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Mostrando postagens de agosto, 2025

🔵 A Ilha da Fantasia

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  Aquilo não era uma ilha, mas era alguma cerveja cercada por muita sede. O imóvel era, injustamente, chamado de restaurante, talvez por causa do salão grande com pé-direito alto. Porém, uma mesa de sinuca com feltro grudento, madeira estufada e tacos disformes não disfarçavam aquele ambiente de boteco. Um deserto no meio do oásis: era isso o que aquele bar parecia representar para o dono. Quando fazia um belo dia de sol, para nós, era um convite para prestigiar o estabelecimento comercial do Português, molhando a goela e beliscando um tira-gosto. Para o Português, significava trabalho.  Isso parecia péssimo, motivo para uma preguiçosa reclamação. Se o dia fosse ensolarado, pior, pois interrompia seu planejamento diário: fazer nada pela manhã; de tarde, descansar; à noite, não fazer coisa nenhuma; depois, descansar novamente. Naquele paraíso, a definição de bom e ruim era inversamente proporcional para o Português e sua clientela. O proprietário só queria evitar a fadiga; e nó...

🔵 O espancamento

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  J… o pobre condenado, já estava amarrado no poste. Não havia a menor chance de escapar daquele iminente martírio. A sessão de espancamento iria começar. Todos estavam armados com o que houvesse: paus, pedras, objetos contundentes, perfurantes, cortantes, perfurocortantes, explosivos e um galão de gasolina — que denunciava o triste e cruel final daquela justiça com as próprias mãos. O desgraçado J... tinha cometido o crime há muito tempo. Curiosos intervieram — na verdade, tentaram — mas foram rapidamente dissuadidos. Na sede por sangue e na lei da periferia não havia perdão nem prescrição de traição. Sem a menor chance da imolação pública ser adiada e todos já armados, quem discordava da violenta tradição deveria resignar-se e sair de perto. Arremessaram uma pedra. Começou uma sequência de golpes com paus, pedras e demais instrumentos. De vez em quando, lançavam morteiros na direção do infeliz. Alguns, corajosos e mais empolgados ou com muita sede de justiça invadiam a “linha de ...

🔵 Roubada

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  A rotina aciona automaticamente o piloto automático. Isso aconteceu num dia comum, quando ela foi com seu automóvel ao salão do clube central da cidade. Já estava acostumada com o trajeto, pois fazia aquele caminho e estacionava, praticamente no mesmo lugar, várias vezes ao dia. Acostumada a encontrar a mesma cena, o carro estacionado atrás do clube, assustou quando se deparou com a triste realidade que batia à sua porta: agora ela era apenas um número a mais na triste estatística dos furtos de veículos. Era péssima a sensação de sair de São Paulo para ser tapeada numa cidade do interior. Conclusão: somente uma pessoa sem coração, muito ruim, seria capaz de provocar tanto mal. Quem, de onde seria e onde estaria ser tão perigoso, que não merece nem ser chamado de ser humano? A inusitada ocorrência interrompeu o sossego da cidadezinha. Transeuntes e funcionários saíram das pequenas, médias e grandes lojas, todos curiosos com o grande escândalo. Pois bem, para resolver o problema, f...

🔵 Boemia...

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  Avistamos o local, era bem simples. O tanto que falavam desse bar levou as expectativas a um patamar que tinha alto potencial para frustração. E foi assim. O famoso Bar do Léo era bem comum, até pior que vários outros. O lendário barzinho do Centro de São Paulo tinha como símbolo um simpático e dócil leão. Mas não chegamos ali por causa do leãozinho, mas sim do tão falado chope. Por ser pequeno, você podia optar por desviar de mesas e cadeiras espremidas ou ficar na calçada, em pé. Preferimos a segunda opção, mesmo não tendo outra escolha. A espelunca era bastante concorrida, e todos tinham estampada na cara a expressão de estarem bebendo o premiadíssimo chope  com um colarinho cremoso de milimétricos três dedos de espessura em um ambiente “vintage” do veterano Bar do Léo e beliscando deliciosos petiscos. Além da tradição do estabelecimento, outros diferenciais prometidos chamavam a atenção: os barris, à sombra, em câmara fria; a lavagem “especial” dos copos; e tudo meticulo...

