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Mostrando postagens de novembro, 2025

🔵 O juízo final

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Secretaria da faculdade de Direito, o atendimento estava tranquilo. Entrou na Secretaria o Sálvio Spínola Fagundes Filho. Sálvio era árbitro de futebol. O senhor que trabalhava comigo conhecia o juiz, o primeiro assunto foi o próximo jogo do time dele. É claro que ele aproveitou a oportunidade para pedir pra ele “roubar” para o seu time. Não deu tempo nem pra me aproximar da conversa e tentar “ajudar” o meu Corinthians, o árbitro se dirigiu para mim, sério, e solicitou um documento à Secretaria com uma urgência exclusiva. Burocraticamente e impessoalmente, eu passei o prazo comum a qualquer aluno. Sálvio Spínola não ficou satisfeito e quis falar com o diretor. Eu subi até a “Sala da Justiça” para falar com o diretor do curso de Direito. Ele desceu rapidamente e foi, solicito, atendê-lo. Com afã e rapidez, dispôs os melhores serviços da faculdade. Foi meio embaraçoso testemunhar aquele marmanjo muito prestativo, célere e estabanado, escorando e tropeçando nos móveis, expedito, prestimos...

🔵 Irmão de bailarina

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 Deveria existir uma categoria: o irmão de bailarina. É uma categoria quase trabalhista, portanto, eu deveria ser sindicalizado. Esse indivíduo ostenta um conhecimento musical que tem a amplitude do ACDC ao pianista Richard Claydermann e pronúncia palavras afetadas, que fazem parecer que foi alfabetizado em francês ou foi criado pela avó na Suíça. Sem ter uma irmã bailarina, meu universo cultural se restringiria a coisas como ‘A Praça é Nossa’, ‘Big Brother’ e ‘Casos de Família’; no entanto, entraram para o meu vocabulário: ‘Bolshoi’, Ana Botafogo e lantejoula! E quando alguém fala em quebra-nozes, o irmão de bailarina pensa no espetáculo, não no objeto. O paradoxo que significa estudar em uma escola pública da periferia de Guarulhos e ter uma irmã estudando na Escola Municipal de Bailado é a zona cinzenta entre o barraco e os salões europeus. Você joga bola na rua e, de repente, entra na casa onde toca ‘Tchaikovsky’. Numa casa onde existe uma bailarina não pode haver antena de tel...

🔵 Como vinho

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  Como não vivi os loucos anos 60, não fazia muito sentido ir ao show da banda dos vídeos em preto e branco. Mas aquele ingresso parecia insistir para obtê-lo. O Pacaembu estava povoado por figuras no estilo “Hell’s Angels”, doidões confinados nos anos 60 e “tiozões” do tipo “os bons tempos voltaram”, então, logo vimos, estávamos num concerto de rock para uma plateia mais, digamos, madura. Entretanto, como nós, havia um público mais jovem, que parecia ter se perdido dos pais ou se enganado de show. Não teve como vivermos uma tarde sem a sensação de pertencer ao fã clube da Sandy & Junior.  O ambiente revivia os tempos quando grande parte daqueles coroas tinha uns vinte anos, mas a chuva incessante frustrou o “acendimento da locomotiva” — se é que você me entende. Entretanto, como o prato principal era a música do grupo inglês, nem sequer uma tromba d’água interromperia o sonho que não envelheceu. Contudo, depois do espetáculo, parou de chover, e a cidade ficou iluminada — ...

🔵 A gata de Brotas

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  Este é o típico texto que só existe porque o título não pode, nunca, em hipótese nenhuma, ser desperdiçado. Eu e ela fugimos do carnaval de rua de São Paulo e fomos acampar em Brotas. Vivíamos tempos da manifestação da alegria de plástico e da escatologia explícita a céu aberto, mas ainda não do bloco do roubo de celular. Além disso, como sou um brasileiro farsante, a fuga evitaria que descobrissem que sambo como um turista alemão ou japonês. Nossa participação no gênero musical se limitava a “dedinhos para o alto”. Com a total ausência do dom e habilidade na cultura popular, do samba no pé, do squindolelê, do telecoteco, do balacobaco, do ziriguidum, do borogodó, do bumbum praticundum prucurundum e do gueri-gueri fomos nos esconder de toda manifestação da felicidade de isopor, antes que confiscassem nosso crachá de brasileiro legítimo. Sem a malandragem malemolente, o orgulho do jeitinho brasileiro, a gambiarra moral ou o “tá tudo dominado”, restava o autoexílio, o degredo volun...

