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Mostrando postagens de outubro, 2025

A estética do choro

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  A iconografia de alguém que expõe seu momento de fraqueza por não ter mais o que fazer, ao invés de revelar fraqueza, demonstra uma incrível força. Pelo menos, nos dias atuais. Não precisa agir, é só derramar algumas lágrimas, assim, demonstra-se empatia. Fazer algo concreto é para fracassados, rende muito mais dividendos exibir-se sensível. Se as lágrimas não vierem, embargue a pronúncia, pisque grosso e enxugue uma lágrima inexistente. Esta receita tem o poder de emocionar até o Chico Picadinho. Se for na TV, uma trilha sonora triste torna a farsa imbatível! A mesma estratégia anterior, mas sem o auxílio luxuoso do fundo musical, é parar dramaticamente e beber um gole d’água. Este subterfúgio substitui todo o “misancene” necessário para simular um pranto. Entretanto, é bom que se diga, é recomendado um alto teor de mau-caratismo para que se obtenha os resultados esperados. Nos esportes, sobretudo no futebol, o choro sinaliza um comprometimento com o time, o amor ao clube, que q...

🔵 Guerra santa

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  Podia parecer uma ameaça, mas a verdade é que realmente queríamos ser recebidos a bala. Nossa única exigência era que fôssemos bem atendidos. Qualquer gesto em falso nos obrigaria a reclamar com a dona da festinha. A duplinha de santos já havia feito o único milagre que interessava: a multiplicação de doces. O paladar infantil pôde ser satisfeito graças a uma intervenção que só poderia ser divina: a generosa oferta de gostosuras grátis. Tudo era um oferecimento aos tais Cosme e Damião, mas nós entramos na fila antes dos gêmeos. No entanto, é necessária muita desconfiança quando adultos promovem a distribuição de gulodices.  A inocência nos mantinha alheios a quaisquer discussões religiosas. O sincretismo estava garantido, desde que fôssemos os beneficiários daquela farta distribuição de doces de graça. Nós que deveríamos ser a razão daquela festa, portanto, os adultos tinham a obrigação de nos servir. Então, aguardávamos o recebimento da nossa oferta.  Não importava o m...

A fotografia da situação

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  A nossa imprensa insiste na narrativa do Lula negociador que obteve ganhos no encontro com Donald Trump. Isso é deliberado e o “Happy birthday” a Lula, cantado pela imprensa, explica a estatização da notícia. Mesmo merecendo as congratulações somente pelo aniversário, o coralzinho composto pela “imprensa a favor” mostrou mais de si mesmo. Realmente, não podemos esperar grandes contestações de quem canta um “parabéns” bajulador.  O eterno petista foi negociar o tarifaço e as sanções. Achou que tudo era tão fácil, como quando era um líder sindical fazendo o “leva e traz” entre patrão e empregado; não resolveu nada, mas ganhou um retrato cumprimentando o “laranjão".  Lula não conseguiu empatar um jogo que está 2 a 0! E a imprensa comemora a fotografia…  Essa negociação já chegou ao nível do “bullying”: Trump, como quem não quer nada, colocou uma “kriptonita” (Bolsonaro) na sala, trouxe repórteres hostis e sua tropa de choque. Lula, esperto que é, percebeu que o territ...

🔵 Máfia Ceciliana

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  Máfia Ceciliana, aquele letreiro roubava a atenção de quem passava ali, portanto, comigo e ela não foi diferente. Gostando muito do assunto, não perderia a oportunidade de desobedecer a “Lei Seca” numa casa que fazia alusão ao crime organizado do longínquo início do século XX, mesmo que quase 80 anos depois. Entramos no recinto como se estivéssemos invadindo um território secreto ou proibido. Melhor dizendo, como se ali fosse uma “speakeasy” (bar disfarçado para enganar a Lei Seca), e estivessem presentes alguns dos “capos” das famílias mafiosas de Nova York. Mesmo sem a indicação de alguém, puxamos as cadeiras e começamos a examinar o local. A “omertà” (código de silêncio) apenas permite contar uma pequena parte do que vimos. Pois  bem, a primeira impressão, desagradável, foi de que entrávamos de penetras no final de uma festa.  Enquanto éramos observados, reparávamos na decoração do bar temático; o que mais chamou nossa atenção era uma, digamos, instalação artística —...

