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Mostrando postagens de dezembro, 2025

🔵 Mais pesado que o ar

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  Parecia um ‘Opala’, o painel devia ser equipado com um toca-fitas. Aquele aparelho não inspirava nenhuma confiança. Mesmo sabendo que quaisquer cuidados não deixariam muita margem de sobrevivência, afivelei o cinto de, por assim dizer, segurança. O próprio cinto lembrava o pedaço de pano que, mesmo inútil, equipava o ‘Fiat 147’ e o barulho de ventilador vagabundo causava irritação e pavor, como o motor de uma ‘Brasília’. Esta não foi a melhor maneira de voar. Com o tempo, nada mais me preocupava, nem a abertura onde deveria existir uma porta, nem os comandos replicados, como se eu fosse um copiloto habilitado. Sim, para minha surpresa, se houvesse uma traquinagem do destino, logo no meu debute aéreo, eu assumiria o cargo de comandante daquela bicicleta voadora. Mas nada poderia ser pior do que quando aquele troço decolou. A partir daí, meu único medo real poderia ser a aeronave voltar da Bolívia carregada de drogas. Sinceramente, não notei grande diferença entre a decolagem do ...

🔵 Ponte sobre águas turbulentas

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 De vez em quando, alguém dava a péssima notícia: “Fulano” morreu afogado na represa de Mairiporã. Cidade vizinha a Guarulhos, Mairiporã era um mistério de onde vinham as notícias ruins, atrás das montanhas, incrustada na Serra da Cantareira. ***.                 *** O  cenário era de um domingão quente de sol, celebrado com churrasco, cerveja e, argh, pagode paulista. O ambiente da nossa “prainha” foi interrompido pelos berros da sirene da ambulância, que apenas confirmaria aquele triste boato de que alguém havia se afogado. Realmente, o panorama de “domingo no parque” era a configuração que tinha o potencial de hipertrofiar as estatísticas. Pois bem, algumas cervejas foram suficientes para despertar uma coragem irresponsavelmente suicida. Pular nas águas turbulentas de Mairiporã não representava mais uma ameaça. O efeito do álcool dissipou as minhas lembranças tenebrosas daquele rio e suas águas contaminadas com sangue humano. Ago...

🔵 Chá com cacto

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  Aquela atitude era sincera, mas, é claro, poderia ser bastante saudável para o ano letivo. Nós fizemos um gesto inédito (para nós): visitamos e presenteamos a incansável docente. Portanto, fomos resgatados do submundo estudantil e alçados ao panteão habitado pelos alunos exemplares e prediletos. Por algum motivo ela foi com a nossa cara, mesmo não sendo os melhores alunos. O atendimento privilegiado durante a 4ª série mereceu uma troca justa. Teríamos que superar os péssimos modos, fazendo uma visita e entregando um presente. O momento ideal seria o Dia dos Professores. Nossos insuficientes conhecimentos de botânica e o baixo orçamento nos inspirou a comprar, em vez de um ramalhete de rosas, a planta mais exótica e barata: um cacto. Cacto não era a planta ideal para presentear alguém. No entanto, era a melhor metáfora para o Dia dos Professores: cuidar, procurando não se machucar. Por mais ofensivo que pudesse ser, o presente era necessário, pois poderia render boas notas. Além d...

🔵 Depois da curva

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  De madrugada, voltando pela perigosa Fernão Dias, cercados por uma serra, aproximávamos perigosamente da possibilidade de virarmos estatística. Isso quase aconteceu quando, depois de perder o controle, cruzamos a contramão lentamente e aguardamos a colisão de um ônibus. A mesma sorte não tiveram os integrantes de um Corsa. Logo depois de uma curva fechada, havia um automóvel capotado. A cena nos confrontou com a realidade e trouxe uma sobriedade repentina que parecia ter sido abandonada em uma daquelas cidadezinhas à beira da rodovia. Aproximando do carro com as rodas viradas para o céu estrelado, nenhum sinal de vida, apenas um CD reproduzindo uma animada música da Ivete Sangalo.  A canção pedindo pra “tirar o pé do chão” gerou uma comicidade inoportuna, entretanto a possível tragédia recuperava a seriedade necessária.  Somente com a movimentação, um diálogo monossilábico e a ejeção de um por um, vimos que estavam bem. E a Ivete Sangalo avisando que “levantou poeira”. ...

