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Mostrando postagens de janeiro, 2026

🔵 Uma noite no museu

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  Aquela aula peripatética era a oportunidade de pegar um atalho para o panteão habitado pela elite intelectual paulistana, mas era impossível adivinhar o que poderia ter no ‘Museu da Língua Portuguesa’ além de palavras. Num museu, seja lá quem o artista for, eu não consigo disfarçar quando a obra for ruim. A coisa começa a denunciar picaretagem quando a, digamos, manifestação artística surge com uma máscara moderninha chamada de: “instalação” ou “performance". Como não há limite, a picaretagem poderia ser pior, a arrogância com ares de superioridade cultural sempre pode se manifestar com a epígrafe: “Um convite a experenciar…”  No entanto, a visita ao ‘Museu da Língua Portuguesa’ contrariou a falta de expectativa. Sim, tudo deve ter sido melhor com a turma da universidade com mais que palavras, palavrões. Em princípio, como suspeitei, as palavras estavam lá. Como as professoras estavam presentes, circulando pelo museu, fiz uma cara de "inteligentinho”, como quem apreciava a ...

🔵 Pequenos furtos

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  Inocentemente, eu sabia aonde fui convidado para ir: Laticínios Sardinha: a concessão à gastronomia de baixo valor nutricional. Não, o substantivo não é comum, portanto, não se refere ao peixe; o substantivo é próprio, portanto, refere-se ao sobrenome do proprietário do mercadinho de frios. Isso me animou, pois sabia que “assaltaria” o modesto estabelecimento daquele pobre comerciante. A porta rolante de ferro escondia embutidos e frios que temperavam o ambiente. Os produtos pendurados, dependendo do ponto de vista, mostravam o que acontecia com quem ousava desafiar a nossa superioridade na cadeia alimentar e enfeitavam o armazém, mas tinham o aspecto de um esquartejamento. Continuando, a mistura de cheiros e a disposição dos produtos faziam cada fatia de mortadela, salame, presunto e muçarela parecer mais saborosa. Bem como, as azeitonas que boiavam numa solução de forte cheiro. Tudo isso dava um odor característico ao armazém Sardinha. O cheiro, já parecia conter a dose recomen...

🔵 Reclame aqui

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  Venda ou quitanda era como chamávamos o mercadinho de secos e molhados. Dependendo do tempo, as ratazanas que circulavam pelos corredores do velho armazém eram classificadas como secas ou molhadas; pelo aspecto, provavelmente as secas saíam da prateleira ou do depósito, e as molhadas, do esgoto. Não sei se a vendinha estava infestada daquela praga, mas basta um para deduzir que há uma ninhada e seus parentes. Eu só desisti de ser cliente da venda quando tentei comprar “chicletes” que, mais que vencidos, há muito tempo tiveram sua fabricação interrompida. Do jeito que estava, ninguém notaria se batizassem aquele mercadinho como: Museu da Alimentação. E o casal de proprietários pareciam peças de um museu de cera da Imigração Japonesa. Aquele “parque arqueológico”  aparentava uma pusilanimidade no atendimento ao público que podia ser desconfiança ou preguiça. Assim, o pequeno comércio do ramo dos produtos da agricultura não atendia a minha procura pelos pacotes de alimentos ult...

🔵 Só sei que nada sei

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  Ganhei dois livros: Sócrates e Santo Agostinho. Os brindes, adquiridos numa assinatura de jornal, mesmo não lidos, poderiam abrilhantar minha incipiente e pouco admirável coleção. Acreditei que somente exibindo os títulos, eu herdaria todos os benefícios por ostentá-los.  Não sei se por ingenuidade, descrença na inteligência humana ou preguiça, acreditei que, sem a leitura, apenas expondo, causaria uma boa impressão. Pronto. Nas redes sociais, não precisaria citar Clarice Lispector e Fernando Pessoa. Por um atalho literário, ou trapaça, eu estava num patamar superior, arrogantemente reservado aos intelectuais. Na verdade, eu contribuía para que o Paulo Coelho continuasse sendo um dos escritores mais lidos do mundo, depositava minhas esperanças em livros de autoajuda e lia biografias rasteiras e eivadas de fofocas sensacionalistas, dignas de pautar um telebarraco vespertino. Mas “Sócrates” e “Santo Agostinho” promoviam minha biblioteca.  Nada importava, eu estava colhend...