Guerra perdida

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  O sedizente presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, quase chorou quando suplicou, num inglês sofrível, pedindo “paz”. A forma do pedido evidenciou um indisfarçável desespero.  O discurso de Maduro deve render resultados como as falas das misses buscando “a paz mundial” e a facilidade com que Lula resolve guerras na mesa de um bar. O ditador venezuelano só não queria paz quando ordenou que blindados e milícias fossem para cima do povo.  Com a movimentação do porta-aviiões Gerald Ford pelos Estados Unidos, já era esperado um Nicolás Maduro pacifista, não me surpreenderia se ele aparecesse fantasiado de Dalai Lama ou Mahatma Gandhi. E quem não se lembra da “dancinha do Maduro”? Um grupo de supostos estudantes demonstrava apoio ao ditador caricato sul-americano numa expressão corporal absolutamente constrangedora. E fica subentendido que alguns personagens, que se contorciam por Maduro, eram praticamente “obrigados”, bem como estavam envergonhados. O vídeo é um clássico!...

Janjismo

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  Ah… a Janja merece ser estudada pela Ciência. No mínimo, seu encéfalo deveria ser doado para alguma universidade. A, por assim dizer, primeira-dama age instintivamente; falta-lhe o freio moral que filtra suas atitudes, ou seja, para a moça, tanto faz estar numa cerimônia de Estado em salão nobre ou num churrasquinho com pagode de fundo de quintal. Graças a suas atitudes tresloucadas, o mundo sabe como anda o acordo com Lula. Cara amarrada, negar-se a dar a mão e outros sinais públicos de que coisas de cama, mesa e banho não andam bem extrapolam a vida privada, bem como o protocolo intrínseco à atuação de 10 entre 10 esposas de primeiros-ministros, reis e presidentes.  Entretanto, Janja mostrou ao mundo como se alça voo próprio: em demonstração de empoderamento puro, na Indonésia,  caminhou em disparada muito na frente de seu marido. Com essa atuação, ela mostrou à Brigitte que o tapa no presidente da França não foi demonstração de força feminina, porque, logo em seguida...

🔵 Morrison Rock Bar

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O “grande astro” da noite subiu ao palquinho do ‘Morrison Rock Bar’. O barzinho era bem acanhado, escondido na parte baixa da Vila Madalena; na verdade, Pinheiros. O local não lembrava nem de longe as grandes casas de espetáculos, muito menos os estádios. Seu trunfo, a carta na manga seria executar a música mais tocada nas rádios e na MTV em 97. Quem sabe, depois disso, os mais distraídos se lembrariam de quem se tratava: o carinha dos programas do Gugu e Faustão! Embora digno, Henrique Lima não planejava isso para sua carreira: cantar e tocar para um punhado de bêbados num boteco de São Paulo. Pior que isso: alguém, embriagado e saudoso, berrando ininterruptamente para tocar “Bagulho no Bumba”, seu solitário sucesso. Você que, sem ligar o nome à pessoa, pergunta: quem diabos é Henrique Lima? Eu respondo: o vocalista da banda “Os Virgulóides”. A banda, “descontraída”, surgiu no vácuo deixado com o desaparecimento dos “Mamonas Assassinas”. O, então, despercebido músico paulistano sabia ...