🔵 O anônimo unânime

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  Ver o Laert Sarrumor nas ruas de Higienópolis e acreditar que vi alguém famoso só poderia significar o auge do meu próprio anonimato. Quando, animado, arrisquei apontar discretamente e cochichar para ela: — Olha, o Laert Sarrumor! — apontei — Quem!? — ela respondeu — Do Língua de Trapo — insisti — ??? O breve, lacônico e decepcionante diálogo me fez voltar à realidade. Senti um misto de desapontamento e orgulho. Decepção por concluir que eu estava andando com uma garota que certamente conheceria o terceiro eliminado do Big Brother 7; e orgulho por me sentir um intelectual de periferia, desses que assistem ao programa Metrópolis, da “tevê” Cultura. Decidi tentar novamente, dizendo que era o Laert, integrante do grupo paulistano ‘Língua de Trapo’, músico, ator, escritor... Além de parecer charada, isso iria me fazer parecer mais estranho, tipo esses caras que armazenam o potencial de, a qualquer momento, metralhar um colégio ou cinema. No entanto, o vexame poderia ter sido muito ma...

Chinelada

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 Um comercial da ‘Sandálias Havaianas’ foi considerado “de esquerda”. Reflexo da polarização, todos e tudo é classificado dentro da “caixinha política”. Nessa triagem ideológica, Neymar é considerado “de direita”;  Fafá de Belém, “de esquerda”; banco Itaú, “de esquerda”; lojas Havan, “de direita” etc. A “torcida organizada de direita”, que fica vigilante a acenos dos parasitas governamentais, não deixou passar batida a contribuição partidária disfarçada de comercial de chinelo. Eivada de sinais subliminares, a propaganda das ’Havaianas’ ganhou formato soviético, inclusive no significado da palavra “propaganda”. Detalhe: a linguagem do “marketing” é imperativa, então, o “Não comece 2026 com o pé direto” corrobora o argumento  da impressão de ordem soviética. Se o telespectador interpretou errado, quem errou foi a agência de propaganda. No entanto, há aqueles que acreditam que todo esse falatório se converte em propaganda involuntária para o calçado. A teoria perde relevânc...

🔵 Salto ornamental

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  Todos chamavam de trampolim, no entanto, aquilo era uma base fixa. Já havia desbravado todo o parque aquático do clube do Corinthians, apenas restava aquele desafio. Fiquei, durante semanas, analisando cada detalhe da plataforma, a fim de realizar um salto perfeito. Não poderia ser muito difícil, afinal eu já tinha assistido a isso em algumas olimpíadas.  Decidi subir até a plataforma. Os degraus foram vencidos com confiança e tranquilidade. Entretanto, nos últimos degraus, as pernas, demonstrando vontade própria, quiseram recuar. Meus derradeiros passos deram a impressão de que tudo o que eu via estava em câmera lenta, os gritos e risos, distorcidos. A multidão esperava o meu salto com uma apreensão que aumentava demais a minha responsabilidade. Descobri, tarde demais, que aquilo era muito alto. A expectativa da “plateia” aumentava. O que era para ser uma discreta e, no meu caso, tímida sondagem, tornou-se uma viagem sem volta. Seria muito vergonhoso fazer o que eu havia pl...

