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Mostrando postagens de setembro, 2025

🔵 O prefeito no Motoclube

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  A motocicleta era emprestada, mas eu ia para o motoclube mesmo sem moto, sem correntes, sem jaqueta de couro e sem cara de mau. E, depois dessa noite, percebi que outras tribos estavam frequentando o local. O imaginário popular, o visual estereotipadamente agressivo (muitas vezes anedótico) e a mística gerada pelos “Hells Angels” criou uma impressão exagerada acerca de integrantes de motoclubes. Engenheiros, policiais, médicos, advogados etc transformam-se em cima da motocicleta e resolvem brincar de quem bate na mãe, chuta cachorro e não chupa mel, mastiga abelha. Um senhor, que alternava sua vida entre candidato, deputado, prefeito e de vez em quando empresário de Guarulhos, chamado Paschoal Thomeu, resolveu passar algumas horas mergulhando no submundo da noite alternativa. Tentou a sorte, para colher um punhado de votos, no encontro de motociclistas. Sinceramente, me enganei ao imaginar que o político encontraria ambiente hostil para lograr êxito no seu objetivo. Pelo contrári...

🔵 Criaturas da noite

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  No Dinossauros Rock Bar, em Pinheiros, São Paulo, subia ao palco cada um dos integrantes da banda Dinossauros. Notei que entre os músicos estavam duas figuras conhecidas: José Luís Tejon Megido (violão e voz), jornalista, publicitário, escritor e exemplo de superação, entre outras atividades e Roberto Shinyashiki (guitarra), psiquiatra, escritor e palestrante; sendo que o segundo é um manjado escritor e palestrante de, digamos, auto-ajuda. No princípio, achei que aquela cena toda se tratava de uma “pegadinha” ou um “telegrama animado”. Pronto, um simples chope ao som de “rock and roll” havia se transformado num momento catártico do tipo terapia em grupo. Então, meu propósito era descobrir onde estavam as câmeras, microfones e para que emissora seria a transmissão da armadilha, bem como quem era o apresentador da palhaçada toda.  Sempre fugi de “coachs” animadões. Eles entram no palco pulando, vomitando um lote de frases feitas e afirmando que você é um vencedor (sabendo que ...

🔵 Dia de rei

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  Depois de um dia inteiro na rua, jogando bola e empinando pipa, imundo de dar dó, não resisti em prontamente aceitar o convite para uma pizza.  Minha irmã e meu cunhado, não sei se tocados pelo sentimento da caridade, solidariedade ou simplesmente por não ter o que dizer para despistar o pirralho maltrapilho, resolveram arriscar o convite. Eu, calculando que a proposta poderia não se repetir, não declinei da oferta irrecusável. Me voluntariei para devorar aquele prato italiano. . Fomos à melhor pizzaria do bairro. Hoje, tenho certeza que, naquele estado, eu não reuniria condições sequer para frequentar o boteco mais sujo que encontrasse, muito menos ousaria pisar na calçada do restaurante. Entretanto, a fome bloqueou o raciocínio, de modo que, orgulhosamente, subi a escadaria, puxei a cadeira e aguardei os serviços da casa como um rei. Estávamos apenas nós no salão, mas eu não me intimidei e, guiado pelo estômago, monopolizei a redonda. O único detalhe que incomodou e, ao me...

🔵 Um drink num coven

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Um sábado de noite. Uma pista de dança. Músicas com vozes guturais. Uma tribo urbana: os góticos. A casa noturna tinha um nome pouco convidativo: Morcegóvia, o figurino da galera dava credibilidade ao nome da casa. Entretanto, o nome anterior da lendária casa noturna era bem mais assustador: Madame Satã. Frequentei algumas vezes o lugar, de modo que os góticos começaram a ficar mais parecidos com os humanos, e as garotas vestidas com roupas emulando o século XIX (Inglaterra Vitoriana), contrastavam com meu “jeans” e camiseta. O som facilmente transportava para um estado alterado de consciência, e a atenção focada nas danças repetitivas geravam uma noção periférica restrita. O conjunto de estímulos facilmente levava muitos a um estado de transe. A farta oferta de álcool completava o serviço imundo. Pronto, um bando de jovens com os dois pés em outra dimensão e “abraçados” com entidades obsessoras. Nesse clima de sombra e escuridão, iluminado apenas pela luz estroboscópica, tive a impres...