🔵 Restaurante impagável

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  Chega de peixe! Cansados de frutos do mar e seu respectivo cheiro, bem como o sabor da água do mar, fomos a uma pizzaria do litoral paulista. O que era para ser um tranquilo momento para matar a fome, se transformou num episódio inesquecível de suspense, paranoia e, às vezes, terror. Um garoto até esquece da vida quando saboreia uma pizza sem se preocupar com a conta. Mas quando decidem sair sem pagar e correndo... O que seria uma noite no calçadão da praia, ganhou um enredo de filme policial dos anos 70.  Meu cunhado e minha irmã começaram a planejar a fuga. Mesmo assustado com a situação e mastigando os últimos pedaços da borda com “catupiri”, eu calculei qual seria o meu papel no pinote caloteiro. Enquanto o plano era urdido, eu, olhando para a cara deles, sem querer acreditar muito naquilo, pensava, balançando a cabeça em desaprovação: sempre desconfiei desse cara, mas minha irmã... Eu não posso me envolver nessa sujeira e tenho que tirar a minha irmã do mundo do crime. ...

⚫ Eu conheço cada palmo desse chão

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  Esse cara faz jus ao nome: seu aspecto agressivo parece ter apelidado o veículo pesado para transporte de cargas. A sigla FNM (Fábrica Nacional de Motores), que deu fama ao bicho, batizou o possante com um nome tão pesado e jurássico quanto a burocracia estatal. Tinha um “jeitão” de que decidia movimentar-se mediante a papeladas, carimbos e autorizações. Não era, mas tinha uma robustez soviética. Todo errado, possuía a maçaneta, bem como a abertura da porta, invertida. Sua aproximação causava medo, pois sua “cara” de assassino e o barulho  do motor turbinado pareciam perseguir alvos humanos em vez de ser conduzido por um caminhoneiro vencendo estradas. Cada detalhe parece que foi pensado para causar horror. Essas particularidades amedrontadoras só eram aplacadas quando desembarcava um motorista com características humanas. Mesmo assim, estacionado, com o motor ligado e a “cara” feia, a máquina continuava repelindo qualquer aproximação. O intimidador possante parecia ter vida...

🔵 Um político à moda antiga

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  No sul de Minas, eu seria mais convincente, levado a sério, se dissesse ter avistado um OVNI lotado de extraterrestres ou o Saci-Pererê. Mas o ex-presidente resolveu conquistar mais alguns votos num domingo em frente ao bar Carretão. A bordo de um jipe e alguns puxa-sacos, dobrando a esquina e saudando a meia dúzia de bêbados do bar, vinha a simpática figura, dona de um topete inconfundível, que comandou a Nação. Fizemos o mesmo, saudando o, então, candidato ao Governo de Minas Gerais. Tenho certeza que se ele fosse matreiro, como nos tempos do Palácio do Planalto, não perderia tempo cumprimentando alguns bandeirantes que não renderiam um voto sequer. Vendo e participando daquele episódio inacreditável, não tive como não me sentir nos anos 50 ou num livro de História. Francamente, a cena era tão anacrônica que o nosso comportamento era de eleitores saudando um redivivo Getúlio Vargas, talvez o Jânio Quadros. Só faltou uma bandinha de inauguração de loja. Tudo era arcaico como o “...

🔵 Uma infância destruída

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  Uma história de tristeza e lágrimas, um desenho desanimado: Essa pequena obra traumatizou toda uma geração. Era muito provável que crianças perderam o sono ao ver o infeliz Pinóquio ser impiedosamente barbarizado, torturado e espancado. Com o pior bordão de todos os tempos, nosso herói, chorando e lamentando tanto sofrimento, mas lutando pela sua vida, chamava: “vovozinhoooo”. A súplica chegava carregada de lamentável drama, o que aumentava a carga emocional de cada episódio. Talvez por obra da globalização — ou, sendo um teórico da conspiração, do globalismo? — a estórinha foi criada na Itália; depois de rodar o mundo, foi recriada no Japão e veio ser exibida aqui no Brasil. Algum japonês, de mal com a vida, abusando da liberdade criativa e licença poética, maltratou a criação italiana: meteu uma cabeleireira azul e um gorrinho ridículo. Não bastasse isso, em todos os episódios o boneco, insistindo em se comportar como gente, sofria um “bullying” insuportável e terminava tomando...