🔵 O motivo do atraso

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 Subi alguns degraus, passei a catraca e esperei o Metrô. Já estava acostumado com aquela rotina, mas naquele dia seria diferente. Chegou o trem rumo ao Jabaquara. Entrei no vagão, achei um lugar e passei a compor a paisagem tipicamente paulistana. O sinal anunciou o fechamento das portas. A sucessão de estações seria rápida, não fosse a minha ansiedade causada pelo atraso. Inebriado pela voz feminina “aveludada” que saía dos alto-falantes, fui interrompido quando a voz masculina e ríspida ordenou: “Não impeça o fechamento das portas, isso atrasa o funcionamento do trem”. Essa pequena bronca começou a quebrar a rotina enfadonha; os pequenos atrasos compunham o desconto na folha salarial. A rotina foi alterada de uma maneira desagradável, que só imaginei em devaneios infantis. O que um dia foi um pensamento vago tornou-se uma triste realidade: o Metrô partiu com um sujeito, do lado de fora, preso pela blusa. A composição acelerava, e o infeliz “passageiro”, com o raciocínio interrom...

🔵 Ele não surfa, nada

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  Mesmo morando longe da praia e nunca ter subido nem em uma prancha de isopor, consumir revistas de surf era uma modinha das escolas da árida Guarulhos. Como a “carreira” de surfista urbano era proibitiva, restava cultuar marcas de “surf wear” e sonhar que o Havaí era ali. Surfar no inverno de Mongaguá foi a solução mais econômica para eu passar a eternidade justificando o fracasso litorâneo culpando “a espera pela onda perfeita”. Largar o emprego no supermercado foi o sacrifício que fiz para embarcar no Terminal Jabaquara. A filosofia diz que o melhor da viagem é o caminho, e realmente era boa a sensação de parecer algo descrito como um surfista, pelo menos com as pranchas debaixo do braço. Na praia paulista, filosofar olhando para o céu noturno, prevendo ondas que nos afugentariam, era a desculpa perfeita para enchermos a cara de cerveja e fingir que éramos surfistas experientes. Na água, a cerveja abundante e o equilíbrio escasso expuseram-nos à realidade incômoda, em mar abert...

🔵 O candidato

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  Ora vereador, ora candidato, ele era onipresente. Embora não existisse o voto distrital, aquele político era o “dono” daquele bairro.  Responsável pelo jornal da Vila Galvão e outras facilidades provincianas, esperava ser retribuído com o que tínhamos de valor: o voto. Não havia saída, meu voto estava tacitamente comprometido com o transporte “gratuito” para “tirar o R.G.”. Estou ciente de que se eu precisasse de cadeira de rodas, prótese, remédio ou consulta médica, o candidato daria um jeito, já que, mesmo em sentido figurado, todos aqueles benefícios serviam de muletas. Assim, meu voto foi sequestrado. Bem de manhãzinha, estava eu aguardando a viatura. Depois de alguma espera, chegou o carro. Bovinamente, embarquei na Kombi. Parti feliz... Aquele “privilégio” seduz qualquer um, quanto mais um moleque sentindo-se adulto por adquirir um documento. Não estávamos pendurados num ônibus lotado, estávamos num... automóvel: talvez esses fossem os sinais da ascensão social. Naquel...

🔵 Movidos a álcool

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 Aquela fileira parecia uma horda de bárbaros pronta para o ataque. Nós bufávamos como que sedentos por sangue, ameaçávamos como cães raivosos. Dado o sinal, partimos. A poeira levantada e o barulho remetiam a memória ao que deveria ser uma batalha ou uma corrida de cavalos.  No entanto, era um bando de pirralhos inofensivos que ainda iam para a escolinha pré-primário, chamavam a professora de tia, brincavam num cercadinho de areia durante o recreio e levavam uma constrangedora lancheira a tiracolo — no meu caso, com suco de laranja, pão com mortadela e, às vezes, Lanche Mirabel e Groselha Vitaminada Milani.  Do nosso ponto de vista, tudo ganhava proporções grandiosas e pretensamente importantes. Para os adultos, éramos apenas um bando de pivetes colorindo casinhas, animaizinhos etc. Contudo, não nos importando com os outros, víamos fardas camufladas, em vez do tênis Conga, bonezinho com fivela e uniformezinho azul; e um alforge de guerra em vez da ridícula lancheirinha a...