🔵 Nocaute doméstico

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  Todo irmãozinho ganha a vida atormentando a vida dos mais velhos. E eu, como um irmão menor de praxe, cumpri o meu papel: segui alegremente e impunemente desacatando a Humanidade, até que enchi a paciência da minha irmã. A reação freou minhas diatribes e ofensas, já que aprendi da pior maneira que a incolumidade não era mais garantida. Não sei se o mais irritante era a minha voz infantil ou as “groselhas” que eu disse, também infantis. Exercendo os meus direitos universais de criança, falei até ser neutralizado com um direto de direita. Confesso, fiz uma doação de sangue compulsória. Como a sala da minha casa não era um ambiente apropriado para o que poderia ser interpretado como um gesto altruísta, nem havia o recipiente adequado, o chão recebeu uma enxurrada de rubras cascatas do tipo A+. Também tenho que admitir, após a desinteligência, chorei. A cena deve ter sido bem dramática: ajoelhado e chorando, espalhei o líquido vermelho, gastando o meu pequeno dicionário de impropério...

Jabuticabas e uvas

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  Na Assembleia Geral da ONU, Trump jogou Lula num beco sem saída. A equipe do presidente brasileiro teve que inventar uma desculpa bem esfarrapada para evitar o “grande encontro”.  Só que a fuga, fingindo não  ter espaço na agenda, não se sustenta à hierarquização da importância do encontro proposto e a farsa que são seus compromissos de “prefeito”. Tudo foi tão sem graça, que até me lembrei das desculpas escolares que arriscavam para não entregarem algum trabalho: o cachorro comeu, meu irmãozinho rasgou etc. A covardia do Lula é isso, compromete sua equipe. Mas escancara o péssimo administrador e negociador que ele é. No entanto, sua lábia continua seduzindo quem insiste em ser tapeado por aquela conversinha do Lula pobre. Definidamente, o eterno sindicalista está acostumado com a negociata dos jantares fora da agenda.  Tigrão à distância e “tchutchuca” frente a frente, o petista não sabe debater sem intimidar iniciando suas tergiversações com um “vou te dizer uma ...

🔵 A Cuca vem pegar

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  Aquele garotinho apareceu como se fosse um velho conhecido. Integrado, quase como um mascote, ele sentiu-se à vontade para dar vazão à sua sanha destruidora, então, associou-se à nossa gangue infantil litorânea para ameaçar quem atravessasse o caminho daquela turminha. Mal sabíamos que a nossa recente adoção seria um destemido e temido atirador na guerra de bexiguinhas d’água. O pequenino Evandro quis exercer sua traquinagem reprimida; usou toda a criatividade para alvejar um dos personagens que animavam um trenzinho infantil. Assim, ele seguiu com a infeliz ideia fixa de agredir bonecos que ganhavam a vida tentando animar um exército de pimpolhos nas férias escolares. Mas aquele fenomenal personagem sobrenatural devia estar cansado de transtornos de hiperatividade. Nosso vizinho teve sua incursão de subversão supostamente pueril interrompida e retornou trazendo um choro e uma denúncia desmoralizante: “A Cuca me molhou”. O fato não foi levado a sério, porque, junto à Cuca, foi tr...

