Postagens

Mostrando postagens de março, 2026

🔵 Não faça isso em casas

Imagem
  A Ditadura Militar havia terminado, mas era preciso lembrar que éramos perigosos e estávamos por perto. Nosso recado era uma bomba. Cada integrante daquela guerrilha urbana estava exaustivamente treinado, e todos sabiam o que deveria ser feito. Mal o artefato foi aceso, aquele bando saiu correndo, deixando um companheiro para trás. A garagem vazia aumentou o estrondo da explosão. A mãe de um daqueles pirralhos chamou. Já estava tarde, no dia seguinte haveria aula. Fim daquela “brincadeira” besta de miniguerrilheiro urbano. *** Horas antes: a fileira de moleques sentados na calçada denunciava a falta do que fazer. Mas para quebrar o tédio, sempre surgia uma ideia bem idiota. Quando duas ou mais sugestões iluminavam aquelas mentes dos anos 80, a mais imbecil era aprovada por aclamação. Todo o nosso ímpeto incendiário só poderia ser aplicado com alguma segurança na lojinha de artifícios explosivos mais próxima. As bombinhas estavam sendo comercializadas num cubículo. As aparências e...

🔵 A viagem

Imagem
 O passageiro ao meu lado falava alto e zombava dos passageiros que ousavam chegar ao fundo do ônibus. Todos tinham a garantia de serem ofendidos, porque o desembarque obrigava a passar pelo ”corredor da morte”. O “entertainer” da viagem dava sinais indiscutíveis de embriaguez. E alguém que não entendesse a situação, portanto, ficasse zangado com os impropérios poderia tirar satisfação com o provocador do fundo do ônibus.  A ebriedade agressiva e a folga do sujeito impediam sua avaliação de quem deveria ser desrespeitado, de modo que ele mexia com pessoas de qualquer temperamento, tamanho e aparente força. O cara realmente parecia possuído pelo demônio. O protagonista de tudo o que está nos primeiros parágrafos era o meu amigo, isso me colocava no epicentro da ocorrência. Por, em muitos momentos, rir da situação, eu seria facilmente  confundido como cúmplice. A disposição da nossa turma de amigos com mochilas não deixava dúvidas: estávamos viajando juntos, então, cabia a ...

🔵 Dois caramujos no caminho

Imagem
  Os dois caramujos estavam interrompendo o meu caminho. O quintal de terra e o súbito espírito de protetor dos animais me fizeram poupá-los do atropelamento pelo meu Gol 86. Só para ter certeza, conferi: debaixo do carro, um tanto quanto imóvel, o casal estava lá, protegido pela casca. Fruto da miscigenação entre europeus, povos originários e escravizados africanos, minha mãe era uma enciclopédia de simpatias revigorantes, unguentos medicinais, beberagens milagrosas, crendices populares, histórias de lobisomem, mula sem cabeça e outras assombrações do interior paulista, bem como, o essencial do curandeirismo natural. Ou seja, uma potencial candidata à fogueira da Santa Inquisição.  Portanto, consultei-a sobre a presença dos dois animais na garagem. Ela me afirmou com expressão preocupada: os caramujos africanos são “coisa-feita” — um tipo de “trabalho” para prejudicar. Tive a impressão que meu quintal havia virado uma encruzilhada. Toda vez que eu tirava ou guardava o carro, ...

🔵 Tem um Miranda na loja

Imagem
 A loja de livros e CDs da rede francesa contava com uma presença significativa: Carlos Eduardo Miranda. Aquilo logo chamou a atenção: ele surgiu vestido como um adulto fantasiado de criança ou como um cicerone de resort havaiano.  Tudo lembrava um conjuntinho infantil: a camisa florida era engraçada, mas foi junto do tênis colorido e os óculos escuros na testa que o gordinho de cabelos grisalhos ganhava um visual de eterno adolescente. Toda aquela composição dava um aspecto de “nerd” de meia-idade, daqueles que veneram lutas lendárias entre super- japoneses e que contam histórias ficcionais como se fossem verdadeiras. O “gauchês” tornava aquela figura mais peculiar. Talvez o grande público o conhecesse como “o gordinho jurado do Ídolos”, mas eu o conhecia como “o gordinho produtor musical”. Apesar de escolher CDs seja seu trabalho, ele sempre exibiu esse visualzinho de férias eternas. Miranda empilhava CDs na sacola como quem comprava frutas na feira ou apanhava itens na prat...