🔵 Comunidade distópica

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  Um fim de semana foi o suficiente para viver numa sociedade, pretensamente, ideal. O problema é que essa sociedade só sobrevive num feriadão, por isso é considerada uma utopia. Aqueles dias foram um experimento de como seria uma microssociedade hippie. Estavam todos muito solícitos, cada um exercendo sua tarefa no coletivo. Lembro bem de uma salada de frutas sendo preparada voluntariamente por uma dezena de mãos e igualmente devorada. Parecíamos uma tribo de índios em completo isolamento da civilização capitalista selvagem corroída pela competição. A comunhão, a paz e o “bichogrilismo” estavam alcançando níveis incompreensíveis  e  inadmissíveis para o meu ceticismo, a ponto de alguém ameaçar iniciar a “dança ritual do fogo”, celebrar o Sol, a Lua, as matas, as águas, o ar, o raio, o trovão... Percebi que ali alguém surgiria se contorcendo, com os olhos virados e falando em línguas, ou o Arrebatamento começasse por lá. Mas, como em toda convivência utópica, essa brincad...

Genocídio americano

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  Na comédia ‘O incrível exército de Brancaleone’ é contada a história do tal Brancaleone e seu exército formado por maltrapilhos e um punhado de desgraçados que dariam dó se não fossem convocados para matarem de rir. Pois, Nicolás Maduro trouxe a piada do cinema italiano para a vida real. Diante da aproximação da máquina de guerra dos Estados Unidos, Maduro insiste em ocupar o Palácio Miraflores. Para isso, ele convocou sua milícia para o que pode ser previsto como um “suicídio coletivo” liderado por um maluco bravateador e megalomaníaco. Muito parecido com o que foi a guerra do Paraguai, na qual o ditador Solano López enviou homens e crianças para a morte; agora, o também ditador formou um catado de fiéis defensores dispostos a morrer. Infelizmente, se eles forem de encontro com os soldados americanos, a morte será inevitável. O grande contingente da milícia bolivariana apenas dará mais trabalho e adiará o fim. A cegueira bolivariana é suficiente para esse exército venezuelano se...

🔵 Um minuto da sua atenção

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  Não há viagem de ônibus que seja tão entediante que não possa piorar. Pois foi assim que, num ponto lotado, embarcou um sujeito pretendendo alegrar parte do trajeto. Avaliando que resultado ele poderia obter, calculei o grau de caracterização do ator: maquiagem mal-feita (borrada) e avental surrado e encardido. A composição toda era muito triste. O cabelo desgrenhado era a única coisa que gerava uma graça involuntária. O palhaço triste pretendia ser um “doutor da alegria” genérico, mas estava muito claro que o infeliz precisava de ajuda, não o contrário. Nem a maquiagem escondeu sua angústia. Infelizmente,  sua atormentada realidade apenas se somou à de outros quando ele embarcou naquele coletivo. O número, ou a tentativa de alegrar alguém, foi constrangedor, o que só tornava o ambiente pior. Pensei: palhaço, você não é engraçado. Só não vocalizei minha conclusão por medo que o pretenso parlapatão fosse linchado. Provavelmente, isso só tornaria as coisas piores e me causaria...

🔵 Bar do motoclube

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Esse simpático boteco era, de fato, um ambiente familiar. Mais precisamente, “de la famiglia”. A frente era, basicamente, um disfarce. Não chegava a ser um “speakeasy” (bar escondido da Lei Seca). No máximo, além de matar a sede, a contravenção restringia-se a uma máquina caça-níqueis — essas de periferia — e um “pinball” franqueado a menores, funcionando como introdução ao vício. O ambiente enganoso começava a desmoronar à medida que se avançava no corredor em direção aos fundos da espelunca. No corredor, ficava a máquina de fliperama, apenas como convite ao vício, porque atraía os mais jovens. Nos fundos do botequim, nada mais do que um quintal, recinto apenas permitido a convidados. Somente ía direto para lá, quem conhecia bem o lugar. No quintal, ficavam uma mesa de bilhar — viciada, como alguns dos frequentadores — com alguns tacos tortos, gizes umedecidos, mesas e cadeiras (de ferro) dobráveis, um aparelho de som e a churrasqueira do motoclube. Alguns copos americanos vazios e ci...