🔵 Carro véio

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  Festa da firma é quando o pessoal do operacional ocupa a mesma mesa  da turma do escritório. Desta vez, foi numa churrascaria fina. Essa pororoca empresarial exigia apenas beber com moderação e ser discreto. Portanto, o cumprimento destas regras de convivência garantiria uma segunda-feira segura.  O manobrista, acostumado a estacionar Ferrari, Lamborghini, Maserati, Porsche e outras máquinas exclusivas, foi obrigado a guiar o meu esforçado e honesto Gol 86. Tenho certeza que meu carrinho bege foi abandonado numa viela qualquer. Confesso que este pensamento me comoveu, como se meu primeiro automóvel tivesse atributos humanos. Afinal, mesmo sendo a álcool ele “pegou” sem sequer eu precisar puxar o afogador pra esquentar, não me fez passar vergonha sendo empurrado e me trouxe até o bairro nobre. Entretanto, não foi desta vez que meu golzinho ficou em boa companhia, ao lado de carrões. Cumprimentos, apresentações, carnes selecionadas nos melhores pastos e um previsível ‘Ami...

🔵 Passarás vergonha

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  Fomos à missa da igreja do bairro. Sabia que seria avaliado por minha mãe, Deus, os santos e o padre. Não adiantava olhar para os lados, os santos pareciam me encarar de cima para baixo. E pelos olhares de acusação, deviam saber das notas baixas na escola. Estava montado o cenário que corroborava com o temor de que Deus castigava.  Seria relativamente fácil ouvir a palavra de Deus, mas como não entendia o que era dito, pelo pároco com forte sotaque, copiei os fiéis. Num mimetismo religioso, e caótico, que poderia ser confundido com demonstração precoce de fé, sentei, levantei, fiz o sinal da cruz e murmurei algumas palavras rituais. Na hora das ofertas, eu cometi o ato que até hoje pode ser lembrado. Pois bem, a sacolinha percorria as mãos do povo, mas aquele domingo não parecia ser o dia das grandes ofertas. Talvez, do outro lado, algum empresário garantisse as reformas. A canção era tocada num violão desafinado, mas que era honesto e bem intencionado. O som me deixou num i...

🔵 Cada um no seu canto

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  O endereço do bairro oriental era um sindicato. Aquilo estava estranho, porém o número era aquele, então só poderia ser ali. Empurrei o portão e encontrei o teatro. O pessoal já estava reunido, então corri para classificar minha tessitura vocal. “DÓ, RÉ, MI, FÁ, SOL, LÁ, SI”. Repetindo as notas musicais, fui acompanhando a progressão em oitavas que a maestrina tocava ao piano. Para minha surpresa, fui classificado como “barítono”, o que me colocou junto a uma galera parecida com a “Fat Family”. Me enchi de orgulho, entretanto, isso não me fazia cantar bem, era apenas curioso e exótico. A voz, não tão grave quanto a do “baixo” e não tão aguda quanto a do “tenor”, explicava o desconforto para cantar as canções mais agudas ou populares.  O coral com o nome ‘Luther King’ e o repertório me promoveriam automaticamente a uma igreja do Bronx, Brooklyn ou Harlem. Não poderia mais disfarçar como quem tosse ou desafina no coral da escola, da igreja ou da associação de bairro. O nome do...

🔵 Tem um artista na pista

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 O ônibus velho “esgoelava”, se arrastava até embalar  e o motorista, como recomendado, falava somente o necessário. Atrasado, na iminência de assinar o ponto alguns minutos mais tarde, eu fiscalizava cada metro vencido, internamente comemorava os semáforos evitados e os veículos ultrapassados. No entanto, aquele exato farol sempre fechava, retendo o ônibus por intermináveis segundos. O semáforo finalmente abriu, mas o trânsito estava enroscado. Mesmo em São Paulo, isso não era normal naquele horário e ali. Fiz o que os outros passageiros, curiosos, já estavam fazendo: pendurei-me na janelinha e olhei. Procurei, mas não encontrei nem vestígios do acidente. O que interrompia o andamento rotineiro daquele, outrora, previsível dia, era algo que eu nunca imaginaria travando o tráfego. Saído diretamente do ‘Show de Calouros’, programa do Silvio  Santos, o jurado Pedro de Lara. Diferentemente do personagem mal humorado e ranzinza, o cabeludo parou o trânsito distribuindo alegri...