O conto do meio ambiente

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  Esses encontros climáticos servem para abrigar uma galera que vive de verbas. Como profetas da Praça da Sé, eles anunciam a proximidade do fim do Mundo e aterrorizam a Humanidade até você se sentir culpado por ferver um chá de hortelã ou alguém achar que está salvando o planeta ao reciclar uma lata de óleo. O desfile de celebridades ambientais impressiona tipinhos predispostos a enxergar alguma santidade na Marina Silva, espírito humanitário no primeiro-ministro da Índia ou preocupação ambiental no Macron. Políticos discursam como autoridades climáticas, como se tivessem legitimação divina para salvar o Planeta. E o público que vai a esses eventos tem a predisposição para acreditar nisso. É assim: os burocratas que vivem do alarmismo climático fingem que têm responsabilidade ambiental; o público, que também vive disso, finge que acredita; e todos recebem o “cala a boca” financeiro. Reuniões globais de compromissos ambientais só servem para discursar, tirar fotografias e assinar a...

🔵 Velocidade máxima

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 O ônibus estava lotado, com a porta aberta e gente pendurada do lado de fora. Vendo a cena, as pessoas do ponto desprezavam o veículo. Para mim, era o momento ideal para o embarque. Provavelmente, aquela viagem de ônibus significava a precariedade do transporte público, mas eu compraria um passaporte para ficar pendurado do lado de fora, vendo a roda girando no asfalto. Nem o risco de decapitação me impediria de “deitar o cabelo” e sentir o vento no rosto.  Para os demais passageiros, ir ao trabalho pendurado com a porta aberta, do lado de fora, era a forma mais humilhante para se deslocar; para mim, aquela sessão matinal de risco de vida urbano era algo ansiosamente esperado, a melhor parte do dia.   Um motorista irresponsável, a ausência de fiscais, mais a minha imaturidade, eram a combinação para o dia começar com um trágico acidente; no entanto, o meu ônibus velho proporcionava uma experiência muito melhor que ficar assistindo aos acontecimentos da rua ou acompa...

🔵 Campo minado

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  Da arquibancada do Pacaembu, eu via uma aglomeração de torcedores no morro. O acesso devia ser difícil, de modo que aquela cena desviava a minha atenção do jogo de futebol. Numa reflexão social, eu me perguntava: Que tipo de gente é capaz de assistir ao jogo dali? ***                   *** Havia vários níveis econômicos para assistir a um jogo do Corinthians no Pacaembu: eu optei pelo “Pacote Miserabilidade”. Aquele terreno era a última alternativa para ver um jogo de graça, mas reunia um tipo de torcedor que fica sem refeição, mas não deixa de acompanhar o “Curíntia”. Pois é, eu arrumei a minha vaga para ver um pedacinho do campo. Invadi o terreno e arrisquei a minha vida para ver um espacinho do gramado de graça. Aquela talvez tenha sido a pior modalidade de “alpinismo social” da história, porque quanto mais eu subia o morro, mais era evidente o sacrifício que eu era capaz de fazer para economizar o dinheiro do ingresso e susten...

Você sabe com quem está falando!?

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  Geralmente, uns brutamontes se matriculam em uma academia de artes marciais e, paradoxalmente, passam a evitar brigas, às vezes, até parecendo covardes. Com o deputado paranaense, Renato Freitas, é diferente: ele virou aluno e passou a apavorar quem cruza o seu caminho. Semana passada, ele estranhou um cidadão e achou que era a oportunidade de usá-lo como saco de pancadas. Parceiro, seu assessor ajudou na sessão de espancamento. No entanto, antes, o deputado estadual foi “prudente" e lançou a clássica questão: “Você sabe com quem está falando!?” Entretanto, como legítima defesa, o cidadão enfiou a mão na cara do funcionário público do Paraná. Mas uma filmagem registrou a extração forçada do sangue nasal do deputado estadual. Conclusão: o espectro político pode ser culpado pelo golpe: o soco foi de extrema direita. Quando outra imagem denunciou a covardia, Renato sacou o ‘Super Trunfo’ do racismo. “Game over”. Desse jeito, fica fácil sair por aí metendo a mão na cara das pessoas;...