🔵 O Castelinho da Rua Apa

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  Muito me intrigava aquele imóvel assustador encravado numa esquina da Avenida São João. Algo acontecia no meu coração, mas sei que não era coisa boa. O sobrado antigo e fantasmagórico resistira às demolições paulistanas. A arquitetura lembrava um castelo europeu, o abandono e a escuridão remetiam a uma história de terror sem término, por isso tinha o aspecto provocativo, querendo contar um litígio mal resolvido.  Aquele sobrado parecia desabitado, o que era muito pior que abandonado (não sei o porquê). Eclipsado pela feiúra do Minhocão e imóveis mais modernos, a antiga moradia, mesmo escurecida pela fuligem impregnada, causa-me uma mistura de sensações: curiosidade e horror. Toda vez que eu passava ali de noite, minha conversa com a namorada cessava. O comportamento estranho não era à toa. A residência foi palco de uma tragédia familiar: em 1937, a mãe e dois filhos foram encontrados mortos ao lado de uma pistola. A casa, construída no início do século XX, abandonada, escura...

🔵 A Capitania Hereditária

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  Eu estava bitolado no vestibular para cursar Jornalismo. História era uma das matérias cobradas. Apesar de gostar da matéria, precisava desintoxicar da imersão que havia feito nos últimos meses.  Semifinal do Campeonato Brasileiro de 1998, eis a oportunidade perfeita para eu interromper temporariamente os estudos: vendo um “futibinha”, bebendo um chope gelado, jogando conversa fora e, quem sabe, gritando uns gols. Meu amigo teve a ideia de assistir à partida no litoral de São Paulo. Por que não? Um excelente motivo para cancelar a infeliz aventura, seria evitar descer a Serra numa motinho 125 cc e subi-la, provavelmente, levemente embriagado. Mas a precária e atribulada decisão venceu quaisquer critérios de segurança. A viagem foi tranquila, apesar de barulhenta e, confesso, como o meu amigo era motoboy, me senti uma mercadoria que precisava ser entregue em tempo recorde. Desafiando caminhões e cortando carros, chegamos. Ir numa moto 125 era o menor dos problemas. O principa...

🔵 Doses cavalares

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  Eu havia saído há pouco tempo do hospital, então ainda caminhava com muita dificuldade. Era um evento direcionado a enólogos e enófilos, no ‘Jockey Club de São Paulo’. O negócio seria “chique”, então não teria espaço para vexame. Pois, partimos para a Cidade Jardim. De início, o evento parecia algo criado para umas quatro classes sociais acima da minha. Mas, com a manifestação do teor alcoólico, descobri que o objetivo de quase todos era igual ao meu: encher a cara de graça. Bastava caminhar sem ansiedade, sacolejar o copo em círculos, enfiar o nariz, cheirar, fechar os olhos, imaginar-se na Europa, falar meia dúzia de palavras estranhas (terroir, tanino, cepa...) e fingir conhecer a procedência do líquido. Assim, me disfarcei entre enólogos, ”sommeliers”, enófilos e alcoólatras. Caminhando descoordenadamente, por causa do problema de saúde, tive certa dificuldade em esconder os efeitos do vinho. Em corredores estreitos, entre garrafas e taças, aprendi na prática o significado da...

🔵 Festinhas, bolinhos e lembrancinhas

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  Fosse de qualquer um e em qualquer lugar, aniversário que fosse anunciado como “festinha” ou “bolinho” merecia como presente apenas uma “lembrancinha”. Porém, nos anos 80, nem um nem outro eram cumpridos. O diminutivo só era aplicado por falsa modéstia, por extremo cuidado ao falar ou para causar impacto devido às baixas expectativas. O fato é que os organizadores da tal “festinha” passavam dias preparando o evento que acontecia na casa toda. O resultado era, claro, sempre histórico. Hoje, poderia ser chamado de “gourmet”. A única vez que me enganei, foi quando minha mãe anunciou o “bolinho”, usando os humildes diminutivos de praxe. Lógico, pensei que aquilo era a estratégia para surpreender os convidados. Esperando que a festa, bem como os regalos fossem inversamente proporcionais ao modesto aviso, aguardei a surpresa.  Me enganei. Quando minha mãe começou a servir o “bolinho” para um bando de esfomeados (incluindo eu), maltrapilhos, depois de um dia inteiro na rua, vi que ...