🔵 Casa Maluca

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  A timidez “avisava” para nunca, jamais, em hipótese nenhuma participar de um espetáculo de auditório — daquele tipo que selecionam um “voluntário” para pagar mico e ser identificado como alvo de risos e gargalhadas armazenados. Minha constatação prévia: alguém da plateia será capturado para bancar o panaca, enquanto o “Zé Graça” sai como o “bonzão”. ***               *** Como perdido do bando, desgarrado e atraído, resolvi entrar naquele “brinquedo” misterioso e sem fila. No Hopi Hari, era raro encontrar uma atração sem fila e que não combinasse várias exigências. Pois  bem, curioso como gato diante da caixa de papelão, adentrei o recinto misterioso. Olhando, a casa era totalmente torta e tudo parecia na iminência de desabar. O apresentador, treinado para ser um animador, animadamente me chamou para desafiar a gravidade na ‘Casa Maluca’. A hesitação foi rapidamente vencida pela expectativa daquele maldito público. O apresentador emendo...

🔵 "Dinheiro na mão é vendaval"

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 O esforço que sempre foi utilizado para chutar bola e empurrar carrinhos valia dinheiro. Então, fui vender o que chamavam de força de trabalho. Longe de ser um trabalho análogo à escravidão, mas também não era algo que fizesse me sentir à frente do meu tempo, no entanto, dava certo orgulho, aos 16 anos,  ficar responsável pela coleção primavera/verão. Prender alarme em peças de roupa era o tipo de serviço que até um robô com curto-circuito poderia fazer. No entanto, eu me sentia importante porque se minha mão de obra falhasse o trabalho sujo ficaria com o segurança da loja ou a polícia. O pequeno arroubo capitalista mostrou que seria insuportável e explosivo o repentino poder financeiro de quem estava acostumado a comprar guloseimas. Era a hora de celebrar o encontro do mundo encantado das compras com o poder aquisitivo, então, fui colocar minha moeda em circulação. Como “feio é comprar e não poder carregar”, enchi a mochila de camelô de bugigangas inúteis. As liquidações, de...

🔵 Ver para crer

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  Malas, barracas e cinco pessoas. Tínhamos o necessário e principalmente o espírito de “hippie” de fim de semana. Também, algum espírito aventureiro e o suficiente de comida e água para enfrentar os dias de acampamento.  Partimos, esperando encontrar uma São Thomé das Letras bucólica, cercada por montanhas, habitada por adoradores de Raul Seixas e Aleister Crowley; no entanto, o primeiro contato com a cidadezinha mística foi decepcionante: uma picape tocando algo entre sertanejo e pagode. O som alto poderia indicar que estávamos a caminho de uma festa do peão, mas o cheiro de “incenso” não deixava dúvida, estávamos na trilha correta. Acomodados na cidade dos discos voadores, saquei a única “droga” que eu tinha: um CD de música boliviana, comprado de um grupo de ameríndios na Praça Ramos. As canções folclóricas automaticamente nos identificava como os mais alternativos e nos habilitava a frequentar as melhores cachoeiras e rodas de violão. A essência, o espírito de São Thomé a...

🔵 Rolê de bike

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 Aquela gangue de moleques com poucos anos de idade vinha tomando a Rua 13 de Maio. Como uma nuvem de gafanhotos, a turminha corria e empinava as bicicletas típicas dos anos 80.  O filme ‘E.T.’ não saía da cabeça e fazia tudo parecer possível. Como levantar voo com as bicicletas parecia impossível, o máximo que fazíamos era dividirmos umas três garrafas de “Baré Cola”, que era o refrigerante que as esparsas moedas conseguiam servir aos ciclistas mirins, portanto, a tubaína que éramos obrigados a gostar.  Impossibilitados de obter a água negra do imperialismo estadunidense, exigíamos, com desassombrada assertividade, a pobre bebida gaseificada e carbonatada tupiniquim com uma quantidade de coliformes fecais aceitável, bem como potabilidade liberada pela vigilância sanitária. Abastecidos com alguns copos do refresco, desempilhávamos as “bikes” e seguíamos “aterrorizando” o bairro guarulhense. Comportando-se como uma gangue de motociclistas malvados, os garotos seguiam “amea...