🔵 Jovem aprendiz

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  Depois de varrer o chão, eu tinha que organizar a banca com as couves-flores. Mesmo sem experiência, expus os que a intuição sinalizava que eram os melhores exemplares. Como quase a totalidade das freguesas era do bairro e conhecia minha mãe, acho que faziam vistas grossas quanto ao meu desconhecimento  das hortaliças. Entretanto, os dirigentes do sacolão me deixaram responsável pela banquinha das couves. Os meus parcos conhecimentos eram inversamente proporcionais ao entusiasmo e dedicação por ser o responsável pela banquinha da couve-flor daquele sacolão de periferia. Toda aquela autoconfiança apenas era um disfarce que tinha o potencial para arruinar os almoços das cercanias. Mas eu seguia fazendo cara de quem estava acostumado a oferecer os melhores vegetais selecionados, colhidos nas melhores lavouras, fresquinhos, direto do produtor para o consumidor. Mais ou menos com esse discursinho picareta e pré-fabricado, eu fiz meu marketing infantil eivado de platitudes que min...

🔵 Eu poderia estar roubando...

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  Eu apenas preciso que o transporte me leve do ponto A ao ponto B. Mas não é isso o que acontece. Sobretudo nos trens, vendedores oferecem comida — à base de corante, aromatizante, conservante, acidulante, emulsificante e gordura hidrogenada — vencida em troca do meu sagrado dinheirinho. Eles surgem por baixo da catraca do ônibus ou do fundo do vagão do Metrô ou trem ameaçando os passageiros com o seguinte discurso: “Eu poderia estar roubando, poderia estar matando, mas estou vendendo estas balas…”. Para despertar alguma empatia, a desgraça não pode ser pouca, então, eles elencam um combo de mazelas em todos os seus familiares. Exemplos: unha encravada, câncer, desemprego e dívidas.  Quando isso aconteceu comigo: de cara, fui levado a pensar: Que cara legal! Depois, pensei: Que azar, mas ao menos ele tem alternativas, eu sou obrigado a cumprir meu horário na empresa. Finalmente, raciocino melhor e concluo: se ele poderia estar roubando ou matando, a vítima poderia ser eu. Iss...

🔵 Andando com umas companhias estranhas

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  Este é o tipo de aventura que só se vive na Disney ou, com muita sorte e baixo orçamento, no Beto Carrero World. É provável que, com parcas finanças, você tenha visto no filme ‘O Mágico de Oz’. Porém, mesmo sem nenhuma moeda, vivi esta improvável e inesquecível saga. Nas férias de verão, um trenzinho cheio de personagens (como a Carreta Furacão) surgia como opção de entretenimento infantil: Snoopy, Fofão, Mickey, Pica-pau, Cuca etc ficavam responsáveis de enganar os pirralhos. Mesmo quem não tinha dinheiro para embarcar no trem, queria participar da atração.  Entre os meninos menos endinheirados estava eu, também porque essa modalidade era mais divertida. Assim seguia o séquito de moleques com bicicleta ou correndo, interagindo com os bonecos. No meio do périplo animado, o Fofão e o Snoopy ou o Mickey foram deixados para trás. Eu e uns 3 moleques, não lembro se ficamos no caminho ou em solidariedade aos personagens, ficamos caminhando pelas ruas do bairro numa configuração c...

🔵 As meninas dançarinas

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  Chegamos atrasados, mas o show não havia começado. A sorte foi não precisar de lugar para sentar. As alternativas eram ficar em pé ou sentado no chão ao lado e na mesma altura do palco. Foi simplesmente o melhor lugar para se assistir a um show musical: o 14 Bis. Parecia interessante testemunhar a tensão de um show. Estávamos tão próximos, que os impropérios  de dois músicos pareciam endereçados a nós. Entretanto, era o “roadie” que, entre fios e botões, recebia os xingamentos, procurando a regulagem ideal do som. Ver uma apresentação tão próximo do palco era uma experiência única, mas também frustrante, porque eu estava acostumado a assistir, de longe, a uma perfeita ilusão. Contudo, pelo contrário, o que testemunhei foi o conjunto musical, cujas letras falam de futuro, esperança e amor, distribuindo farto repertório de palavrões para o pobre funcionário.  Sendo assim, a magia da música e seus significados perderam sua magia, e tudo parecia uma fábrica de salsichas. Di...