Breaking bad

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 Os Estados Unidos supertarifaram as exportações do Brasil, o que ficou conhecido como “tarifaço”. Lula, com provocações, bravatas e ofensas a Donald Trump, faz esforço para que não haja solução, apesar de fingir o contrário. Igualmente ao presidente, no oposto do que diz  a animação do jornalismo “estatizado”, está óbvio que as negociações para diminuir a alíquota estão emperradas.  O encontro de Lula e Trump, na ONU, durou 29 segundos, mas dizem que rolou uma “química”, porque a tão esperada reunião foi apalavrada; após o encontrão da ONU, Trump e Lula marcaram, por telefone, a tal reunião; dias depois, o ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, foi aos Estados Unidos reunir-se, não  com alguém responsável pelas finanças ou comércio, mas com o anti-lulista Marco Rubio, secretário de Estado dos Estados Unidos. Não é “fake news”, mas ambos marcaram uma outra reunião. É o “passa amanhã” diplomático. Sim, Trump está dando uma canseira no Brasil, como quem dá um ...

🔵 Cão

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 Aquele cãozinho tomou conta do portão, como se exigisse que fosse recolhido para onde teria água fresca e refeição na temperatura correta, inclusive, banhos e vacinas. Ele simplesmente exigiu o que julgou ter o direito, ou seja, fazer parte da família. Portanto, faria de tudo para ter seus caprichos atendidos.  O que salvou aquele exemplar foi a aparência que, vencendo as competições do “Kennel club”, poderia render um bom dinheiro. De pelagem lustrosa, ossatura firme, peito proeminente, crânio protuberante, postura empertigada, pimpão, saltitante, pirilampo e serelepe, o aprumado animal ganhou um lar por onde reinaria eternamente e manteria uma família inteira sob escravidão. Aquele ‘fox paulistinha’ pretinho era um fracasso: não executava truques, nem mesmo oferecia a pata. Mas aqueles olhos esbugalhados cortavam o coração só de imaginá-lo terminando seus dias magro e levando chutes, na porta de um açougue, implorando por bifes ou ingerindo proteína contaminada. Isso não er...

🔵 Ônibus elétrico é coisa do passado

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  Apesar de “veículo elétrico” aludir a algo futurista, tratando-se de ônibus, resgato a memória afetiva, quando estes coletivos já eram arcaicos. Os ônibus de 1949 pareciam ter como destino algum país da Cortina de Ferro. Sempre que embarquei nesse trólebus, tive a impressão de ir, voluntariamente, a um Gulag (campo de concentração soviético). Só caía na real ao ver trabalhadores ou baladeiros. Enquanto o ônibus elétrico esteve em circulação, tive um impasse “esquizofrênico”: o carro era exótico, feio, muito feio, ridículo ou mal executado? Depois da sua retirada de circulação, exibido como peça de museu, cheguei à conclusão de que o veículo é lindo! Tá bem, exótico. Digo isso, com certa licença poética; se dissesse isto na época, eu seria excêntrico. O transporte coletivo parecia pouco convidativo por fora, mas muito acolhedor, confortável e sonífero nos  bancos de couro. Outra característica que decretava o sono era o ranger das peças internas presas por parafusos gastos. T...

🔵 O papagaio

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  No fundo do quintal, aqueles resmungos eram engraçados e estranhos. O papagaio era divertido, mas carregava uma melancolia que dizia que atrás daquela gaiola não era seu lugar. Seus grunhidos eram murmúrios. Mesmo que eternamente de verde e amarelo, ele se negava a cantar o Hino Nacional Brasileiro. O fabuloso ovíparo surgiu e ficou “decorando” o quintal, inanimado como as bugigangas. Na verdade, o que mostrava que ali havia algo vivo era o ruído produzido pela ave, bem como suas evoluções no poleiro. Aquele bicho da fauna brasileira possuía um bico que era usado como um alicate, de modo que era mais aconselhável mergulhar a mão num pote com ácido sulfúrico do que colocar um dedo na gaiola. Pelo que sempre vi, eu esperava que o pássaro ao menos cantasse o Hino do Corinthians e o refrão de Ilariê, em agradecimento a uma tigela com água e sementes de girassol, mas nem isso. Toda aquela ingratidão deveria ter uma explicação, irracional, mas instintiva. As evoluções, a péssima dicção...