🔵 Disque 15

Imagem
 Era desanimador ligar novamente para a companhia telefônica espanhola e ser atendido por um robô inepto e mal-educado. Enfim, alguém, digamos, humano surgiu para me socorrer. Mas a  gigante das telecomunicações deve ter orientado os atendentes para atingir meu sistema nervoso central ou desequilibrar qualquer estado de calma zen-budista e estado meditativo. Diferentemente das máquinas falantes, os funcionários eram orgânicos, porém, suas falas, robotizadas. Fui levado aos fragmentos restantes de sanidade mental e convencido a desistir. No entanto, disposto a manter a honra,  encontrando forças para reaver meu suado dinheirinho, determinado pelo ódio e com uma confiança compatível com quem quer fazer valer o ‘Código do Consumidor’, decidi comparecer ao PROCON (Programa de Proteção ao Consumidor) mais próximo. Como nunca fui advogado, tive que interpretar um rábula de mim mesmo. Os filmes de tribunal deviam ser muito fantasiosos para minha realidade de consumidor indignado...

Ouça o que falo...

Imagem
Nem no falecido Cine Star, no centro de Guarulhos, se via tanto lixo. Mas depois do Oscar, descobrimos porque a indústria cinematográfica odeia tanto Donald Trump: a crítica parecia sinalização de virtude Democrata, mas, as imagens mostram, é falta de lixeira. “Pega bem” fazer discursos em defesa do meio ambiente da Groenlândia ou da Patagônia enquanto emporcalha o Teatro Dolby de Los Angeles. É um ótimo negócio defender a preservação de lugares distantes, quase imaginários; afinal, a distância geográfica justifica a inação.   O tapete vermelho faz sua parte, só mostra o luxo para lentes e flashes, mas é no “escurinho do cinema” que o lixo revela a grande encenação. Deixaram o teatro igual ao assoalho do meu carro ou à gaiola do meu velho papagaio; para limpar, bastava trocar o papelão. Mas não é só o ambientalismo de palco que “pega bem”. A igualdade de holofote, o humanitarismo de microfone e o pacifismo de câmera também são uma bela lição de moral. É sempre mais fácil defen...

🔵 Uma estorinha de tristeza e lágrimas

Imagem
  Cães são mendigos sentimentais, portanto, após um afago fica difícil se livrar deles. Os gatos, pelo contrário, quase sempre ignoram os humanos e só concedem atenção quando têm algum interesse num pires de leite ou num pedaço de peixe.  Senhores do seu caminho e de uma arrogância quase humana, os gatos sentem um prazerzinho ao humilhar aqueles que pensam ser seus donos. Talvez também por isso, um “pet” estranho foi muito bem-vindo. Embora não demonstrassem qualquer emoção ou empatia quando ganhavam comida ou cafuné, nem mudavam a fisionomia, as tartaruguinhas eram retiradas do viveiro para apostar uma corrida compulsória. A disputa servia para dirimir a grande dúvida da Humanidade quanto à velocidade do animal. Era um tanto excêntrico possuir os exóticos monstrinhos de estimação com aparência pré-histórica. De casco tigrado, rajado e cara de quem está sempre de mau humor, os animaizinhos foram a experiência de História Natural que saciaram uma ensandecida e perigosa curiosid...

Um novo conceito de artigo têxtil enquanto ressignificação da atividade física a nível de igualdade

Imagem
  A Confederação Brasileira de Futebol (CBF) e o Palácio do Planalto devem ter um projeto de País, e o futebol maquiavelicamente foi a maneira mais fácil de pegar o brasileiro distraído, entre churrasco e cerveja. No silêncio, alteraram a forma e o conteúdo: a camisa número 2 (azul) trouxe estampada uma mancha que parece a sombra de uma carranca ou o capiroto; o canarinho fica com olho vermelho e vira um pássaro sinistro; sinistro que é o lema da Seleção: “Joga sinistro” substitui aqueles gritos de torcida bobos, mas ensolarados: “Pra frente, Brasil!”, “Dá de bico que o jogo é de taça!”.  Entretanto, o melhor é um suposto apelido: “Brasa”. Essa lenda de que chamam a Seleção Brasileira de “Brasa” só pode ser péssima ideia publicitária, gíria de tiozão tentando se enturmar ou novilíngua para transformar a sociedade pela linguagem. A mina, que faz performance como “cosplay” de Che Guevara e deve odiar futebol, parece que foi arrancada de uma faculdade de Moda para falar de futebo...