🔵 Mistérios da meia-noite

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  Todos concordaram com aquele desafio. Talvez alguém não concordasse com a prova besta, contudo, mesmo desconfiando que aquilo seria o sepultamento do rolê, não ousou se manifestar. Aquilo era quase um clichê: entrar no cemitério à noite. No entanto, mais do que ter, era preciso demonstrar coragem. Desistir não era uma opção. Este plano não estava incluído no rol de atividades pelas  ruas de Guarulho, não obstante, em frente à necrópole, aquele horário instigou a triste ideia. Como ninguém arredaria o pé, perante uma plateia sedenta por localizar a covardia, todos concordaram em invadir o dormitório eterno. O arame farpado sobre o portão denunciava a frequência do local: penas de frango enroscadas. Vencendo o portão secundário, seria muito humilhante desistir do imbeci rito de passagem. Ao invés da segurança das luzes artificiais, bastava caminhar pela escuridão com a expectativa de ver ou ouvir o que automaticamente seria sobrenatural. Andando lentamente e em silêncio, o obj...

🔵 Lula lá, eu aqui

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  Naquele dia, acordei mais cedo e tomei o café da manhã. Antes de sair, peguei uma pilha de “santinhos”. No panfleto, havia um sujeito barbudo e alguns escritos, dentre eles, um em destaque: “Lula lá”. Em 1989, ainda era romântico votar no PT e achar que o Lula significava o povo no poder. Não precisei receber boletos, nem DARFs para descobrir que o Estado seria meu maior inimigo, e as estatais são “elefantes brancos” que favorecem a corrupção e expõem a ineficiência do governo. Logicamente, ainda não havia estabelecido estes conceitos, de modo que fui convencer alguns eleitores, que assinalando na cédula o nome daquele cara, que eu mal conhecia, teríamos um País melhor. Eu não sabia, mas aquela experiência militante tinha o potencial de alterar o rumo da minha vida. O terreno era espinhoso, de modo que gás lacrimogêneo, jato d’água, cassetete, bala de borracha, algemas e camburão abririam um portal sem volta, deixariam uma ferida impossível de cicatrizar e alterariam minha incipi...

🔵 Arte cínica

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 Por melhor que seja, a impressão é que a representação teatral não passe de uma pecinha escolar. Ir ao teatro é enfrentar uma plateia “blasé”, que se acha “antenada”, superior culturalmente. Pior, esse tipo de público faz questão de esfregar na cara que você não deve fazer a mínima ideia do que foi assistir ali. Um pessoalzinho descolado, engajado e citando peças obscuras — dessas que nem a turminha do Metrópolis conhece. Inadvertidamente, fomos convidados ao covil mais “underground” de teatro que pode existir. No Teatro de Bolso da Vila Madalena, aquele público “cabeça” olhava para nossa cara como se tivéssemos errado o endereço do “stand-up comedy”. Pronto, éramos o alívio cômico perfeito do templo do entretenimento para poucos. Mesmo assim, arriscamos nos submeter ao critério daquela “gente fina, elegante e sincera” e, automaticamente, sermos observados como uma espécie exótica. Portanto, entramos no teatrinho minúsculo, ocupamos os assentos do fundo e aguardamos a atração. Pel...