🔵 Se beber, não dirija

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  Entrei no meu carro e comecei a persegui-lo. Era um Voyage antiguinho, portanto, equivalente ao meu Gol 86. Não precisei puxar o guia de ruas debaixo do banco, pois era um bairro conhecido. A busca frenética terminou depois de uma curva, de maneira abrupta, contra a vontade de ambos, mas cumprindo a surpresa e a previsibilidade.  Sem chances de neutralização, o motorista seguia em ininterrupta e veloz corrida. Impossibilitado de detê-lo, mas sem perdê-lo de vista, eu me aventurava com o valente “Golzinho”. A perseguição só cessou após uma virada em 90º. Depois da inoportuna esquina, na rua transversal, vinha outro veículo. Isto fez com que o Voyage fosse freado, e o Gol  parasse na sua traseira. A caçada frenética findou somente com um desastre automobilístico. Eu e o outro piloto saímos dos carros para conferir os prejuízos. Eu sabia que não era necessário apanhar a trava Carneiro e usá-la como arma. Os outros motoristas, pedestres e alguns moradores da região aguardav...

Jogando pra galera

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  Obs: para uma melhor experiência: onde se lê Junior, pronuncia-se “Zúnio”. Junior cometeu um show no ‘The Town’. Ninguém comentou como foi a apresentação, mas viralizou e gerou críticas seu momento de lacração explícita: esperou apagarem as luzes do palco, engrossou a voz e soltou um “Anistia é o €@#@£#©, ¥®¶§@! O pequeno Júnior apenas quis marcar o término do seu espetáculo com gritos e aplausos fáceis, afinal, era o que outros artistas estavam fazendo. Isso agrada um público com idade de aceitar falsas sinalizações de rebeldia juvenil. Entretanto, Junior não tem o perfil pessoal, muito menos familiar e quanto ao público de alguém progressista, muito pelo contrário, todos parecem conservadores. Imagino que o eterno garoto jamais gritaria nada contra a “Anistia” em qualquer feira agropecuária. No entanto, Junior falou o que falou porque quis agradar àquele público; como um mestre de cerimônia, vendo que não é popular, grita para a plateia “Tem corintiano aí?”, sabendo que ouvirá ...

🔵 Os porões da 25 de Março

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  Foi na região central que cheguei à pior situação, a qual jamais havia arriscado conhecer. Um fundo do poço involuntário, onde eu nunca ousaria ter estado nem sequer em sonho. Com essa asquerosa provação, acordaria aliviado, sem desejar tão triste realidade ao meu pior inimigo ou à mais ignóbil das criaturas que já vagou pelo planeta Terra. Pois bem, a trabalho, visitei uma intransitável loja, na intransitável rua 25 de Março. Fiz os procedimentos de praxe e consegui me evadir da loja. A caminho de outra loja, me lembrei de cortar selos das caixas de papelão, que aumentavam a minha renda. Tive que procurar as caixas desmontadas num lixão desconhecido por mim. Aquilo era o submundo do paraíso das compras populares que eu conhecia. De repente me vi à caça do que restou do meu trabalho de reposição da mercadoria. Mas aquele subproduto tinha algum valor, e eu estava ali, entre ratos, baratas e o chorume fétido procurando o meu precioso lixo. Essa busca incessante e heroica me renderi...