🔵 Comendo como um cavalo

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  Cheguei no restaurante e churrascaria ‘Tião Carreiro’. O preço era bom e a comida era bem fornida, portanto resolvi arriscar o estômago no lugar com nome de restaurante de beira de estrada. Mesmo sem caminhões parados na frente, o aspecto lembrava o que deveria ser a rodovia Cuiabá-Santarém. Então, o lugar destoava de tudo o que eu suspeitava encontrar no centro de São Paulo. Confesso que o meu visual era bem discreto, mas não tinha nada a ver com o panorama, digamos, raiz da frequência do ‘Tião Carreiro’. O restaurante estava entre a dura luta pela sobrevivência e as facilidades do “self service”. Pensei em dar meia-volta quando me senti um forasteiro adentrando um “saloon” no Velho Oeste, porém, àquela altura, seria pior recuar. Aquela espelunca parecia transformar em prato  todo bicho que andasse, voasse ou nadasse. No salão, os comensais se apoderavam de seus pratos de modo que pareciam cães a ponto de avançar caso lhes tirasse o osso. Me servi, achando que seria questão...

🔵 Compro ouro

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  O derretimento do metal valioso anunciava o fim do relacionamento. Não era conveniente, nem preciso perguntar o que aconteceu, era hora de obter um bom dinheiro pelo precioso anel, apagando o nome dela. Até acho, o dia que essa história virar filme, tem que ter a cena do nome derretendo e a lágrima escorrendo.  No centro da cidade, os “homens-placa” que exibiam o aviso “Compro ouro” nos indicavam o endereço do mercado negro. Quando criança, ler que havia o comércio de ouro era tão exótico quanto encontrar um poço de petróleo no quintal; pois eu estava negociando o mineral para socorrer a um amigo. Em prédios antigos, de sala em sala, éramos atendidos através de escotilhas e de modo desconfiado, quase secreto. Parecia que estávamos infiltrados numa máfia. A incursão no temerário ramo das pedras preciosas começou a ficar perigoso, pois era claro que não éramos bem vindos. Mas ainda tínhamos uma joia de ouro e esse era a nossa senha para frequentar aquele ambiente proibido. Aqu...

🔵 Um gato na estante

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 Frequentando o casarão histórico da biblioteca Mário de Andrade, algo me intrigava. Circulando pelos corredores, entre estantes e livros, fui surpreendido por um gato. Curiosamente, li que gatos eram usados para acalmar ambientes. De fato, aquilo estava funcionando.  Entretanto, aquele animal não poderia ser utilizado como um objeto para harmonizar uma repartição pública, como um patuá, amuleto sagrado ou sachê que a gente compra no supermercado. Contudo, fiquei mais tranquilo ao constatar que o felino gostava da biblioteca instalada em um casarão antigo. Realmente, o silêncio era respeitado, e eu não havia presenciado maus-tratos animais. Não, a única coisa que interrompia minhas tardes e atormentava demais, era que o gato parecia me perseguir como um segurança de mercadinho de bairro. Isso dificultava minha escolha. Entre Machado de Assis e Marcelo Rubens Paiva, lá estava o bicho. Inclusive quando eu arriscava puxar um Paulo Coelho, lá estava o “zoião” esbugalhado do gato. ...

🔵 Rio abaixo

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 A barraca, solitária no Camping Jacaré, provavelmente servia de ponto de referência. Fomos a Brotas para, diferentemente de descer as cataratas num barril, descer o rio Jacaré Pepira num bote. Apesar da confraternização animada com cerveja e violão, o clima naquele restaurante era sombrio. O céu noturno prometia que a chuva não cessaria, dando mais volume à correnteza e empregando mais adrenalina à nossa expedição ou novamente cancelando o “passeio”. No dia anterior, a chuva havia frustrado o “rafting”. A caudalosidade do rio rendeu uma pequena reunião. Eu e meu amigo, desconhecendo o perigo e talvez encorajados por “shots” da pinga com mel  brotense,  decidimos “navegar” o rio. Porém, a negativa geral, inclusive dos profissionais, nos trouxe à realidade. Fomos votos vencidos pela prudência. A chuva deu uma trégua, entretanto o volume d’água classificava o nível de dificuldade “5”. A seriedade com que isso foi dito, me fez cair na real e acreditar que o passeio contempla...