🔵 Manto sagrado

Imagem
  Já era hora de comprar uma camisa oficial do meu time: usada, que era o que eu podia comprar. Estranhamente, meu amigo são-paulino tinha exatamente o que eu queria: a camisa número 10 do Corinthians, com o patrocínio da Kalunga (que era praticamente um dos símbolos). “Ótima procedência” e precinho camarada, material de primeira qualidade. Na loja de artigos esportivos custava caro, portanto, não tive dúvidas, comprei a peça.  Meu amigo era um integrante da Independente, torcida organizada do São Paulo, sendo que nos anos 90 as torcidas estavam fora de controle. Essas informações já eram suficientes para eu supor que essa camisa do Corinthians era produto de um quebra-pau inesquecível, não de uma compra em loja esportiva. Para diminuir o peso na consciência, o resultado do provável saqueamento não estava literalmente manchado de sangue, nem rasgado. Como não guardava rastros de violência, o antigo proprietário deveria estar bem. Pelo menos, era isso que a minha mente insistia...

🔵 Orquestra filarmônica niltoniana da Vila Galvão — O batuque dos corinthianos

Imagem
  Esteticamente era bem precário, mas expressava a alegria da vitória do Corinthians, talvez a única para muitos. Aquele tipo de “marcha dos excluídos” passava recolhendo os desocupados e maltrapilhos da Vila Galvão. No fim da rua, o ritmo fora do ritmo anunciava que o nosso carnaval fora de época e de compasso já tinha começado o desfile. O som do batuque aumentava à medida que o bloco se aproximava. O aspecto dos ritmistas sem ritmo, mais a barulheira, sugeriam que se tratava de um destacamento de “Napoleões de Hospício” ou o “Incrível Exército de Brancaleone”. Era de dar dó, ré, mi, fá… O maestro daquela orquestra anárquica era o Nílton. De uma maneira inocente, Nílton, o maestro, distribuía aleatoriamente os instrumentos de percussão aos moleques com pouco ou nenhum dom para a Música. Suspeito que alguns daqueles pirralhos nem sequer eram “alvinegros”, portanto, embarcavam no bloco da “bateria nota 10” niltoniana só pelo barulho e pela bagunça. Isso foi num tempo em que os torc...

🔵 Máquina de vendas

Imagem
  Como rotina de promotor de vendas, entrei no hipermercado. Mas aquela loja estava vazia, apenas alguns funcionários garantiam o funcionamento necessário. Acessando o depósito, comecei a decifrar aquele dia estranho: reunidos no “backstage”, funcionários, colaboradores e chefes se comportavam como uma seita ou religião fanática. Eles estavam apenas mimetizando um comportamento americanizado. Animado, o “mestre de cerimônia” gritava frases motivacionais e palavras de ordem. A palestra era interrompida por aplausos, “ú-hus” e palavras-chave ditas com entusiasmo. A postura sectária dava a impressão de transe coletivo, hipnose e uma triste paisagem de palestra motivacional da área de vendas. Pelos filmes aos quais assisti, sabia que isso um dia iria acontecer, e um hipermercado vazio seria o cenário perfeito. Eu já me preparava para dar o fora dali, quando vi que havia uma mesa cheia de comes e bebes. Isso me fez acompanhar a palestra motivacional. Prestei muita atenção e fiquei imers...

🔵 Esquadrão

Imagem
 O furgão do ‘Esquadrão Classe A’ já foi um sonho de consumo; hoje, aquela geringonça pareceria um carro de sequestrador ou uma “piruinha” de cachorro-quente; portanto, se eu visse um daqueles, suspeitaria estar diante de um “food truck”. No entanto, o furgão preto da série estava carregado de veteranos da Guerra do Vietnã. Isso era muito legal! Era o currículo satisfatório que preenchia as exigências de uma década politicamente incorreta. No tempo em que Sylvester Stallone, Arnold Schwarzenegger, Chuck Norris e Jean Claude Van Damme surravam, metralhavam e explodiam de tudo na ‘Sessão da Tarde’, cercado de violência por todos os lados, o “Esquadrão” era a série certa, no lugar certo e na época certa. Para quem possuía muito dinheiro e pouca imaginação, havia um portfólio de badulaques feitos de plástico e movidos a pilha anunciados com efeitos sonoros e truques de câmera. De um jeito ou de outro, era possível extrapolar as telas e reconstruir o universo dos mercenários “Boinas Ver...