🔵 Enquanto isso, na sala de justiça...

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‘Smells like teen spirit’ convidou-nos para celebrar, como diz o título da música do Nirvana, o espírito jovem. Mas os grupos estavam se estranhando, e a heteronormatividade da “dança” apenas serviria para disfarçar empurrões, tapas, socos e chutes. No entanto, os seguranças da ‘Broadway’ notaram que algo errado não estava muito certo naquela “coreografia” contundente e recolheram alguns “dançarinos”. Os caras da contenção da casa pareciam sedentos por manter a lei e a ordem do local, mas a falta de critério, a ansiedade e a pressão transformaram aquele recolhimento humano em algo parecido com uma pesca de arrasto que revolve o solo marinho e retira da água uma inútil fauna acompanhante.  De maneira açodada, os “pitbulls” levaram um lote de jovens para a “salinha da segurança”. Da pior maneira possível, os jovens foram “convidados” a conhecer as instalações da casa. Os tapas na cara revelaram os métodos de disciplina, bem como deram algum dó dos nossos antigos adversários. Nossos a...

De um lado esse carnaval, de outro a fome total

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   A COP 30 fracassou do começo ao fim. A festinha particular do casal Lula/Janja pretendia arrecadar recursos financeiros para preservar a Amazônia; porém, a incompetência foi tão patente que não foram capazes de preservar a própria COP. O paradoxo e a hipocrisia marcaram um evento anticapitalista que existe para captar recursos financeiros, que desmata a floresta prometendo preservá-la e que utiliza diesel visando à substituição de combustíveis fósseis. Além das mazelas sociais, o evento ambiental sofreu críticas e um grande incêndio. Logicamente, o fracasso dramático só não foi atribuído à oposição porque quem personifica o antagonismo político está preso. Antes da COP, num daqueles palanques formados por uma representatividade de “escola de samba” e uma plateia bovina, Lula, com uma voz das trevas, prometeu ficar num barco. Com uma inocência própria de eleitor do “Barba”, eu logo imaginei uma cena idílica dele pescando num barquinho com motor de popa. É claro que ele me en...

🔵 Should I stay or should I go

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 Tudo normal no bar de rock, considerando o estilo da casa. Até que uma turminha de, digamos, delinquentes juvenis adentrou o banheiro. Todos muito loucos, no estilo “nunca me diverti tanto”, ao som de “Should I Stay Or Should I Go” do “The Clash”. Os desajustados começaram a destruir o banheiro no ritmo da música.  Também com pouca idade, achei conveniente aquela manifestação e fui usar o mictório. Sem conseguir segurar o riso por causa da atividade inusitada, fiquei ouvindo a apocalíptica sinfonia da destruição, composta de vários barulhos, inclusive vidros quebrando. A pequena organização criminosa deve ter retornado ao reformatório, bem como o furacão acalmou. Terminado o serviço, os destroços acomodaram e um silêncio abrupto denunciava que coisa boa não viria. Na saída, notei que o cenário era pior do que eu previa: espelho, “dispensers” de sabonete líquido e papel toalha e demais objetos: todos fragmentados. O que sobrou foi: sujeira, destroços e estilhaços de vidro e......