Bastardos inglórios

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  “Fiz o que tinha que fazer”, disse Alexandre de Moraes, sobre decisão quanto à prisão de Bolsonaro. Sob gritos entusiasmados de formandos do Largo São Francisco, Moraes demonstrou orgulho depois de sua frase de psicopatia. O paraninfo aproveitou a plateia ganha e desfilou o sarcasmo sadista, próprio de quem sente um narcisismo doentio por ser agente causador de sofrimento. Trata-se de alguém que usa a caneta com uma raiva que um bom divã elucidaria. Não cumpre a Constituição e não julga, vinga, atingindo parentes e até menores de idade. Claramente, sedento por fazer justiça com as próprias mãos, conseguiu vingar-se com a legitimidade do Estado, isso quando não é necessário atropelá-la também. A histeria coletiva encoraja o tirano a continuar, pois a cegueira afasta-o da realidade e faz acreditar que está no caminho certo. Assim, ele ri da própria maldade, como um vilão de desenho de super-herói. Muitos deixaram Moraes distribuir suas arbitrariedades enquanto o alvo eram inimigos ...

🔵 Estive em Peruíbe, lembrei-me de você

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   A vitória do Corinthians no Mundial de 2000 oportunizou uma concessão à irresponsabilidade de sair buzinando e gritando pelas ruas de Peruíbe. Fosse no litoral paulista ou na Inglaterra, as ruas estariam lotadas de corinthianos, ô raça!  Embora o Mundial tenha monopolizado o primeiro dia naquela praia, também trouxe repentinamente uma lembrança nada edificante e que somatiza, automaticamente, um embrulho no estômago, dor de cabeça e tremedeira: Naquelas areias, a notícia de que era nosso aniversário chegou aos ouvidos da proprietária de uma barraquinha de batidas, raspadinhas, caipirinhas e tudo que fosse demasiadamente alcoólico. Sabendo da efeméride, ela resolveu encerrar o expediente abusando de toda a sua criatividade, e um pouco de bruxaria, adquirida durante anos de preparo de drinques com teor entorpecente.  A “véia” resolveu levar menos peso para casa, de modo que  despejou o resto de todas as garrafas nos copos. O resultado foi uma intoxicante “farmá...

🔵 Extra! Extra!

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  O jornalzinho da Vila Galvão era uma publicação simpática aos moradores do bairro; no entanto, o objetivo oculto era eleger seu dono, o eterno vereador. Enquanto meus objetivos eram menos grandiosos, mas, talvez, mais honestos: na cantina da escola, exigir “uma Coca, uma esfirra e o troco de bala”. Para realizar essa troca justa, era só fornecer a minha incipiente força de trabalho, arremessando exemplares nas casas, prendendo nos para-brisas dos carros e entregando aos transeuntes. Assim, a população ficava informada das fofocas, dos óbitos e do mundo das subcelebridades locais; o vereador impulsionava sua candidatura; e eu mudava meus hábitos alimentares no recreio escolar, pois eu sabia que seria promovido da fila da sopa para a cantina. Saímos para divulgar as “desinteressâncias” e "desinformações”  da nossa aldeia, com os ameaçadores capangas do candidato. Sim, o postulante à vereança de Guarulhos, além de dono do jornalzinho, era um tipo de chefe da máfia local. Pois b...