Flanelinha de minoria

Imagem
  Guilherme Boulos estava abusando da tática “xingue-os do que você é, acuse-os do que você faz”, mas na 98, rádio de Natal, Boulos não resistiu a checagem de fatos e foi pego na mentira. Como Lula sempre abriga os companheiros, o psolista  ganhou um ministério inócuo. Ele sempre bajulou o presidente gratuitamente, mas com o novo cargo a subserviência chegou ao paroxismo. Boulos quer ser a “reencarnação” do petista, por isso, já lança mão da técnica lulista para pensar, mentir e intimidar repórteres em entrevistas: “Deixa eu te dizer uma coisa”. A arrogância da interrupção sai carregada de suposta verdade. Desse jeito, o “arruaceiro profissional" acusou as jornalistas de mentirosas. No entanto, uma rápida consulta ao ‘Google’ desmentiu o ministro ao vivo.  A assessoria do Guilherme Boulos recolheu seu mentiroso compulsivo antes que a falta de credibilidade atribuída à rádio nordestina grudasse nele mesmo. Tarde demais, as redes não perdoaram. O  eterno postulante a u...

🔵 Fogo amigo

Imagem
  Disparos e perseguição substituíam a paz bucólica. Próximo à Grande São Paulo, aquele “teatro de operações” com características de zona rural havia deixado de ser refúgio paulistano para abrigar mercenários com “punhal na bota, sangue nos olhos e faca nos dentes”. Os tiros atingiam os alvos errados. Aquele bang-bang a esmo alvejara abrigos antibalísticos, árvores, pilhas de tijolos e o nada. A correria, improdutiva, seria efusivamente desviada rumo ao estoque de comida e bebida. Entretanto, os combatentes reuniram as últimas forças para o ataque final. A correria frenética acabou na varanda da chácara de Santa Isabel. Os moradores daquele condomínio perceberam que o armamento era de brinquedo, e o barulho se tratava de uma “guerrinha” entre amigos. No entanto, a “síndrome do pequeno poder" contaminou o grupo que atacou e imbuiu de autoridade ilimitada e truculência de última hora, portanto, não havia amigos, somente inimigos que deviam ser tratados com o rigor reservado aos fugi...

🔵 Malucos, beleza!

Imagem
  Estava acostumado a testemunhar coisas estranhas que não alteravam a rotina da cidade de São Paulo. Uma vaca na calçada ou a Galinha Pintadinha de asas dadas com uma senhora não roubavam a atenção dos cidadãos paulistanos. Como eu enxergava detalhes que quebravam o mau humor da Capital, quando via esse tipo de coisa jamais deixava de abrir um sorriso. Nesse contexto, não estranhei aquele amontoado de sósias de Raul Seixas interrompendo o meu caminho à faculdade. Àquela noite, a Praça Ramos foi ocupada por uma convenção do “Maluco Beleza”. A quantidade de sósias não me surpreendeu tanto, pois com óculos escuros, barba escondendo o rosto, jaqueta de couro e voz rouca com sotaque baiano até eu passo como a reencarnação do ídolo. Então, ouvindo aquelas conversas dos fãs do roqueiro, imaginei as pouco verossímeis experiências esotéricas, bem como alguns falando como se fossem o próprio. O encontro anual dos idênticos ao doidão me obrigou a achar tudo aquilo normal. Pensei que consegui...