🔵 A revolução dos bixos

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  Era uma dessas universidades “shopping center”, conhecidas como “pagou, passou”, distribuidoras de diplomas e que despejam caixas de supermercados/advogados e balconistas/administradores de empresas.  O  quadro docente contava com uma equipe pronta para formar uma guerrilha urbana e para a luta armada, almejando, eternamente, a “ditadura do proletariado”. Para não sobrar dúvidas, um professor chamava-se Vladimir. Como eu não tinha talento para esconder que era capitalista e conservador, só continuei o curso porque Vladimir (logo ele!) me deu cobertura e garantiu minha vida enquanto não desencadeassem a revolução e instalassem o paredão.  Descartando a possibilidade de me tornar um marxista, tratei de autopoliciar o emprego das palavras. Sem o estereótipo das classes trabalhadoras menos favorecidas, minorias ou coletivos, logo vi que eu estava em território inóspito. Portanto, enfrentaria anos difíceis de doutrinação, perseguição política e patrulha ideológica. ...

🔵 Assalto

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  Inocentemente, me dirigi à caixa do supermercado, coloquei a garrafa de Coca no balcão e aguardei a minha vez. Saindo do meu transe e reparando bem, notei que a demora se devia a um assalto. Obedecendo a autoridade de um revólver, fui expulso para não atrapalhar a “limpeza” da caixa registradora. Fui ao estoque, esperar os “clientes preferenciais” serem atendidos. Chegando lá, o que vi mudou minhas impressões acerca da gravidade do evento: ajoelhados, clientes e funcionários rezavam com muita fé. O local não era apropriado para aquela genuflexão forçada, mas, naquele depósito imundo, eu somava, entre barras de sabão e pacotes de bolacha, à multidão em plena demonstração de fé.  A cena ecumênica, emocionante, foi interrompida pelos disparos do revólver. Os estampidos se acrescentaram aos choros. Foi então que tive certeza,  o mercadinho havia se convertido no  “muro das lamentações”. O cenário era, definitivamente, mais de fanatismo explícito em direção a Meca do qu...

⚫ Churrasco Grego

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  Caminhando pelo Centro de São Paulo, de vez em quando tinha o trabalho de desviar do lixo. Dizem que Nova York também é assim. Mas lá não tem o Churrasco Grego!  Assim como o iogurte e o presente, são coisas que, apesar do nome, não são típicas ou facilmente encontradas na Grécia. O comerciante com o avental desbotado operava a traquitana giratória. O tal churrasquinho era feito com uma pilha de gordura, algo indecifrável e algum tipo de carne girando.  Não sei se pela fome ou pela determinação do desafio gastronômico, mas o conjunto comestível me hipnotizou. Li o aviso da promoção que parecia pouco atraente: lanche + suco. A carne tinha um aspecto suculento atraente, mas os sucos amarelo e vermelho eram demasiados artificiais. Era preciso disputar espaço com desocupados, transeuntes, motoboys e demais trabalhadores com “ticket” de vale-refeição insuficiente para um prato-feito e Coca. De fato, o baixo preço era compatível com os piores cortes da comida de rua que girav...

Curral eleitoral

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Expectativa e realidade    A vida era mansa quando era mera representação ambulante de séculos de escravidão. Não era preciso trabalhar, bastava SER. Isso era fácil: ela ERA. Anielle Franco foi escolhida como ministra da Igualdade Racial porque… porque… é irmã da Marielle Franco, que …  que… A ministra Anielle Franco, com estratégia análoga a de Marina Silva, o  negócio dela também era apenas falar dos problemas que já sabemos que existem. Até chegar ao Ministério. Como os ministérios do Lula são só sinalização de virtude, cabides de emprego e moedas de troca, ela não precisaria mostrar resultados reais. Aceitou. Termos e expressões como “racismo ambiental”, “violência simbólica” e “apropriação cultural” mais confundem do que explicam alguma coisa ou tipificam um crime. E é para isso que servem, pois é confundindo que enriquecem movimentos e associações de minorias. Enfim, chegou uma pauta que justifica a existência, bem como a relevância da pasta da “flanelinha de m...