🔵 Concertos para a juventude

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  Para quem só aceitava assistir a shows na pista, ficar plantado na arquibancada era algo comparável a ver Charles Aznavour, Dione Warwick ou Manolo Otero no Teatro Municipal. Felizmente o Iron Maiden cumpriu o combinado e entregou o prometido, antes que me sentisse tomando chá em traje de gala. Os shows do Iron são milimetricamente calculados e executados, portanto a emoção é quase a mesma para quem vê na frente do palco ou nas cadeiras. Resumindo: é “pasteurizado” e perfeito como num videoclipe. O “setlist” é construído para agradar, não causar choro compulsivo, nem crise existencial na maioria dos fãs. Infiltrado no território inimigo do estádio do Palmeiras, havia algo estranho na movimentação típica de um show de rock. Onde estavam os altamente embriagados, que deveriam ser facilmente encontrados caídos pelas calçadas? E as ambulâncias correndo para recolher algum roqueiro em coma alcoólico ou vítima de overdose de entorpecentes? Nem sequer algum doido quebrando uma garrafa e...

🔵 4nivers4rio for4 de époc4

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 Com alguma ansiedade, mal disfarçada de pressa, já que a faculdade ficava deserta à tarde, mais uma vez eu girava a roleta, descia as várias escadas e percorria corredores até chegar à biblioteca. Bastava entregar a carteirinha e acessar um computador. Todo o procedimento fazia com que eu fosse confundido com um aluno da faculdade e, de certo modo, me comportava para contribuir com a verossimilhança. Eu podia acessar a internet gratuitamente, estudar e conferir os resultados do concurso público. Entretanto, um detalhe sem importância me distraía. Embora meses distanciavam a data do meu aniversario, a tela exibia a data errada: 4 de janeiro (meu aniversário). Troquei de micro, a mesma coisa. Estiquei o olho em outros computadores ocupados: 4 de janeiro. Eu estava propenso a acreditar em algo transcendental, mas não naquele momento. Depois de esgotadas as possibilidades de coincidência, ainda quis achar que aquele caso era falta de manutenção. Como o resultado do concurso  não ...

🔵 Vendo os anos passando

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 Estávamos no “Lago”, a cerveja esquentando na latinha, o assunto reticente, monossilábico e escasso, bem como o olhar perdido num horizonte imaginário empregavam drama àquela falta de perspectiva. Esse desânimo não era nada mais que cansaço da festa da escola. Apesar do real motivo da cena melancólica, a imagem mental dos amigos incertos quanto ao futuro sempre gera uma narrativa poética. Junto à Matemática, Física, Química e Biologia, eu passei longe  do cigarro (Derby e Lark) e do Truco. O final do colegial me habilitava para uma incerta faculdade, e o salário baixo possibilitava que trocasse minha latinha de cerveja. Isso não significava algo digno de ser comemorado, mas eu anunciei a “saideira” com certo orgulho.  Talvez, esse comportamento refletisse o sentimento próprio de quem já tinha há muito tempo iniciado o jogo da vida, não como a maioria que elege um acontecimento como marco inicial de alguma coisa. Aquela palhaçada, digo, a cena do Lago era um “remake” mal-...

🔵 Era uma vez na Vila Galvão

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  Já nos primeiros dias, eu não via motivo para estudar aquele monte de matérias que, eu tinha certeza, não me serviriam. Educação Física era a única disciplina que me entusiasmava, desde que a “aula” fosse de futebol. Mas aquele dia apresentaria o motivo para eu nunca mais “cabular” aula. Mais que isso, sentar na frente, perto da professora, era uma possibilidade. Mais ainda, com apenas 11 anos de idade, eu realmente pensei em completar o ginasial. Olhando para o chão, ela entrou na sala levitando. Não precisei largar livro, caderno, lápis e borracha, porque eu não os utilizava. Sem saber, ela implantou a discórdia. A partir daí, iniciou-se uma nova gincana: a corrida para conhecer aquela menina e conquistar algo como o telefone ou o endereço dela. ***.  *** No sábado cedo, fui ao endereço guardado como um troféu. Entretanto, quando virei a esquina, tive uma visão que revelava que meus adversários se acumulavam além das partidas de futebol. Não sabia por que meus amigos, no m...