🔵 Circo "raiz"

Imagem
 Aquilo só podia ser uma ideia do meu pai. Como éramos muito novos, fomos capturados e, como reféns, levados a um cirquinho da velha guarda. A inocência infantil me habilitava a achar graça em palhaços “raiz” como a dupla Torresmo e Pururuca. Sem esperar palhaços de nomes com menção gastronômica, fomos ao circo ‘Orlando Orfei’. Antes da proibição de maus tratos animais, estávamos na expectativa de ver bichos amestrados: macaquinhos andando de bicicleta, elefantes jogando futebol e ursos fazendo ginástica. Mas chegamos muito cedo e testemunhamos o velho Orlando Orfei que tinha acabado de acordar. Assistir ao dono do circo começando o dia não era um número circense que eu esperava, por isso, aquilo decepcionou quem achava que veria animais amestrados. É fácil deduzir, fazia muito tempo que meu pai não encarava um circo, muito menos chegar pela entrada principal, não por um buraco na lona, Eu não queria ver aquilo, estava ansioso para assistir aos animais sendo chicoteados, alguns tru...

🔵 Comissão da verdade

Imagem
  Bastava uma mentira para eu vampirizar os pagadores de impostos numa futura “comissão da verdade". O governo militar já acabou faz tempo, mas muitos vivem de pensão vitalícia. Há aqueles que ficaram sem ter lucrado às custas da real perseguição política; mas também há quem romantizou uma simples revista policial como “luta pela democracia”. Mas eu estraguei tudo. Poderia viver me gabando de ter sido um “Cara-pintada”, mas achei que aquela mega manifestação era só mais um dia sem aula. Minha sinceridade, talvez ingenuidade, encorajou-me a escrever uma crônica confessando a minha motivação banal. No entanto, se eu fingisse eternamente um ímpeto patriótico, o espírito revolucionário, o destemor da juventude, a luta pela democracia e a resistência contra o sistema, já poderia “esfregar as mãos” esperando um ressarcimento federal. Mas arruinei tudo. Com apenas 17 anos, eu nunca poderia imaginar que um momento efêmero de alegria e embriaguez juvenil poderia acarretar um futuro heroico...

🔵🎵 Silvio Santos vem aí🎵

Imagem
  Havia chegado o grande dia da inauguração da loja ‘Tamakavy’. Nem precisava de muito para eu prestigiar a implantação daquela unidade da rede de lojas com nome esquisito. O principal motivo para eu estar ali, eram os carrinhos de pipoca e algodão-doce inteiramente grátis. Eu realmente não tinha entusiasmo para celebrar a abertura de mais uma loja na minha rua. Mas a ‘Tamakayy Móveis’ era do Silvio Santos, e existia o boato de ele vir animar aquele povo de Guarulhos que se contentava com algodão-doce e saquinho de pipocas. Bem de manhã eu fui pensando que seria o primeiro da fila, porém, todos devem ter pensado o mesmo. Entretanto, logo vi, ninguém foi para lá com a intenção de comprar um jogo de mesa e cadeiras ou um conjunto estofado da promoção sem juros no crediário. Todos estavam na porta da loja esperando para comer de graça. A bandinha — de músicos de coreto aposentados, que trajava um uniforme militar, porém, vermelho e amarrotado — tocava uma porção de musiquinhas popular...

Engajamento de ocasião

Imagem
 Próximo da cerimônia do Oscar, foi fácil achar o Wagner Moura falando sobre Bolsonaro, assim como foi difícil flagrar o ator comentando sobre seu filme.  Apesar de vencedor de prêmios e candidato ao troféu”estadunidense”, mister Moura parece politizado e muito à vontade no tema porque só fala sobre política com viés progressista.  Mentira! Ele vive disso. Wagner aparece “beijando a mão” do Lula, mas poderia ser outro, bastava pagar bem. O ator também bebe da estética dos tempos da ditadura, apesar de ter nascido em 1976. Destaque: a Ditadura já demonstrava a fraqueza dos seus estertores. Parece plausível: se fosse rentável, Wagner Moura resgataria os temas anacrônicos do Brasil Imperial,  República do Café com Leite ou Getúlio Vargas. Portanto, o excelente ator apenas interpreta um papel em tempo integral. Sendo simpáticos à “mão que balança o berço” ou “lambendo o dono que coloca as tigelas de ração  e água”, têm os artistas de vídeos engajados, de denúncia ou...