Eles estão entre nós

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  Depois do assassinato do ativista conservador americano, Charlie Kirk, brotaram os guerreiros de teclado, de câmera de celular e de redação. Empoderados pela facilidade, capilaridade e disseminação das ideias socialmente condenáveis, os verdadeiros extremistas disfarçados de justiceiros sociais se sentiram autorizados, e até legitimados, a demonstrarem o “ódio do bem”. “Progressistas” comemoraram a neutralização do conservador americano. Refazendo, de forma honesta: pessoas comemoraram a morte de uma pessoa. Isso revela que pessoas aparentemente normais podem esconder psicopatas, não manifestados ou em  graus moderados, à espera de sangue alheio: aí surgem quem se sente feliz com condenação, quem celebra morte e quem se identifica com criminosos. Esses “psicopatas do bem” são amigos, colegas, parentes, pessoas que diluem-se no convívio social e, às vezes, enganam a si mesmas. O escritor Eduardo Bueno, o Peninha, era apenas um sujeito histriônico, excêntrico ou, simplesmente,...

Pamonha

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 Desde que os Estados Unidos ”vieram pra cima” do Brasil, como fungo após a chuva, surgiu um nacionalismo muito falso e parecido com o “Ame-o ou deixe-o” do Regime Militar, bem como uma soberania oportunista e seletiva. Parte do jornalismo tentou nos convencer de que de repente o nosso país deu um inédito salto desenvolvimentista, ficando melhor que a Terra do Tio Sam. Fugazes, essas manifestações seriam hilárias, porque demonstram o desespero governamental; mas são preocupantes, porque contam com ressonância na imprensa e condescendência adesista de parte da população. “Novidades” disparadas pela imprensa amiga do governo: As instituições do Brasil funcionam melhor que nos EUA; segundo o instituto de pesquisas Nexus, 50% dos brasileiros acham o governo dos Estados Unidos mais autoritário que o da China. Estes são apenas alguns exemplos da malandragem semântica e do ”espancamento” estatístico para corroborar uma narrativa. O “acham” já denota uma dúvida conhecida como “achismo”. Po...

🔵 O mantra

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  No meio do corredor do hospital, com  aquele uniforme amarelo claro desbotado, somado à minha crescente dificuldade para caminhar,  dava a impressão de ser um louco à solta que escapou do dormitório. Livre das injeções, comprimidos e exames, fui ao salão central daquele andar do hospital. A escadaria havia sido dominada pelos fumantes e convertida num irrespirável, embora animado, fumódromo. A cada aproximação, crescia o que parecia ser a reunião de elenco do “The Walking Dead” ou qualquer outro filme de apocalipse zumbi. Alguns pacientes juntavam-se timidamente, procurando se enturmar; outros já chegavam com relativa intimidade, revelando que apenas cumpriam o que era a sua rotina. Notei um inexplicável orgulho de quem estava mais institucionalizado. Essas pessoas faziam questão de demonstrar conhecimento de como as coisas funcionavam ali, o dia a dia, horários, atalhos e quem é quem. Eu só queria sair dali. Aquela não era a minha realidade. Ali não era o meu lugar. Ao...

🔵 p... p... p... p... p...

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  Algumas complicações talvez fossem dificuldades oftalmológicas, mesmo que também motoras, afinal, tudo surgiu juntamente à vista dupla. Como o relato em casa do que estava acontecendo não surtia efeito, fui ao médico oftalmologista, achando que a complicação era por causa da falta do uso dos óculos. No consultório, o médico surgiu. A primeira impressão do que vi, me deixou ressabiado. A cara de fugitivo de manicômio não assustaria muito, contanto que o diagnóstico fosse preciso e animador. A real preocupação começou quando notei algo muito errado com o homem de branco.  Com a proximidade da traquitana para “as vista”, ouvi os intermináveis estalinhos bilabiais que o médico disparava. Certamente, numa distância socialmente aceitável eu não teria percebido o transtorno obsessivo-compulsivo (TOC). Mas com a proximidade do exame oftalmológico, eu ouvia muito próxima e com muita frequência a emissão dos estalinhos. Isso só me deixava mais nervoso que o iminente diagnóstico. ...