🔵 Jornalismo verdade

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  Parecia que finalmente havia chegado a hora. A equipe de filmagem era obrigada a me focalizar, bem como a iluminação revelar a minha atuação, em rede nacional. Bastava eu ficar atento e, quando anunciasse a matéria, liberasse o “play/rec”. Só isso. Depois, com a gravação feita, coloquei a fita VHS no videocassete 4 cabeças. A cópia não estava muito boa, mas o registro histórico já valia a pena, ficaria para a posteridade.  O resultado não foi como esperei. Inicialmente, numa mistura de euforia e expectativa, quis exibir o material, achando que portava uma relíquia sagrada. Segundos depois, decepção, vergonha e constrangimento. Conformado com a ausência de registro, apontei o meu braço que surgiu num canto da tela da televisão. Gesticulando, avisei, chamando a atenção de todos: “Sou eu, sou eu”. Sim, apareci no extinto noticiário policial do SBT: ‘Aqui Agora’. Estilo “espreme que sai sangue”, o programa vespertino policialesco era muito pior que Brasil Urgente e Cidade Alerta...

🔵 Tyson free

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  Barzinho com uma banda ao vivo, o “Overdrive" era um reduto “punk”. Passado o impacto inicial dessa informação, todos conseguiram disfarçar o medo, prevalecendo a postura de quem não temia tribo urbana alguma que já manchou de sangue as ruas de São Paulo. Podia não significar uma grande vantagem territorial, mas o bairro de Santana era perto, e a Zona Norte, um território sambista. A bordo de um ônibus velho rumo a Santana, não havia motivo nem alguém admitiria a desistência. Chegando lá, pegamos algumas cervejas e fomos ao fundo do bar, onde uma banda destruía os tímpanos que insistiam em permanecer intactos. Mas éramos jovens e roqueiros, portanto ninguém quis demonstrar fraqueza  reconhecendo que aquele barulho era horrível.  Então seguimos dentro da, digamos, casa. Através do corredor, examinando todo o trajeto, apenas piorou minha impressão. Espelunca foi a palavra perfeita que encontrei para descrever o local. A descrição inicial seria suficiente para me manter lo...

Imagine!

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  Nicolás Maduro era feliz e não sabia. Nos tempos em que Joe Biden brincava de ser presidente dos Estados Unidos, Maduro pôde exercer sua ditadura sem ser incomodado. Dias felizes, para ele, quando mandava veículos avançarem sobre manifestantes e quando se sentia blindado por milícias bolivarianas… Porém, a fraqueza de Biden foi rechaçada, e Donald Trump acabou com o parquinho particular do tiranete sul-americano. Dias estranhos para a turminha do Foro de São Paulo, que achava que a resistência à queda do Muro de Berlin era na América do Sul. Trump ameaçou. Em bom espanhol, foi chamado de covarde. Até aí, Maduro parecia com coragem proporcional ao seu péssimo caráter. Mas percebeu que suas bravatas assustavam como um “rato que ruge” e viu o avanço do “Big Stick” americano. A partir daí, como um monge budista, começou a falar em paz. Entretanto, o eterno presidente venezuelano não conseguiu comover, nem amolecer o coração de granito do Trump, que movimentou seu magnífico porta-aviõ...

🔵 We all live in a yellow submarine

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  Todos faziam questão de estampar uma cara de quem estava num bar de rock. Eu estava num território manjado, onde quase todos se esforçavam para parecer alguém mais interessante do que realmente eram.  A parada repentina naquele barzinho me fazia, sem esforço, parecer alguém pior do que realmente eu era. Isso às vezes funcionava, porque o campo para surpreender é enorme. Entretanto, algo poderia me introduzir num “lugar-comum”: o gosto por clichês. O ambiente de festa no porão do navio estava no limite entre a confraternização e um barril de pólvora prestes a explodir. Às vezes,  dava a impressão de estarmos numa festa americana, na qual todos sabem os papéis que tinham a obrigação de representar. Cada grupinho refratário a interferências ou alguma mistura comprometedora: populares, atletas, nerds, esquisitos e os sem-grupo. Essa configuração é muito ‘Sessão da Tarde’, muito clichê. Esse desenho já seria o bastante para eu observar a ridícula movimentação, a diferença é ...

