria), todos cultivando uma aparência de despojamento e minimalismo.  À distância, é difícil saber se pela lobotomia em sala de aula ou pelo medo de se isolar socialmente, o pagante de pedágio ideológico abriu mão de sua própria personalidade em troca de aceitação. E, para isso, a sinalização de virtude e sinais exteriores de engajamento são essenciais, Ali, como num zoológico humano, pude ver algo que, ingenuamente, suspeitava não existir mais: o anacrônico jovem comunista. O jovem comunista é...

🔵 Um furto furtivo

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  Não seria nada fácil levar o Vectra prateado. As luzes estavam acesas, então havia gente na casa. Provavelmente, estavam todos dormindo, pois era bem tarde, no entanto, tratava-se de uma casa de praia. Esse cenário exigia uma dose extra de precaução, já que os hábitos das famílias nas férias são imprevisíveis.   Para não acordar a família, abrimos o portão e empurramos o carro sem ligá-lo. Pronto, ganhamos a rua e fomos andar na cidade. Tudo saiu conforme o planejado. A molecagem quebrou o marasmo que seria uma noite jogando cartas, jogos de tabuleiro e nos empanturrando de refrigerante barato numa casa isolada no litoral de São Paulo. Sim, “furtamos” o carro do pai do meu amigo, com a colaboração da turma hospedada na “choupana”. Apesar do deliberado conluio e da ação sub-reptícia, a turminha  tinha descendência e dependência da vítima. Assim, os laços sanguíneos contribuíram para que tudo ocorresse sem violência. Depois dessa “associação criminosa”, pelas ruas de Ubat...

🔵 Eu tô pagando

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  Foi estranho ver aquele sujeito com características de um legítimo punk de periferia falando que segunda-feira todos estariam num bar de jazz. De cara, incrédulo, eu fiz a pergunta retórica e um tanto tola: de jazz?! Acredito que o programa deveria soar como um jantar dançante ou baile da terceira idade, mas para quem sempre gostou de música, tanto fazia rock ou bossa-nova.  Saí da universidade e, em vez de ir para casa, desviei o caminho, rumo ao tal bar. Chegando lá, um sonzinho de piano não deixava dúvida de que havia encontrado o lugar combinado. Era incomum vê-los sentados ouvindo um pianista naquele ambiente meia-luz, com aquele sonzinho de elevador, sala de espera de consultório dentário  ou recepção de casamento. Nossa conversa estava mais alta que a música. Enquanto isso, tudo conferia um bom gosto e uma sofisticação que destoava da nossa idade, visual, comportamento e histórico. Entretanto, essa incompatibilidade, concomitantemente à estranheza que causava, er...