🔵 Ela é bailarina, eu sou funcionário

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  É uma experiência estranha martelar e serrar ao som de Tchaikovsky em vez de Katinguelê, no entanto, eu já fiz isso. A um passo do mundo de palco, luzes, música clássica, fantasias, bailarinas e palmas, me sentia como um pipoqueiro na porta de um teatro da Broadway. Sempre soube que o objetivo era uma excelente estrutura para a apresentação de balé, por isso, juro, sempre martelei cada prego, carreguei alguma coisa ou colei — mesmo que com fita crepe — algo tendo a absoluta certeza que o sucesso da apresentação dependia de mim, em vez das bailarinas — com anos de estudos e meses de ensaio. Tenho que admitir o que sempre pareceu óbvio: o trabalho de engenharia, mais cerebral, ficava com outras pessoas, mas justiça seja feita, eu era, digamos…  esforçado. Além de tudo, fora o sangue derramado e alguns perrengues passados, o período de “brainstorming" e execução eram sensacionais, sobretudo pelas cervejas revigorantes. Finalmente a grande noite, o espetáculo. Acho que as bailar...

🔵 Cinema "cabeça”

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  Jules e Jim, filme de 1962, do diretor François Truffaut, no CineSesc. Apesar de a ideia de assistir ao filme “cabeça”, do diretor “cabeça”, na sala de cinema “cabeça” ser minha, teria que fingir que eu era um cara “antenado” que sabia coisas como “nouvelle vague”, “noir”, expressionismo alemão e cinema novo; e que me amarrava em filmes de diretor, iranianos e outros muito exóticos. Sabia que aquela seria minha missão mais impossível. O roteiro já estava arquitetado na minha mente: assistiria à obra fazendo cara de crítico de cinema; depois, no café, comentaria, com afetação blasé, (aparentando completa indiferença), fotografia, interpretação, trilha sonora, figurino etc e citaria grandes cineastas — desses que “pega bem” citar, mas poucos veem. Exemplos: o próprio François Truffaut, Federico Fellini, Jean-Luc Godard, Ingmar Bergman, Jean Renoir e Fritz Lang. Acredite, isso é muito esforço para quem tem como “background" a Sessão da Tarde, Tela Quente e “blockbusters" em ge...

🔵 Fiat 147 amarelo

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  Quando a idade para dirigir um carro é atingida, qualquer coisa que se mova a combustível se torna objeto de desejo. E foi com qualquer coisa que meu amigo surgiu. Ele anunciou, orgulhoso com a conquista: “Eu comprei um carro!”. Concluí que a conquista seria muito boa, um divisor de águas, um rito de passagem. Olhei para a esquerda, nada. Olhei para a direita, nada. Olhei para a frente, só havia um Fiat 147 amarelo. Pela empolgação, não podia ser o Fiat. Era. O simpático carrinho deveria ser tão velho, que não tinha GPS, poderia ter, no máximo, um astrolábio. Contudo, aquele objeto andava, isso era o suficiente. Um pouco de combustível era o bastante. O veículo era modesto, mas significava um “sonho de metal” que andava! Passamos pela rua principal do bairro. Suspeito que aquilo despertou a curiosidade de quem estivesse a uma distância considerável dali.  A cor e o estado do veículo chamavam a atenção de todos. Éramos bem conhecidos, e meu amigo fazia questão de “avisar” que...