🔵 Tem um saci no ônibus

Imagem
  Aparentemente, não havia nada fora do cotidiano na capital paulista, entretanto, não é todo dia que se vê o formidável ser mítico que habita lugares silvícolas como as florestas. No ambiente urbano, circulando por ruas, avenidas e viadutos, entre edifícios e semáforos, nosso ônibus transportava o Saci Pererê. Sua reação sinalizou que o ator estava acostumado com os olhares tentando descobrir quem seria o “famoso quem?”. Apesar da esplêndida figura onírica, eu não estava sonhando. O fabuloso personagem havia saído do fantástico mundo do ‘Sítio do Picapau Amarelo’ para se materializar ali, num banco do coletivo para a USP - Cidade Universitária! Embora inverossímil, eu nutri minha imaginação com algo que acabou com a normalidade de mais um dia corriqueiro. Aquilo era demais para a minha cabeça, achar que aquele sujeito se tratava do folclórico personagem tabagista e portador de necessidades especiais! Era improvável que aquele habitante do paraíso idílico estivesse a bordo do trans...

🔵 A coisa

Imagem
  Chamei o meu amigo. Demorou, mas eu insisti porque a luz acesa denunciava alguma presença. A irmã mais velha dele atendeu. Achei que ele não estava. Engano. Eu havia interrompido uma sessão de retirada de um furúnculo. Eu não poderia perder aquele espetáculo de sofrimento, dor e lágrimas. Não sei se ela percebeu a minha insistência em ficar para a “cirurgia”, mas me convidou para assistir à extração. Como já esperava aquilo, fui logo entrando na casa. O nome era repulsivo como o de uma meleca cósmica. Desconfiando que aquele ferimento não poderia ter surgido nesse planeta, procurei manter uma distância segura, de modo que eu jamais fosse atingido pela infecção que deveria ser interplanetária. Eu mantive a expectativa de assistir a algo comparável a uma ficção científica dos anos 50. Definitivamente, aquela coisa não era humana. Sobretudo na escola, eu já havia visto braço, perna e outros ossos quebrados, bem como, outras mazelas infantis que temporariamente ausentavam alguém, tip...

🔵 O comício raiz

Imagem
  Orestes Quércia não era o candidato favorito. Porém, aquele sujeito que cumprimentava a velha guarda de Avaré como um político do interior, estava fazendo a campanha que o levaria ao Palácio dos Bandeirantes. Confirmando o meu interesse incomum, aquele passeio dificilmente faria outro moleque de 11 anos abandonar seus brinquedos. Mas meu pai, sabendo do gosto heterodoxo (para não dizer de mau-gosto), me chamou para ver Quércia na sua parada na turnê da mentira. Em 1986, eu já tinha mais medo do dragão da inflação do que de monstro embaixo da cama, então, eu já sabia o que significava a indestrutível hiperinflação da “década perdida”, que consumia minhas desvalorizadas moedinhas. No caminho interiorano, um cenário composto por praça, coreto e igreja; na plateia, lógico, havia um bêbado que apoiava o candidato em tudo e um cão cor de caramelo à procura de algum pedaço de carne. O palanque modesto sustentava o político Almino Afonso e a atriz Ruth Escobar, a única pessoa famosa ali....

🔵 Tomando conta de um barril

Imagem
 Mais uma festinha e “vá lá em casa, que vai ter um bolinho”. Ainda na vida incipiente, portanto, ainda procurando suprir as exigências do meu paladar infantil, concluí que eu estava tomando banho para ir aonde encontraria bolo e refrigerante. Pelo menos sempre foi assim.  Entretanto, aquela noite seria diferente. Eu e meu amigo, ambos adolescentes, antigos rivais de pião e bolinha-de-gude, fomos apresentados ao barril de chope. Aquela geringonça exercia uma perigosa atração, por isso, eu prefiro descrever o episódio com o eufemismo de “rito de passagem”. Assim que cheguei, notei que o barril de chope era a estrela da festa, isso despertou minha curiosidade. Tratava-se de uma celebração adulta, portanto, a frequência à máquina do quintal era frenética. A curiosidade aumentava, pois a quantidade de copinhos de plástico aguardando o bombeamento da bebida entorpecente escondia o guardião do próprio barril. No meio do empurra-empurra e braços esticados segurando os copos, começamo...