🔵 Brincando com fogo

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  O caminhão vermelho do Corpo de Bombeiros estava pronto para partir. Mangueira d’água, ferramentas etc. Todo o equipamento embarcado para sair. A molecada estava ansiosa para circular pelo clube pendurada na viatura com a sirene ligada. A expectativa só não era maior que se alimentar basicamente de pipoca e algodão-doce e se hidratar com refrigerante. Aquele passeio bucólico era parte do presente que o clube reservou para o Dia das Crianças. Esse pacote ajudava a nos iludir quanto ao sonho infantil: o nosso lazer de domingo foi preparado para não associar a profissão a imóveis em chamas. Materialização das orações de uma turminha exigente, o veículo não saía do lugar, frustrando minhas incipientes esperanças de transformar o lugar-comum de todo moleque em um precoce teste vocacional. Portanto, mesmo que fôssemos obrigados a arremessá-lo, aquele equipamento percorreria as alamedas do clube. O caminhão já estava dominado, então, o anúncio daquela atração gerou uma ansiedade que jam...

🔵 Bolsa

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  Cada estande ou palestra só tinha um assunto: dinheiro; os papos com amigos giravam em torno de um único tema: investimentos; eu gostava de visitar dois lugares: corretora e Bovespa; meu computador era ligado quando abria o pregão e desligado ao término da transação de papéis; bancas de jornal, programas de rádio e “sites”, praticamente tudo o que remetesse ao mercado bursátil era do meu interesse; até o “economês” foi instalado no meu vocabulário. Entrei nessa no auge da crise de 2008, enquanto investidores se joga de edifícios. Não deixou de ser uma estratégia, pois o mercado estava em baixa (barato).  A Expomoney, a Disneylândia de um legítimo porco capitalista, era a praia paulistana que significava o encurtamento da amplitude financeira que começou com um humilde cofrinho em forma de porquinho, passando pela caderneta de poupança. “Initial Public Offering” (IPO), dividendos, “day trade”, bastava decorar algumas palavras e expressões (várias em inglês) e falar um “econom...

🔵 Raiva e tristeza

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 Assistir ao Corinthians sendo rebaixado traria um  drama somente visto em capítulo final de novela mexicana e confirmaria a tese que o corintiano é sofredor. Entretanto, o que poderia ser o grandioso pior momento da história do clube, reservava a esperança de simbolizar a derradeira salvação. Então, fui ao Parque São Jorge. O  espaço armado para a torcida era estrategicamente localizado ao lado da lanchonete. Havia mais gente do que eu previa, bem como  uma turminha da temida torcida uniformizada. O clima geral era bom, e a expectativa, muito positiva. Alguns repórteres e fotógrafos esperavam, como sempre, entrevistar algum corintiano revoltado ou em prantos. Isso, provavelmente, venderia muitos jornais, revistas e renderia matérias dramáticas. O Timão, em 2007, tinha uma equipe que não fazia jus ao apelido. Além de estar jogando muito mal, dependíamos de outro jogo. As garrafas de cerveja foram esvaziando, o álcool correndo no sangue da galera, os semblantes de pre...

🔵 Caminhando na ponta dos pés

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  Tudo começou estranho. Em vez de boteco ou bar com banda ao vivo era quadra de escola de samba. Eu deduzi que a noite seria longa, pois teria que fingir gostar dos batuques carnavalescos. Em nome do feriado e da festa, já arrisquei agitar os polegares e enroscar as pernas — como um gringo — ao ritmo do samba. Dessa vez não tinha nem chope grátis no endereço beirando a Marginal Tietê. Quando começaram as performances das agremiações, logo vi que a noite seria realmente interminável. Rodopiando vinham porta-bandeiras da Gaviões da Fiel, Camisa Verde e Branco, Dragões da Real, Rosas de Ouro (onde eu estava) etc. Cada vez que a porta-bandeira parava e oferecia o pavilhão, eu tinha que beijar a bandeira e fazer uma reverência, conforme observei, quase como se o pendão  fosse um objeto sagrado e eu, um malandro carioca dos anos 20. Meu visualzinho de quem caiu ali por engano estava mais apropriado para uma ópera no Teatro Municipal. Notei que quando a porta-bandeira chegava em mim...