🔵 Gláucia

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  Gláucia lembrava gelo até no nome. Era aquela menina que sentava lá na frente, perigosamente perto da professora e da lousa, que sempre foi prudente manter uma distância segura, ficando longe de equações e problemas por resolver. Ela só era vista mais de perto nos corredores e no pátio, durante o recreio. Mas a repetência da 6ª série serviu para colocá-la na minha frente. Encontrei algo que me pouparia de um trabalho que nem sequer eu imaginaria ter. Aquele caderno repleto de poesias me ajudou na aproximação. O material era muito bom, mas incompatível com a minha gritante impossibilidade de reproduzir o conteúdo. Portanto, seria difícil sustentar aquela farsa. Eu mantive a máscara de falsário dos versos por tempo suficiente para sentar na mesa imediatamente atrás, para manter longas conversas. Minha carreira de poeta não teria vida longa. Em casa, pude testar, nunca fui convincente com minhas mentiras, então, eu sabia que não conseguiria garantir por muito tempo que os escritos e...

🔵 Instinto Médico "nada" Legal

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  O calafrio para entrar naquele lugar já avisava que quase todos teriam uma experiência terrível, jamais vivida. O contato com a morte — real, sem abstrações e sem parecer coisa de filme de terror — traz reflexões. Na antessala, o odor fétido e frio anunciavam algo muito desagradável atrás da porta. O que temíamos, apesar de óbvio, se concretizou: vários cadáveres. O que vi foi uma cena que fica indelével. As histórias de terror pareciam ganhar vida, pois alguns defuntos pareciam me encarar, inclusive um que, mal ajeitado, se moveu. Foi só o início do nosso estágio no Instituto Médico Legal (IML) Central de São Paulo. O cheiro pútrido e a visão anunciavam como seria o “passeio”. No pacote estava incluso: abertura do crânio (com serra Makita), aulas de anatomia e armazenamento de corpos. Pronto, agora posso dizer que excursionei para o Playcenter, Bienal do Livro, Zoológico de SP, Teatro Brigadeiro, Programa do Bozo e… IML. O showroom tanatológico foi intenso: baleados, atropelados...

Apertem os cintos, o piloto sumiu

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  É nesse momento que o líder aparece. No entanto, Lula segue cumprindo sua agenda de prefeito. Essa é sua maneira de se esconder: em palanques e com uma plateia controlada para ser composta por apoiadores dispostos a aplaudir qualquer coisa.  Como em política não fica espaço sem ser ocupado, alguns governadores correram para negociar o tarifaço de Donald Trump.  Trump, acostumado com negociações, reconhece com quem está falando no aperto de mão: se o cumprimento não for firme e olhando nos olhos, o jogo já está ganho. E Lula, que foi entronizado no Brasil, não negocia porque não quer ser humilhado. Ou seja, já se sente derrotado antes de decidir conversar.  O presidente brasileiro simplifica sua política internacional a uma partida de truco, onde é do jogo blefar (mentir). Então, o petista gritou “seis” sem carta e, lógico, terá que ficar quieto. Winston Churchill, primeiro-ministro da Grã-Bretanha. Durante a Segunda Guerra Mundial, foi um estadista que mobilizou e ...

Zé Povinho

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  Íamos ao teatro do Sesc Consolação. O palestrante era obscuro: José Miguel Wisnik. Digamos que esse músico e professor da USP era um “pop star”  da TV cultura e Rádio USP.  O pessoal da faculdade provavelmente ficaria mais entusiasmado se o palestrante fosse um ex-Big Brother qualquer. Contudo, avisar que o convidado para palestrar era aquele senhor que estava sentado ao lado da minha amiga foi o suficiente para transformá-lo numa celebridade instantânea. Horas depois, nem os canapés e a champanhe falsificada me convenceram a ficar no evento após a palestra do novo ídolo. No dia seguinte, meus colegas universitários narraram como foi a conversa durante o coquetel. Todos contavam uma intimidade espantosa, cumplicidade até, durante o bate-papo com o astro intelectual. Naquela noite, José Miguel Wisnik não encontrou seus pares para discutir a sociedade pós-moderna, os rumos da Humanidade ou os pensamentos de algum filósofo, mas foi encurralado por uma gangue de primeiranis...