🔵 O cantor bêbado

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  O Antônio Marcos estava bebendo na padaria! Com essa efusiva exclamação, algo prometia interromper a rotina daquela casa. Mas quem foi o Antônio Marcos? O cantor e compositor fez muito sucesso como cantor romântico, também na Jovem Guarda. Agora estava ali, numa padaria perdida num bairro de Guarulhos, equilibrando um copo com álcool, contando as histórias do mundo artístico e algumas piadas de salão. Em casa, logo a notícia se espalhou. A partir desse momento, a curiosidade revezou a frequência àquela padaria. No começo dos anos 80, apesar de crianças, éramos suficientemente observadores para relatar o que estava acontecendo: a pessoa que cada um encontrou não era a mesma. Os efeitos do álcool fizeram que os que chegassem depois  encontrassem um cantor mais, eufemisticamente,  extrovertido. O processo de transformação tornava difícil o reconhecimento da figura cambaleante e histriônica que performava na velha padaria, escorado na geladeira de sorvetes. Definitivamente,...

🔵 Jornais para embrulhar peixes e bananas

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Não perdia tempo. Assim que anunciavam que havia uma pilha de jornais, eu corria para resgatá-los. Vendia os impressos na feira, que usava-os para embrulhar bananas e peixes. Era um triste fim para textos de excelentes jornalistas, mas poderia ser bem pior. Os periódicos eram das semanas anteriores, portanto, velhos para manter-me por dentro dos últimos assuntos, porém, novos para embrulhar peixes e bananas. Essa era uma maneira de juntar algum dinheiro e exigir uma esfirra, um copo de ‘Coca’ e troco de bala no recreio da escola. Minha pequena ascensão social significava o meu deslocamento da fila da sopa para a fila da cantina. O trabalho duro no fim de semana era precocemente capitalista, embora lúdico e voluntário. Atualmente seria considerado “trabalho infantil”, talvez abandono de incapaz, e eu estaria condenado a engolir a merenda escolar servida pela Prefeitura de Guarulhos. Também ficaria entregue à completa ignorância, isso porque não me desfazia dos jornais sem que fossem fol...

🔵 Diversões eletrônicas

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  Entrei naquele cenário que era a descrição mais perfeita do que sempre classifiquei como “inferninho”. A descrição é desoladora: um bando de desocupados e escravos do vício. Entregues ao álcool e ao tabaco, largavam latas vazias e bitucas ou tocos de cigarros semi consumidos. Fora outras cenas incompreensíveis, era esse o panorama encontrado no fliperama Colorado. Esse “inferninho” provavelmente abrigava o que havia de pior e mais deprimente da juventude oitentista. Revelando a desesperança de vinte anos de governo militar, aquela juventude gastava o seu tempo e algum dinheiro num “fliperama” imundo, entretendo e esquecendo a monotonia, entre máquinas de diversões eletrônicas.  Distraindo pessoas escondidas no concreto impessoal da Grande São Paulo, restavam as companhias do Pac-man, Rally-X, Cavaleiro Negro, Shark... Prevendo que alguém que se divertia com seres pixelizados e esferas doidas precisavam de entorpecentes, as máquinas vinham equipadas com cinzeiros. Variando en...

🔵 Liberdade ainda que tardia

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Depois de um dia de trabalho, cabular aula não era uma infração, mas uma necessidade. Fugir do colégio era muito desafiador, lembrando a dificuldade enfrentada por quem tentava ganhar o lado de fora da prisão de Alcatraz. O primeiro desafio era juntar e convencer um punhado de rebeldes que “não dessem pra trás”. Reunida a turma, que bem parecia ser a escória do sistema estudantil da época, era chegado o momento de despender um esforço muito maior que qualquer equação exigiria.   Mas antes, uma observação: o aspecto era desanimador. Roupas mal ajambradas, cadernos e canetas insistindo em desafiar a gravidade, postura alquebrada e disposição que denunciava que não conseguiríamos chegar muito longe. Contudo, o motivo da fuga parecia nobre, apesar de estar ciente que alguns de nós, assim que ganhassem as ruas, iriam à casa de jogos eletrônicos. No entanto, ir ao fliperama não devia ser pior que cigarro, truco e matemática. Apesar de não frequentarmos as aulas de Educação Física, e...