🔵 O quadro

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  Esta história parece um conto fantástico do Edgar Allan Poe, um surpreendente episódio de Além da Imaginação ou um capítulo horripilante de Contos da Cripta, entretanto, é uma aventura verdadeira. A passagem foi tão inacreditável, que para escrevê-la tive que recorrer ao meu irmão para confirmar se o que meus olhos testemunharam foi o mesmo que os dele. Tudo aconteceu nos anos 80, portanto na infância, por isso a desconfiança se aquilo realmente ocorreu ou é a construção de uma imaginação fértil.  Entre um amigo, meu irmão e eu, alguém teve a mente devidamente desocupada para sugerir a invasão de uma casa abandonada. A residência antiga tinha um aspecto bem fantasmagórico. Seus antigos ocupantes estavam todos mortos, porém a mobília permanecia em seu interior. Tudo isso agregava com a atmosfera assustadora. Então, com idade insuficiente e coragem (ou curiosidade) de sobra, enfrentamos a velha casa abandonada que guardava mistérios e lendas. Chegando lá, o ranger da porta, a ...

🔵 O conto do vigário

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  🔵 Conto do Vigário  Um sujeito deixou cair, acidentalmente, um maço de notas bem na minha frente. Vou iniciar novamente, porque a história não é bem assim. Este início seria como a vítima deveria interpretar o incidente. Recomeçando: O picareta largou, propositadamente, uma imitação de pacote de dinheiro  (parecendo muito) no meu caminho. O comparsa, apressadamente, se aproximou, apanhou a “grana” e, arregalando os olhos para me impressionar, disse:    — Olha! Ele deixou cair! Claro, o truta estava querendo que eu caísse na dele. Não sei (nem me interessa saber) o que exatamente os motivou a me elegerem a vítima perfeita: ganancioso ou matuto. Podem ter sido as duas características. Como erraram nessas avaliações, o golpe não foi bem sucedido. Como já disse, não me interessa descobrir como desenvolveriam o golpe do maço de dinheiro falso. Só me interessam estratégias de como ganhar dinheiro honestamente. Pois bem, concomitante a tentativa de me impressionar, ...

🔵 Interrupção temporária de sinais sonoros

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Nos deparamos com algo muito inusitado: uma câmara silenciosa. Quem já esteve na Bienal de São Paulo, no Parque do Ibirapuera, sabe que não é anormal encontrar um experimento surpreendente. Mas aquela instalação era intrigante, inclusive provocativa. Como experienciar uma inédita ausência de sons no coração da cidade que não dorme? Nada poderia surpreender quem estava numa exposição do filme Star Wars, ou seja, no mesmo ambiente que Darth Vader e os Stormtroopers. Já acharia normal, até entediante, pedir licença ao R2-D2 ou ao C-3PO. Também já não me espantaria se o Mestre Yoda, caminhando com certa dificuldade, passasse ao meu lado. Em São Paulo, sobretudo nos finais de semana, era normal cruzarmos com criaturas bizarras (humanos ou interplanetárias). Não sei se por curiosidade, desafio ou pura falta de alguma coisa melhor para fazer, o brinquedo, digo, a instalação nos convidou a desafiá-la. Aguardamos e entramos na intrigante caixa com duas cadeiras. Seguimos as orientações para, se...