Jornalulista

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  Daniela Lima não está mais entre nós, saiu da Globonews. A “Luciana Gimenez” do jornalismo político não desfila mais o seu trabalho tóxico.  Tóxico, porque lançava mão de histrionismos para transmitir emoções como raiva ou desprezo.  Ignorando que o telespectador tem o discernimento para interpretar a notícia, usava marcações para dar uma ênfase bem tendenciosa. Às vezes, quase desenhava suas notícias de última hora (breaking news), com o claro objetivo de direcionar o entendimento, manipular a opinião pública e formar um falso consenso. A militância esquerdista era notória. As técnicas mais aceitáveis já foram aqui lembradas, mas já virou um clássico, bem como deixará saudade sua assessoria ao STF, quando sacava o celular e lia uma mensagem de algum ministro. Lida sem a devida checagem, ficava evidente que Daniela era uma porta-voz no corpo de uma jornalista. A nossa pequena militante de redação extrapolou a audiência politizada quando virou meme. Mesmo causando risos,...

🔵 Viagem de ônibus

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  Ônibus lotado em São Paulo é ruim, mas ninguém precisa esfregar isso na cara.  Um sujeito, com visual hippie, embarcou no veículo e começou a arranhar um violão. A trilha sonora merecia uma fogueira e um garrafão de cinco litros de vinho. O aspecto meio bicho-grilo, meio rastafari era evidente: cabelos “dreadlocks”, roupa indiana, violão surrado e um repertório um tanto quanto bucólico.   O cara teve a pachorra de postar-se apoiado na catraca do coletivo e entoar canções que remetiam a um ambiente idílico. A provocação aconteceu porque o sujeito interrompeu o terrível trajeto trabalho/casa (ou vice-versa) para exibir como é muito melhor seu estilo de vida: livre e saudável. A vida dos usuários do transporte público urbano é diferente: ficar o dia inteiro enfurnado numa tarefa análoga à escravidão voluntária e voltar para casa numa lata de sardinha entupido de monóxido de carbono. As inconvenientes musiquinhas do hippie fora de época falavam de casinhas nas montanhas, ca...

🔵 Guarabyra vai às compras

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  Fomos ao supermercado. Sim, enquanto as mulheres e as crianças estavam no Parque da Mônica, no Shopping Eldorado, fomos comprar algo no supermercado. Até aí, tudo bem normal. Normal, até passar, empurrando um carrinho, o Guarabyra. Calma! Antes que você pergunte o que é, onde vive e do que se alimenta um guarabyra, eu explico: é o cabeludo, com aspecto de índio americano, em constante estado meditativo, da dupla Sá & Guarabyra. Nada demais encontrar alguém famoso num shopping de São Paulo. O mistério era: o que o músico bicho-grilo fazia na “meca” do consumo porco, no templo do capitalismo selvagem? Logo Guarabyra, que entoava canções singelas como Cheiro Mineiro de Flor, Estrela Natureza, Trem de Pirapora, Atrás da Poeira, Outra Vez na Estrada, Coração de Maçã, Pássaro, Harmonia e Meu Lar é Onde Estão Meus Pés. O sujeito que eu imaginava encontrar num lugar bucólico, uma estrada poeirenta de São Tomé das Letras, em Visconde de Mauá ou em qualquer lugar mais de acordo com que...

🔵 Musiquinha triste

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  A canção mais triste que existe se chama “Tra lá lá lá oh”. O título é enganoso, porque sugere que vem algo alegre. Mas trata-se do acontecimento mais deprimente transformado em música. Eu já ouvi letras de abandono, de assassinatos, de todos os naipes de tragédias amorosas e familiares, mas isso foi um desastre ecológico - que faria Greta Thunberg e Leonardo DiCaprio chorarem no banheiro deitados em posição fetal. As crianças, inocentes, não só ouviam, como eram obrigadas a cantar a calamidade pública. Tudo isso em tenra idade, no pré-primário. A letra era isso: As flores já não crescem mais, Até o alecrim murchou, O sapo se mandou, O lambari morreu, Porque o ribeirão secou! Na época, o agronegócio era um sonho, e a transposição do Rio São Francisco, quase  impossível. Deu no que deu! Essa catástrofe da fauna e da flora consistiu em:  ▪️uma flor (que serve como tempero) que não vingou, por falta de água; ▪️o sapo, como um gato mal alimentado, pulou, literalmente, para ...