Má influência

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  Já foi dito muito sobre o banco Master, mas, pelo que querem esconder, ainda falta o essencial, pelo que dizem e o que querem esconder. Alguns dos chamados “influenciadores" receberam propostas financeiras para "meter a colher” na briga de casal entre o Master e o BC (Banco Central). Acontece que esses “youtubers” largaram as fofocas e passaram a comentar Economia. Para isso, logicamente, devem ter corrido para fazer um “intensivão” de "continha de mais”. De repente, apareceu uma galerinha que nunca tinha se preocupado sequer com o fim do Banco Santos ou o fim do Bamerindus, mas agora, estâo demonstrando preocupação com a liquidação do Banco Master. A “turminha esperta”, que não deve saber quanto são 7 x 8, em ação coordenada e texto muito parecido, atacou o BC e defendeu o Master. Com evidentes técnicas de como convencer e influenciar pessoas, as opiniões compradas “alertaram” de “a quem interessa a liquidação do Master de Daniel Vorcaro?” Boa pergunta. Vorcaro quis b...

🔵 Por um mundo melhor

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   Uma excelente notícia: fim da última aula, sexta-feira. Mas, para estragar, uma péssima informação: trabalho de Geografia, o apocalíptico efeito estufa. Por outro lado, era bom: eu teria uma justificativa nobre para ir de ônibus para o centro da cidade. A obrigação escolar foi responsável por um dos piores ajuntamentos para pormenorizar os horrores do terrível efeito estufa. Pois, fomos à Biblioteca Municipal  resolver mais um problema do meio ambiente. Era muita responsabilidade para um grupinho de medíocres estudantes da 5ª série C com apenas 11 anos. Entretanto, como se tratava de um desastre natural que tinha o poder de dizimar o mundo, alguém tinha que fazer algo.  Uma matéria da revista Veja e alguns fragmentos de livros foram suficientes para considerar o trabalho concluído. Suspeito que todos os grupos copiaram os mesmos trechos. Nem sequer a capa escapou da falta de originalidade com o título: “Trabalho de Geografia: Efeito Estufa”. O único arroubo artíst...

🔵 Velho punk

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  Aquele show era uma farsa, começando pelo nome da turnê: “Fithy Lucre” (lucro sujo). Assim, fomos assistir a uma banda de punk rock uns 20 anos após o movimento jovem.  Queríamos emular a rebeldia dos operários britânicos dos 70s, isso nos anos 90, embalados numa música caótica, no ritmo de uma dança autodestrutiva. Não vivíamos numa soturna cidade inglesa como Manchester e não éramos súditos da rainha. É lógico, toda essa fraude nunca poderia dar certo. Mesmo assim, nós cinco fomos brincar de rebeldes contra o sistema, mas cuspir no chão e pisar na grama era o máximo que podíamos fazer. O Estádio do Ibirapuera ainda lembrava o Parque da Mônica, devido o clima de convescote. Mas era muito cedo, e o show do Sex Pistols atraía uma geração que foi jovem nos anos 70. Superado o choque de gerações, bem como o impacto do movimento punk estar anacrônico, fomos andar pelo estádio. A fileira de banheiros químicos sugeria uma gincana na qual torcíamos para não abrir a porta de um “box...

🔵 A Praça do Pôr do Sol

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 Saindo da FNAC Pinheiros, eu fugia da sombra no inverno onde o Sol se escondia às cinco e vinte. Só restava aquela alternativa: infiltrar-me entre uma turminha que abraça árvores e aplaude o pôr do sol.  Não seria novidade, para quem passou a tarde entre uma “galerinha natureba” que acha que vai salvar o planeta e a si bebendo suco detox, usando canudo de papel, construindo móveis com madeira de reúso, armazenando água da chuva e reciclando lixo, mas queimando diesel.  Para completar minha inserção no universo “esquerda de IPhone” e elevar meu ranking de “bichogriliçe” ao máximo, fugi, sem sucesso, das onipresentes “contações de estórias”. Eu fui à FNAC sabendo que de sábado era, infalivelmente, assim. A livraria ficava muito perto da Vila Madalena, portanto, sabia onde eu estava pisando. Cheguei a pé à ‘Praça Cel. Custódio Fernandes Pinheiro’. Tá, “Praça do Pôr do Sol”, no Alto de Pinheiros. O lugar ganhou esse nome, porque é um dos raros locais agradáveis em São Paulo ...