🔵 "Fogos e artifícios"

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 A musiquinha antiga, o reflexo e os estalos da fogueira no fundo do quintal indicavam: a festinha junina havia começado.  Nós também fingiríamos que celebraríamos a boa colheita do milho ou o solstício de inverno; entretanto, aquilo tudo era uma farsa, aquela reprodução de roça se passava em Guarulhos, e não era a natureza que provinha nossos víveres, mas sim o supermercado. Então, o argumento que daria razão para nossa família frequentar aquela celebração aparentemente pagã era manter a tradição e cultuar um santo católico. Pronto. Depois do portão, seria permitido dar vazão à minha sanha incendiária, manipular o fogo e alimentar a fogueira com objetos inflamáveis. Ali, o impulso piromaníaco infantil era tolerado. Antes de ser crime ambiental, a soltura do balão era a vedete da festinha. Mesmo que acionasse a Guarda Florestal ou uma viatura do Corpo de Bombeiros, alguns hectares de  devastação da Serra da Cantareira garantiam que festejássemos impunemente nosso convesco...

A maldição da jornalista

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  Donald Trump é o novo xerife do mundo. Contrariando a estética do partido democrata e seus políticos sorridentes, Trump é carrancudo, mas meteu o pé na porta e acabou com essa palhaçada de guerra. Durante os agradecimentos a Trump por ter negociado o acordo de paz, a jornalista da GloboNews, Mônica Waldvogel, foi traída pelo microfone que vazou um desejo que saiu da sua boca e da sua alma: “Eu espero que o diabo…” Sinceramente, minha decepção é ouvir isso sendo expelido por uma jornalista, não pelo Ozzy Osbourne, Gene Simmons ou Raul Seixas. A comentarista geriátrica das trevas, Mônica “Vai de Retro”, com sua invocação do mal, apenas externou o que estava entalado na garganta de milhões de esquerdistas, afinal, Donald Trump acabou com a narrativa que mantinha pessoas como Lula bravateando no debate internacional.  Apesar de tão… tão… tão… alaranjado, o presidente norte-americano destruiu aquela fala de que seria fácil acabar com uma guerra, inclusive, na mesa de um bar. E co...

🔵 Um passado nebuloso

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  Fim do Regime Militar, início do governo, dito, democrático. Com o Plano Cruzado, o governo tentava mais uma vez derrotar a inflação. Com apenas 11 anos, apesar de isso não ser assunto de criança, eu estava no meio desse fogo cruzado. Em termos laborais, acho que estava fadado a flertar com a ilegalidade. Nos anos 80, com o povo topando bancar um “dedo-duro” oficial ou um perseguidor oficial de remarcadores de mercadorias, ser flagrado segurando uma maquininha de remarcação de preços era se tornar um alvo vivo.  Pensei que trabalhando no ‘Supermercado Minicusto’, um mercadinho de bairro, estivesse salvo de acabar em algo tão temerário como ferver numa carvoaria ou me mutilar cortando cana. De repente, até então, inofensivos aposentados e donas de casa, em vez de tricotar casaquinhos de lã, nos perseguiam como párias. Etiquetar uma mercadoria se transformou em algo pior do que roubar. E a pistola etiquetadora adquirira um significado visual tão ameaçador quanto o nome. Vivend...