🔵 Canção cruel

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  Canção Cruel é o que aprendíamos a cantar na infância politicamente incorreta. A letra de “Atirei o Pau no Gato” é uma das coisas mais horríveis em termos de crueldade animal. Quem cantarolou isso teve muita sorte em não tonar-se um psicopata. Essa cançãozinha deve ter  embalado inofensivos sonos do Maníaco do Parque, comprovando que o “sleeping learning" (aprendendo dormindo) pode ser efetivo. Transmitir informações para uma pessoa adormecida também forma caráter. A letra é um “beabá” do crime. Original: Atirei o pau no gato Mas o gato não morreu Dona Chica admirou-se Do berro, do berro que o gato deu Miau! A suposta música infantil narra a frustração de uma criança (futuro psicopata) por não ter dado um fim no pobre animal. O felino ainda dá um desesperado grito, diante de uma pusilânime Dona Chica. Esse traço comportamental (maus-tratos animais) é um indício de psicopatia. Bem depois, foi lançada uma versão politicamente correta. Não sei se isso é apenas um sintoma da min...

Em algum lugar do passado

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 Tribo sempre foi coisa de jovezinzinho rebelde sem causa: metaleiros, punks, góticos etc.  Pois, brotaram uns tais de “Soberanistas”. O nome dá até arrepio e remete aos tempos do meu avô. Eu estou lembrando dos integralistas. O Integralismo também era de um nacionalismo bobo e mofado. E se era um movimento “quadrado” na década de 30, agora, tem cheiro de naftalina. Sendo coerente, isso é fascismo na veia. Os reacionários, finalmente, perderam a vergonha de dizer: “Brasil, ame-o ou deixe-o. Entretanto, me interessa saber mais sobre os soberanistas, esse fenômeno ressuscitado no século XXI. Talvez, o Globo Repórter informe: Onde vivem? Do que se alimentam? Como se reproduzem?  Sabe-se de onde estão insuflando os suscetíveis de sempre para apanhar uma arma enferrujada e lançar-se em uma guerra perdida. Enquanto isso, quem deveria se revelar o líder comporta-se como o baderneiro sindical de mais de 40 anos atrás ou um prefeito de “Cipó Seco do Norte”, que pode ser encontrado...

Telecoteco

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  Existe um consórcio composto por grande parte da imprensa. Em pé graças à injeção de dinheiro público, esse tipo de imprensa derrama um exército de jornalistas, analistas, comentaristas e especialistas que se comportam como torcida, bem como repetem mentiras até serem confundidas com verdades. Contribuindo com a distorção, pesquisas e enquetes tendenciosas. Tudo, logicamente, contando com a interpretação de quem se informa com o fragmento da manchete em vez de uma leitura mais profunda. Mas piorou, agora ensinam a “driblar” a lei.  A escolha semântica,  para a predileção não parecer mentira explícita, gera uma gagueira de fundo nervoso, própria da dissonância cognitiva, ou seja, quem diz algo sabendo que é uma mentira. Parece analfabetismo, mas tem método. Virou até piada, quando jornalistas nos brindavam com as seguintes manchetes: “Inflação está baixa, mas população sente o peso dos preços. Entenda a diferença entre números e preços.”;  “Lula acertou sobre o BNDE...

🔵 A mochila sagrada

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  Ela ficou responsável pelo passeio de domingo e resolveu me levar a um lugar disruptivo. Não sei por quê, para tentar transformar minha alma: um templo budista em Cotia/SP. Um programa diferente, num domingo, seria interessante para um sujeito tão urbano. No caso, eu. Isso não poderia conturbar mais meu já caótico sincretismo religioso.  Afinal, para quem, na hora do desespero, apelava até para Tupã, deuses pagãos, ídolos de pedra, fenômenos naturais, Mitologias (Nórdica, Romana e Grega) e venerava um bezerro de ouro, não seria uma heresia nem caso de excomunhão, adorar, por um dia, um gordinho risonho com poderes sobrenaturais. Por que não? Fomos ao templo. O ônibus partiria do bairro da Liberdade, bem cedo. Do público que participaria dessa excursão, fora uns “hipsters" que frequentam qualquer religião oriental “modinha”, os mais novos deviam ter uns 60 anos. O Templo de Cotia é ideal para meditar, encontrar a paz interior e alcançar a luz. Certo? Errado, pelo menos para m...