🔵 Contravenção

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  A cada pedra cantada, percebi que  poderia ser o grande vencedor. A coincidência só podia ser um sinal de que a sorte estaria do meu lado. Adquiri uma autoconfiança imbatível. Sim, eu disputava um animado bingo de quermesse numa capela do interior. Com direito a velhas piadas como “dois patinhos na lagoa”, “idade de Cristo”, “uma boa ideia” e “vai começar o jogo”, travei a batalha entre idosos, alguns jovens e viciados numa jogatina. Pois bem, a profusão de “números bons” me levou a ficar “pela boa”. Ignorando as reclamações e desistências dos meus concorrentes, grudei os olhos na cartela, guardei o fôlego e fiquei na expectativa de soltar o grande grito. Não deu outra. Eu gritei com vontade: bingo! Berrei com potência e fiquei ouvindo os protestos da velha guarda. Triunfante, escapando do linchamento e pedindo passagem para ser notado, fui receber o merecido e grandioso prêmio. Cheguei como quem receberia um diploma; saí, meio sem graça, como saem os que recebem uma medalha...

🔵 O ancião japonês

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  A loja era um completo mistério. Certamente, aquele amontoado de móveis só podia ser um comércio. Um comércio de móveis, era isso que eu precisava. No entanto, aquilo parecia um cômodo da casa de um acumulador compulsivo. A disposição de cadeiras, estantes, camas etc era de equilíbrios e encaixes impressionantes. Precisando de uma estante boa e barata, arrisquei entrar naquele lugar misterioso. Eu parecia ser o único cliente em anos, de modo que ninguém apareceu para me atender. Insisti, fazendo barulho para que eu fosse notado. Contudo, não obtive resposta. A quantidade de móveis amontoados dificultava a minha procura por algum atendente e, sinceramente, dava a impressão de que eu estava sozinho. Todo o cenário e a situação começavam a dar medo. Com uma aproximação cautelosa, cheguei ao fundo da lojinha. Quando algo se moveu, tive um misto de susto e alívio. Um ancião japonês (com uns 80 anos) saiu do  que parecia um estado meditativo. Escondido entre os produtos de madeira...

🔵 Vandalismo socialmente permitido

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 Um pouco de cerveja é o suficiente para transformar uma turma de amigos numa perigosa gangue urbana. Andando pelas ruas da cidade, meio sem destino, ou melhor, à procura de um bar aberto. Esta era a desculpa para descontarmos a raiva juvenil sem causa. Concomitantemente, o mobiliário urbano exibia uma novidade que atrapalhava a nossa circulação. Alguém mal pago exerceu um subemprego proibido: “decorou” os postes com propaganda burguesa irregular. Nunca surgiu uma oportunidade tão atrativa para destruir um patrimônio, fingindo lutar contra o capitalismo. Aquelas placas estavam fixas nos postes, com arame. Parei para ler o anúncio: lançamento... empreendimento imobiliário... apartamento amplo... 2 e 3 dormitórios… Aquela oferta me ofendia, pois eu não poderia adquirir aquele imóvel do anúncio. Um súbito espírito socialista surgiu, a burguesia feriu o meu orgulho proletário e despertou uma inédita sede de justiça social. Vendo que meus comparsas compartilhavam da sanha exterminadora,...

🔵 A revolução dos bichanos

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 Tocamos a campainha do apartamento. Quando a porta abriu, fomos recebidos por um felino que, sinuosamente, contornou a porta, o batente e, decidido aonde iria, escapou. Entrando no apartamento, o cenário de infestação chamou a atenção: uns 20 gatos espalhados, mesa, estante, sofá, chão etc. O imóvel estava tomado pelos felinos. Tive a oportunidade de conhecer a personalidade de um exemplar, portanto, tenho certeza, os animais autorizaram aquele cara,  que se dizia proprietário, a morar com a turminha. O amigo do amigo, que habitava o apartamento, devia estar acostumado com o cheiro, porém, nós não. O cheiro era mortificante, então, foi um convite a fugir dali, como se o prédio devesse ser evacuado imediatamente. Aquele movimento, o cheiro e os miados roubavam minha atenção. Inclusive, bem sei, se o IBAMA “estourasse” o imóvel, os gatos seriam recolhidos e todos nós sairíamos presos. Entretanto, o pior não aconteceu, portanto, bastou suportar aquilo. Os minutos pareciam horas,...