🔵 Eu não estou suportando mais

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  Sei que dizer que assistiu ao filme ‘Titanic’ no cinema soa igual a assumir que assistiu ‘E o vento levou...’ Ela queria muito conferir a história da moça rica que se apaixona por um pobretão. Talvez essa seja a maior indireta da história, mas eu sempre convivi bem com isso. Porém, os ingressos e as filas quilométricas transformaram uma simples ida ao cinema numa caçada pré-histórica. O ano era 1997, século XX, milênio passado — essa nomenclatura dá mais antiguidade ao passeio. Ela queria muito assistir ao filme do qual todos estavam comentando. Confesso que eu também  queria ver na telona o naufrágio mais famoso do mundo.   Passavam os dias, e as sessões estavam todas esgotadas. A frustração crescia à medida que encontrávamos as bilheterias com ingressos esgotados. Conclusão: como já era questão de honra encontrar assentos na sala escura para ver à fita que estava na boca do povo e testemunhar a história de um barco que todos sabem que afundou. Era urgente levá-la nem ...

🔵 Dança da vassoura

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  Algumas lâmpadas coloridas  equipadas com pastilhas para o pisca-pisca. Isso era nossa grande tecnologia nos anos 80. Não podíamos esperar muito de um país que vivia os estertores do Regime Militar — quando a censura riscava faixas de discos, proibia palavrões e estabelecia as programações adequadas à nossa idade. Estávamos acostumados com a reserva de mercado, quando um LP lançado há alguns anos era novidade,  as músicas eram gravadas em fitas cassete e artigos “importados do Paraguai” eram trazidos em esquema de guerra. Depois de um dia inteiro brincando, noite de bailinho: as criaturas chegavam com estranhas roupas fortemente coloridas, ridículas ombreiras, gel e brilhantina no cabelo, calça da OP e tênis xadrezes. O que parecia uma afronta ao Regime Militar, por tabela aos pais e a tudo o que fosse antigo, o que vestíamos era apenas a mais recente moda. Esquisito, meio ridículo, mas era a moda. Sem saber, “contrabandeávamos” o “breakdance” do Bronx (Nova York), que ...

🔵 EU JÁ COMPREI PÃO!

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  Em cidades interioranas tudo é mais comum, mais tranquilo, menos… espalhafatoso Pelo menos era essa imagem que eu tinha. Talvez essa fosse uma visão arquetípica, idealizada, confrontando o dia a dia impessoal do corre-corre da metrópole. Acredito que até tenha sido assim há muito tempo, antes da globalização cultural. Mas com essa ideia — inocência minha — agi da maneira que minhas elucubrações fabricaram. Sim, um preconceito romântico, mas honesto. Andando pelas ruas estreitas de uma cidadezinha, vendo minha irmã no outro carro a caminho do que poderia ser a padaria, temi que ela pudesse comprar o café da tarde em duplicidade. Acredite, essa era uma das mais preocupantes ocorrências que poderia alterar ou interromper o sossego da cidade. O fato: dirigindo, nada discreto, coloquei meio corpo para fora do carro e gritei: “EU JÁ COMPREI PÃO”. Creio que o recado foi recebido — como uma bomba atômica ou a explosão de uma usina nuclear — por quem se encontrava num raio de uns 300 metr...

🔵 Classe social

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  Colegas orelhudos, narigudos, “zóiudos”, baixinhos, magrelos, gordos e branquelos. Sobrenomes árabes, judeus e de várias outras origens. Tudo isso, em vez de gritar a diversidade étnica e cultural da sala de aula, era motivo para “zoação” ou “bullying”, como dizem há alguns anos. Mas eram todos brasileiros, alguns mais estranhos. Nos anos 80, a “década perdida”, a hiperinflação descarregava um monte de “filhinhos de papai” oriundos de colégios particulares. Quando esse fenômeno financeiro acontecia, a classe média alta cortava o inglês, o balé, as aulas de música e, no desespero, as “escolas de ricos”. Era aí que tínhamos contato com produtos importados, do Paraguai ou da Galeria Pagé — tempos de “reserva de mercado”.  Como índios, éramos apresentados a relógios G-shock, réguas com calculadora, caneta de 20 cores, tênis Forward (“Faroait”), calça da OP, minigame e outras bugigangas. A turminha nascida em berço de ouro, por outro lado, tinha a oportunidade de conhecer a meren...