🔵 Mochila multifuncional

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  Não se faz aquilo com ninguém, muito menos com uma criança. Indefeso, sem direito a voto, sem lugar de fala e sendo acionista minoritário, tive que ir à escola com aquela mochila, que parecia um “bullying” de estimação.  A mochila apareceu “do nada”, e eu acabei sendo o proprietário daquilo, embora me sentisse vítima. No primário, com uma típica mochila surrada do exército, me senti como um paraquedista ou um soldado na Guerra do Vietnã, de modo que só faltava  cantil, binóculos, bússola e baioneta para ir à escola. Era muita covardia competir contra o desfile de personagens infantis estampados. Uma criança só poderia ser vista com materiais escolares que vinham com temas lúdicos, como Scooby Doo e Pica-Pau. O consumismo instigado pela televisão e o  mantra maldito “peça para a mamãe” haviam contaminado a minha mente, então eu achava que tinha a necessidade de adquirir aquelas novidades.  Contudo, os fechos de metal daquela estúpida mala transformavam uma simp...

Flop 30

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  Lula tinha razão, cumpriu o que prometeu: está hospedado num barco. Belém está como um resort de milionários aposentados  e ‘novos ricos’. Ganhador da ‘Tele-Sena’ que se preze, mas não saiba ostentar fortuna, tem que atracar um iate com visita para a Selva Amazônica. A COP 30 é um evento para “ensinar” como preservar o meio ambiente, apesar de sujar, poluir, gastar e desmatar. A reunião de líderes que não atraiu líderes também é um paradoxo porque, apesar dos discursos anticapitalistas, custa caro para implementá-la, como são caros:  hospedagem, salgados, água… Tenho certeza, hipócritas que são, diante dessa exploração, os ambientalistas formariam fila para comprar espetinho de Mico Leão Dourado, filé de jacaré ou sopa de tartaruga.  O epicentro mundial da hipocrisia é o momento ideal para prometer cumprir acordos, assinar protocolos e se comprometer a seguir tratados; depois de anos, descumpri-los. Objetivamente, o convescote da ONU sempre é um fracasso, mas Lula ...

A especialista

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  A megaoperação do Rio de Janeiro gerou uma discussão entre os que defenderam que a polícia matasse bandidos e os que tratam os mortos do Complexo do Alemão como suspeitos. O Jornalismo estatizado  sempre se apressa em convocar seus especialistas de estimação para ajudar a formar a opinião pública que atenda interesses. Geralmente há um cuidado em selecionar um especialista amigo que não transpareça sua ideologia, Entretanto, dessa vez foi diferente: cabelo vermelho, os óculos esquisitões e a cara de “doidinha” são o uniforme que define a ideologia da garota a 1 quilômetro de distância. Ela é o produto finalizado, que recebeu o “OK” em todas as etapas da doutrinação escolar. Certamente, na sua bibliografia obrigatória não deve ter faltado estudos aprofundados sobre  Foucault e Rousseau. Além da lavagem cerebral, a garota deve ter aceitado o processo porque se encontrou naquilo tudo, bem como achou sua turma. A moça está aproveitando o terreno fértil, bem como um período ...

🔵 Irmãos à obra

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  Os desenhos animados do Pica-Pau nos fez acreditar que quando isso acontecesse encontraríamos ouro ou petróleo, mas só achamos argila. Então, como uma carreta  tombada, começamos a extrair o mineral. Tínhamos energia suficiente para destruir todo o trabalho que a natureza teve em milhares, milhões ou bilhões de anos. Já estávamos fartos de cavar buracos com as mãos ou uma pazinha de praia, portanto, aquele caminhão e uma retroescavadeira eram tudo o que precisávamos. Com todas aquelas máquinas, nossos carrinhos de plástico haviam perdido a graça. Aquilo era o prêmio que havia sido entregue na porta de casa, praticamente uma encomenda. O que os operários chamavam de obra era nosso novo brinquedo. A rua estava intransitável, mas a movimentação de caminhões e tratores abrindo aquela cratera era o parque arqueológico que nos chamava para iniciar os trabalhos do dia. Tomamos posse daquele canteiro de obras na porta de casa. Os parcos conhecimentos de geologia não impediram a pros...