🔵 Barata voa

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  Aparentemente, era apenas uma barata. Corrigindo: uma barata nunca é “apenas uma barata”.  Mas eu descobri que ela era voadora quando o animal levantou voo. Era só uma barata voadora, mas eu lutei como se aquilo fosse um falcão selvagem.  A barata alada nunca pode ser menosprezada. Se eu poupasse a vida do ser rastejante e apagasse a luz, certamente ela seria atraída pelo cheiro de sopa de cebola no canto da minha boca. Sendo voadora, a barata teria fácil acesso à cama de cima do beliche. Eu, por questão de honra, precisava enfrentar aquele horror paralisante, digo, inseto repulsivo. No topo do guarda-roupa, a coleóptera, percebendo o meu medo, digo, repugnância, parecia  me  observar. Suas antenas, com um leve movimento, explorando o espaço aéreo deveria estar farejando o meu pavor, digo, nojo. O inseto asqueroso armou seu voo. A aerodinâmica do animal não favorecia o direcionamento aéreo. Entretanto, o bicho se lançou de cima do guarda-roupa e quando parecia...

🔵 Programa infantil para crianças

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  Curiosamente, se espera de um programa infantil que ele seja para crianças. No entanto, os anos 80, com reflexo nos 90, foram recheados com garotas de programas infantis que pareciam retiradas de um filme para adultos. Os programas, apesar de infantis, deveriam ser proibidos para menores de 18 anos. O esforçado artista plástico, compositor, desenhista, escritor, educador e apresentador de televisão, Daniel Azulay, recebeu a concorrência de um punhado de loiras com shorts curtos e um “cardume” de ‘paquitas’. Foi nessa configuração cultural que programas educativos, como o de Azulay, contribuíram para que não houvesse uma geração de maníacos. O valente programinha educativo do artista era daquele tipo que ensina a pintar, recortar, dobrar e colar. Tudo isso, reciclando embalagens. Apesar de exibir desenhos animados, ainda eram tempos de programas “feitos à mão”.  Entretanto, com minha incipiente formação cognitiva, não estava preocupado em selecionar uma programação de boa qua...

🔵 Um herói de baixo orçamento

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  Entre o National Kid e o  Jaspion, o Japão escravizou mentes e corações infantis com o Spectreman. O boneco, digo, o herói salvava o Mundo, mais uma vez, a cada episódio. Mesmo que a produção de cada capítulo custasse muito fio de cobre, papelão, plástico e isopor, além de bonecos de monstros inspirados em insetos e répteis. Essa era a tecnologia japonesa dos anos 80. Fios telefônicos, papelão, plástico e um pouco de isopor eram fulminados para eu acreditar que Tóquio estava sendo destruída. Do jeito que a coisa estava, Guarulhos poderia ser a próxima cidade aniquilada. É claro que eu só era convencido disso depois do surgimento de um lagarto ou inseto gigante ensandecido. Mesmo sendo interpretados por bonecos, os vilões impressionavam a audiência mirim, emprestavam credibilidade e causavam algum pânico coletivo. Nunca soube que substância simulava os efeitos do golpe mortal do Spectreman, o herói. Suspeito que era “catchup” ou  extrato de tomate, mas qualquer líquido v...

Movimentos de massa

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  Por que, mais do que o crime e a violência, as pessoas comuns, pessoas instruídas podem colaborar com algo tão destrutivo sem questionar?  Porque o maior perigo não é a maldade consciente, é a estupidez coletiva. As pessoas não agem só por ódio, nem por ignorância pura; elas agem porque desistiram de pensar, repetem palavras que não são delas, defendem ideias que nunca examinaram, seguem ordens para não enfrentar a própria consciência. “A estupidez não nasce da falta de inteligência, mas da abdicação da responsabilidade individual” Essa abdicação raramente nasce sozinha, ela é aprendida:  repetem discursos sem questionar, a mídia transforma narrativas em emoções, autoridades oferecem segurança em troca de obediência.  Quando o medo, a propaganda e o desejo de pertencimento dominam, o pensamento crítico desaparece; no lugar dele, surge um comportamento automático, confiante, barulhento e perigoso. A pessoa não reflete, repete; e quanto mais repete, mais normal isso ...