A hora do pesadelo

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  Enfim, Lula encontrou Trump. Não. Sim. Sim e não. Mais ou menos. Sinceramente, se esbarraram na reunião da ONU,  depois trocaram um telefonema. Tanto o encontro, quanto o telefonema, a GloboNews noticiou com um otimismo tão estranho, que pareceu moeda de troca para interesses satisfeitos. Traduzindo os contatos com honestidade intelectual, desinteresse financeiro, livres de paixões ideológicas e sem torcida organizada, foram desastrosos. Em ambos encontros, foi comemorado o jeito amigável do presidente americano com o brasileiro. Porém, não era esperado outro comportamento, como as patadas cordiais dos políticos brasileiros, exemplo: Vossa excelência é um #@$&£¢€¥π§. Contudo, o “orange man” atuou com uma “lucianohuckcidade” impecável; ou seja, tratou muito bem quem ele odeia.  O sindicalista percebeu ou avisaram-no da armadilha que foi preparada: como um chefe da máfia, que antes de assassinato com um taco de beisebol, chama a vítima de filho, dá um abraço e um entu...

🔵 A fuga

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  Liguei o carro e saí cantando os pneus. Nunca me esquecerei daquele 7 de julho de 1998. Sem sequer olhar para os lados, às vezes, conferindo o retrovisor, confirmei que as ruas estavam vazias, bem como as lojas, fechadas. Acelerava fundo, exigindo mais do que aquele “golzinho quadrado” podia oferecer. Nesse ritmo, entrava em pequenas ruas, grandes avenidas, rotatórias, lombadas e intermináveis faróis. Eu até arrisquei, às vezes, a perigosíssima “roleta paulista” porque a cidade estava deserta, apesar de ser terça-feira. De vez em quando, alguns estrondos, ora próximo, ora longe, aumentavam minha ansiedade. Enfim, cheguei a tempo de assistir à semifinal da Copa do Mundo. Aquele Brasil e Holanda era o pano de fundo perfeito para fazer um pacote de tolices: sair do trabalho mais cedo, gritar palavrões,  beber e, em caso de vitória, dirigir bêbado. Nesses dias, fingimos que o Brasil ainda é o “País do Futebol” e que o próximo jogo é a coisa mais importante do mundo. A vida dos i...

Quem lacra não lucra

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  Quando criança, aprendi uma lição: somente no chão do meu quintal, descobri que a nave espacial do Playmobil não voava como na televisão. Sem computação gráfica, jogo de câmeras ou truque de espelhos, aquele brinquedo perdeu toda a magia, mas eu compensei a falta de recursos técnicos com alguma imaginação. Apesar da supervisão de um adulto, fui iludido e chorei, mas foi só nesse episódio. Nos últimos anos, ignoraram que é aprendendo cedo e de maneira lúdica que se sabe que o mundo não é fantasioso como nas propagandas de TV. As agências de marketing e propaganda quiseram ajustar os comerciais, ou seja, com a intenção de mostrar a realidade, limitaram a própria criatividade e a imaginação do consumidor. E assim foi, em comerciais, filmes, desenhos, tudo. Mesmo fora de contexto, nos filmes sempre aparecia uma mensagem para ser um “ser humano melhor”; nas propagandas também: mesmo que prejudicando os negócios, eram eliminados estereótipos de beleza quase inalcançáveis e infiltradas ...