🔵 Velhão

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  Parece que estamos no cenário do início de um filme de terror. Se o destino for uma residência afastada, sei que o enredo é o pior para todos nós. Estamos subindo a serra, cortando uma floresta escura e densa.  Para completar o enredo maldito, chegaremos numa mansão linda, porém estranha; contaremos com a companhia de um cachorro raivoso e sinistro que late olhando para o vazio; e uma vizinha misteriosa carregará a expressão amedrontadora de quem sabe o que ocorreu na casa e a besteira que nós (forasteiros) estamos nos metendo. A composição do grupo parece favorável, mas eu entendo o truque: algumas garotas atrairão a gente para a armadilha mortal. Dessa maneira, provavelmente seremos esquartejados pelo maluco psicopata local, sobrando apenas o casal mais bonzinho, aposto. Já vi esse filme, eu sei como isso acaba. Apesar do prólogo de filme B de horror “gore”, o que veio a seguir não foi tão trágico. Na verdade, estávamos somente cortando a Serra da Cantareira. Escura e fech...

🔵 Numa fria

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  Uma inocente guloseima infantil pode dar cadeia? Culpa da irresponsabilidade do excesso de cuidado, a dissuasão vinha com terrorismo e ameaça, mas era só para economizar. Eu juro que apenas queria comprar um gelinho, vendido num Fusca azul. Mas minha mãe afirmava que aquele carrinho vendia drogas e raptava crianças. Hoje, me afastaria, até correria apavorado, se avistasse o fusquinha azul dobrando a esquina. Gelinho (geladinho ou sacolé) pode ser definido como sorvete de pobre. Consiste em um suco congelado num saquinho. Pois bem, o veículo, a cor e o local afastado onde ficava, já eram muito suspeitos, juntamente com a denúncia da minha mãe, o conjunto tornava-se algo que eu deveria manter distância devido à periculosidade. Atualmente, eu compararia todo aquele método na porta da escola a um “serial killer” americano. Na segunda série, em outro colégio a mesma maldade foi aplicada como estratégia para economizar alguns centavos. Dessa vez a vítima foi a pobre velhinha que vendia...

🔵 Corinthians veio pra vencer

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  Sábado de sol, Pacaembu lotado, jogo em casa, não tem como dar errado. Perfeito para irmos ao Estádio ver o Corinthians massacrar o visitante Bahia. Estava tudo dando certo: o disputado estacionamento foi resolvido da melhor maneira; a difícil e aparentemente esgotada entrada foi inexplicavelmente solucionada. As pistas já apontavam, o espírito era de goleada: bandeiras, camisas e badulaques à venda; torcedores de diversas classes sociais cantavam o jogo ganho. Depois de resolvidos os problemas, era só entrar no clima do “já ganhou” acompanhando canções, ou gritos de guerra, como: “Corinthians veio pra vencer”, “Porópopó” e “Caiu na rede é peixe lêlêaá, o Timão vai golear”. Com esse ambiente positivo, tudo dando certo e a vitória iminente contra o fraco Bahia, era só aguardar o momento de comemorar o primeiro gol. Só que não. Dois detalhes saíram diferentes do combinado. Frustrando a mais básica das expectativas, nesse dia não houve nem um golzinho, muito menos, logicamente, vitó...

🔵 O budismo da alta sociedade

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  Só poderia ser ali, a única casa em estilo oriental da região. A decoração “muito louca" e os  sininhos na porta não deixavam mais dúvidas. Se fosse, digamos, uma espiritualidade de resultados imediatos, a localização seria em  qualquer bairro proletário; mas como era a religião dos ricos e famosos, o endereço do templo budista era no bairro de Perdizes, local nobre de São Paulo. Chegando lá, tive que encarar uma turminha que estampava o arquétipo perfeito de quem fazia mapa astral legal, jogava tarô em quiosque de shopping, acreditava em ETs tecnopop, bruxas, gnomos, energia, esse tipo de coisa. Ah, também viajava para lugares como São Tomé das Letras.  Ninguém poderia descobrir, mas eu era um corintiano comum e superficial, sem análises muito embasadas da existência, apenas à procura de uma cerimônia diferente da missa católica. Então,  apresentei-me e segui todo o ritual. Adaptei-me como pude: só com meias, falei mansamente “namastê” (fazendo o gesto) até p...