🔵 Lendas, mitos e marketing

Imagem
 O ano de 1986 despertou um súbito interesse por astronomia, só se ouvia falar da passagem do cometa Halley. Como se fosse a Idade Média, o fenômeno espacial despejaria sobre o planeta Terra maus presságios e histeria coletiva.  Mas não poderia haver desgraça maior do que o Sarney, e estávamos na década de oitenta, época de roupas coloridas, ombreiras, óculos espelhados e pochetes, portanto, o cometa famoso comercializaria diversos lixos espaciais em forma de badulaques promocionais e estamparia camisetas, bonés, canecas e bottons. Halley virou uma estrela dos anos 80! No sentido figurado, como Michael Jackson e Madonna. Entretanto, ele ainda não tinha aparecido e sua demora só ampliava o portfólio de produtos cujo tema era aquele aglomerado de gelo e poeira cósmica. Não obstante todo o misticismo fabricado, o incansável viajante celestial nos conectava com a Antiguidade, sendo que já foi testemunhado por civilizações muito antigas. Com um imaginário construído pela televisão ...

🔵 Exposição

Imagem
 A ‘Expomusic’, enfim, havia chegado para interromper a rotina de ir à Galeria do Rock. Aquele pavilhão de exposições reunia aparentes músicos e interessados pelo tema.  Talvez aqueles estandes e corredores reunissem a maior concentração de pretendentes a músicos e quem se arriscava nas primeiras palhetadas de ‘Sweet Child O’Mine’. Quem sabe, algum cabeludo do grupo de amigos, o comportamento de banda de rock ou o Beavis com seu visual de “metaleiro espadinha” legitimasse nossa presença ali. Isso nos dispensava do principal atributo para visitar a ‘Expomusic’: tocar algum instrumento. Se fosse um evento de confecção, o bando de “roqueiros de boutique” seria melhor abastecido, já que era intenso o desfile de bandanas, óculos escuros, jaquetas de couro e calças jeans rasgadas. Aquilo realmente parecia a maior concentração humana de roqueiros “posers”, incluindo nós. Já que engrossávamos aquele “cardume” de charlatães concluímos que a farsa seria completa. Duraria enquanto nos ma...

🔵 Drive-in de filme B

Imagem
 O trânsito da Marginal Pinheiros sempre travava naquele horário. Como “nada é tão ruim que não possa piorar” e “cabeça vazia é oficina do diabo”, os efeitos do monóxido de carbono ajudaram alguém a ter a ideia de aspergir spray de pimenta dentro do carro. A princípio, a gincana parecia besta, mas aquilo seria uma boa prova de resistência que a Academia não oferecia. Resolvemos testar em nós 4 a arma não letal de menor potencial ofensivo recém-adquirida. Não teve jeito, a situação já era incômoda, então, numa tentativa inconsciente de anular o infortúnio vespertino, sugeriram avacalhar tudo com o uso daquele colírio de masoquista. O que era para ser uma simples carona quase se tornou uma realidade distópica. Com os vidros fechados, os efeitos do calor e das partículas em suspensão causaram cegueira temporária, ardência cutânea severa, dificuldade respiratória, tosse e desorientação. Quem via a reação de lacrimejamento e contorcionismo dentro do Corsa deveria achar que estávamos sen...

🔵 Ela

Imagem
  Bastava abastecer a mochila e disparar com a bicicleta. Pedalar com velocidade, de maneira quase suicida, era a alternativa para vencer a ansiedade, também um bocadinho de irresponsabilidade e inconsequência. Sem boletos,  multas ou emprego que exigisse o compromisso diário, podia frequentar aquele clube diariamente. Apesar da liberdade conquistada por ter aceitado não ser mais homenageado no ‘Dia das Crianças’, eu ainda estava no limbo entre o parquinho equipado com gangorra e a quadra poliesportiva. Enquanto eu ainda pertencia a esses dois mundos, ela participava de uma roda de amigos. Como aquele pessoal era mais velho, e era fim de semana, deviam estar combinando uma noite longa, deduzi. Para mim, uma menina de uns 17 anos parecia uma senhora, ou seja, devia ser o que chamavam de coroa. A minha atenção sempre era concentrada naquela garota, mas ela parecia usar aquele clube como “pit stop” para ir a outro lugar. Quem sabe, o que estava acontecendo ali poderia ser o próxi...