Garota dourada

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  Greta Thunberg foi mais significativa que uma bandeira pirata. Sua flotilha navegou para furar a zona de exclusão criada por Israel, esperando a previsível reação israelense, criando uma narrativa pró-Palestina. Como previsto, Israel interrompeu o sonho do ”cruzeiro marítimo” contestador.   A notícia deveria ser grave: junto a Greta, brasileiros sequestrados! Mas o contexto da coisa reúne elementos que insistem em mostrar que tudo não passou de armação. A notícia era terrível, sobretudo nos noticiários com viés claramente “progressista”. A tentativa de cavar um pênalti geopolítico não resistiu às primeiras imagens do suposto sequestro.  Tudo já parecia bem estranho quando foi descoberta a ajuda humanitária sem mantimentos; mas os palestinos talvez necessitassem mais de apoio moral do que de alimento, remédio etc. Conclusão, a ajuda humanitária não levava sequer um “bandeide” ou barrinha de cereal, portanto, era “fake”. Luizianne Lins, uma deputada brasileira surpreendeu...

🔵 Tudo resolvido na bala

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  Não havia outra opção, as diferenças seriam resolvidas num duelo justo. Essa maneira de acertar uma desavença já estava fora de época. Contudo, a influência dos filmes de “faroeste”, mais precisamente do ‘Bang Bang à Italiana’ (Western Spaghetti), tornou praticamente inevitável a inspiração e o triste desfecho. Não tínhamos alternativa, as coisas teriam que ser desse jeito horrível. Depois de contados os passos, eu e meu irmão viramos, revólver fazendo mira... PÁ PÁ. Os  estampidos das espoletas, o cheiro de pólvora e o ritual mimetizado dos filmes, emprestaram dramaticidade à nova brincadeira. Porém, a encenação acabou por aí. Nenhum dos pirralhos admitia tombar. Mesmo depois dos tiros, não houve baixa. Ser derrubado no duelo, ainda que simulado, era humilhante demais. Os novos revólveres de espoleta estavam unanimemente aprovados, aposentando definitivamente a pistolinha d’água. Não bastasse o objeto politicamente incorreto, eu ainda iria ter um Forte Apache para brincar d...

🔵 Era uma vez no Sul de Minas

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  Apesar de parecer, não era época nem hora de Folia de Reis. Portanto, aquela algazarra só poderia ser folia de paulista. Aqueles bandeirantes do século XX venciam a rodovia Fernão Dias e ocupavam as subidas estreitas das ruas e vielas da  cidadezinha de Minas Gerais. O falatório feria o silêncio, mas era mais um fim de semana prolongado, e os turistas de São Paulo invadiram o povoado de Machado. Com a madrugada avisando que iria amanhecer logo, alguém desviou o comboio para a rodoviária. Naquele horário noturno, era o único local aberto em Machado, talvez em todo o Sul de Minas. Aquela argamassa recheada e a água gaseificada formavam uma dupla imbatível e campeã das madrugadas: cigarrete e sodinha. Só mesmo o instinto de sobrevivência para encorajar a trupe a enfrentar o frio rumo à saída daquele ajuntamento de casinhas.  O contraste entre os que iam ao trabalho e os que transbordavam álcool e estórias era tão provocativo que quase virava confronto. Era quando o silênci...

🔵 Parças

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  A notícia correu alcançando ouvidos atentos. A novidade que um amigo agora era sócio de uma casa noturna no coração da Vila Olímpia (São Paulo) correu feito rastilho de pólvora. Nós, que não curtíamos música eletrônica, apenas iríamos prestigiar a balada, mas, rapidamente, surgiriam os “amigos” de ocasião. E a ocasião não frustrou a previsão. Como era esperado, o telefone não parou de tocar. Os “amigos” de ocasião, sempre atentos, nunca perderiam essa boquinha. Estes, embora com algum atraso, mas vigilantes e atentos, trataram de manter acesa a chama de uma grande amizade. Para atender a sanha por  pulseirinhas VIP, camarotes e talvez copos de whisky, meu ciclotímico amigo precisaria contratar um “call center”. Noites muito boas, reencontrando velhos amigos e encontrando, é claro, os “parças” no camarote, vestindo a pulseira VIP, exagerando no sotaque paulistano e grudados em copos de whisky com energético. Mesmo não curtindo músicas de “DJ”, ir a uma balada de “playboy” foi...