🔵 Pretérito imperfeito

Imagem
 Aquele lugar realmente parecia insalubre. Já não era muito confiável uma mesa de bilhar merecendo as atenções. Cercada de cigarro, bebida alcóolica e ovos cozidos  coloridos, ganhava uma fotografia ainda mais dramática. Em exibição, maços de cigarro, e lá no alto, vasilhames empoeirados de Velho Barreiro, Cynar e Fogo Paulista assistiam à partida. A cada intervalo de tacadas mal-sucedidas, o gole na Coca-Cola e o punhado de salgadinho não deixavam dúvidas: éramos 3 pirralhos entregues aos vícios do jogo e guloseimas. O recinto claramente era tóxico e nada indicado para quem vinha da escola e esperava o preparo do almoço. Tínhamos que admitir, estávamos virando frequentadores daquele ambiente repugnante. O álcool e o tabaco pacientemente observavam suas potenciais futuras vítimas. A fumaça de cigarro insistia em encher de nicotina os pulmões ainda limpos.  Aquele boteco degradante contrastava com a inocência escolar, que garantia um final de semana entre equações e mapas ...

Lula pai e Lula filho

Imagem
 Pai zeloso que é, Lula disse que orientou seu filho, Lulinha. Mentira. Quando blindar Lulinha ficou insustentável, o presidente fez o de sempre, livrou a sua pele, dizendo: “Olhei no olho do meu filho e falei: Olha, só você sabe a verdade. Se você tiver alguma coisa, você vai pagar o preço de ter alguma coisa”. Aham.  “Lulinha Paz e Amor” falou com a convicção de quando promete a paz entre os povos ou jura que acabou com a fome. Mas a emenda ficou pior que o soneto, e a suposta corrigenda paterna ficou parecendo bronca no filho que quebrou o vaso de porcelana. Logicamente, sem que tenha que “sujar as mãos”, as “coisas acontecem” a favor de Lula, e a tropa de choque petista já está agindo para esconder o filho que Lula “quer que seja investigado”. Porém, como seria cruel demais “celsodanielizar” o menino, Lulinha está na Espanha! Que coisa… Conclusão, as “coincidências” concorrem para que as investigações sejam emperradas. Dessa vez foi impossível empurrar o problema para o Bo...

🔵 Antes que eu me esqueça

Imagem
  Aquela multidão estava ali para ver o velho palhaço da TV e suas — numa linguagem apropriada à antiguidade da atração — traquinagens. Certamente, nós, a criançada, estávamos naquele colégio sob influência dos nossos pais. Ou seja, éramos a desculpa perfeita para nossos pais assistirem ao palhaço idoso que alegrou uma infância remota. Ainda estava incólume a um humor mais... por assim dizer, ácido. Meu futuro humorístico seria composto por revistas e programas mais anárquicos e viscerais como Mad, Chiclete com Banana, TV Pirata, Casseta & Planeta etc. Os estertores da censura ainda escondiam um escracho politicamente incorreto que transbordaria depois da abertura cultural.  Entretanto, por ainda estar numa incipiente e inocente vida pueril, era tempo de eu ser capturado por piadas infantis, caretas, torta na cara, pum com farinha e calça com elástico frouxo, uma coisa mais circense. Portanto, mesmo sendo um refém, eu era um dos que aguardava a dupla de histriões dóceis, p...

🔵 Comida de rua

Imagem
 Ir até a travessa da Avenida Paulista era um dos preços que teríamos que pagar para comer o “hotdog” do qual tanto falavam. Devido ao endereço turístico, o velho cachorro-quente era conhecido com o nome importado, mas logo seria conhecido pelo apelido: dogão. Depois de algum tempo, a parada obrigatória começou a esticar a noitada e anunciar uma nova saideira.  Entretanto, a parada improvisada foi transformada em um novo destino. O logotipo estampava um cão preto, com óculos escuros, aspergindo “catchup” no sanduíche. O salão seguia o padrão americano da lanchonete do palhaço. Tudo destoava da antiga barraquinha de cachorro-quente do “Paraná”. A lanchonete da rua transversal à avenida famosa em nada lembrava aquela barraquinha onde matávamos a fome da madrugada; mais parecia uma filial de McDonald’s de shopping center. Provavelmente, teria uma plaquinha escrito “Visite a nossa cozinha”, um informativo de inspeção da Vigilância Sanitária, extintores e o preço do “dogão”, digo, ...